sábado, 11 de abril de 2026

As charmosas magrelas

Outro dia tava distraída e, de repente, descobri uma exposição sobre a história das bicicletas... ah... tão lindas! Sempre gostei de bicicleta e, de uns tempos pra cá, gosto cada vez mais... e não faço ideia do porquê, afinal, nem sei andar... rsrsrs... mas o fato é que elas me encantam! 

Quando vi pela primeira vez o filme "Butch Cassidy", fiquei fascinada pela inesquecível, poética e divertida cena de Paul Newman (Butch) e Katherine Ross (Etta) passeando de bicicleta, ao som de "Raindrops Keep Fallin' on My Head", na voz de B. J. Thomas! Pra mim, é uma das melhores cenas que o cinema produziu... Adoro!


Ah! É triste não saber andar de magrela, mas minha mãe e meu pai sabiam! Lembro de uma história de minha saudosa mãe, que quando era novinha, foi andar de bicicleta, de vestido, toda faceira e elegante, caiu e se ralou toda... coisa de moça destemida... até levou uma bronca da minha avó, por conta da cicatriz na canela, que eu pude comprovar... rsrsrs... Do meu saudoso pai, tenho uma foto dele indo trabalhar... mó charme em duas rodas!


Talvez a bicicleta me dê a sensação de aconchego e, ao mesmo tempo, de liberdade! Sempre imaginava como seria agradável sentir o vento no rosto deslizando por aí! Pra compensar, nas histórias que crio, vez ou outra, tem um personagem que ama andar de bicicleta... rsrsrs... por isso, enquanto escrevo, aproveito e pego carona... é revigorante! Minha imaginação sempre me levou e continua me levando pra tudo que é lado, inclusive pra lá do Atlântico. Já pensou andar de bicicleta pelas ruas de Amsterdã? Eu já... ahahaha! Sonhar é bom, recomendo, além de inspirar, ajuda a enfrentar a realidade brutal e nada sensível!


* Esta delicada crônica em duas rodas é uma homenagem à minha mãe e meu pai, que fariam aniversário nesta semana ❤️ ❤️

* Fotografei esses belos modelos na exposição "Memória Viva, histórias que atravessam gerações - Edição Bicicletas".

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O incontestável fascínio da Natureza

– É incrível a facilidade que o ser humano tem de arrumar conflitos por poder! É triste ver tiranos descompensados causando o terror, querendo acabar com uma civilização!

– Já te falei pra não ler o noticiário antes do café da manhã! Tá cada dia mais indigesto... 

– Eu sei, amor! Mas é grave demais pra não pensar! Além disso, vivemos com notícias pipocando na nossa cara mesmo sem a gente querer!

– Internet do caramba!

– Enquanto uns ficam indo encher o saco da Lua... essas missões da Nasa me irritam... tem tanta coisa pra resolver na Terra: guerra pra todo lado, desigualdade social, fome, desmatamento, aquecimento global...

– Por favor, não são nem sete horas da manhã... desse jeito, vou ter de ir pra cama deitar em posição fetal pra ver se me acalmo!

– Não tente me fazer rir, estou estressada, preocupada!

– Desculpe, só quis amenizar um pouco o clima...

– Não é hora de amenizar... os países parecem anestesiados diante das sandices de dois sem noção! Como diz a canção: "é preciso estar atento e forte"!

– Concordo, mas, infelizmente, o interesse econômico é o que move essa engrenagem horrorosa... Por poder, pelo petróleo, os caras colocam a vida do planeta em risco... não estamos falando sobre tiros de metralhadora em campos de batalha, mas sobre mísseis de longo alcance e dos modernos drones, que como toda invenção, vira arma de guerra!

– Esse é meu amor... consciente e a favor da vida e de nosso querido planeta azul!

– Já disse que concordo com você, minha ativista preferida, só não queria que a gente iniciasse o dia com esses assuntos pesados... mas é o que temos pra hoje...

– Agora eu que peço desculpas, amor! Então, vamos tomar nosso café calmamente, como sempre...

– Passe o croissant... ahahaha... calma, me dá um pãozinho amanhecido mesmo... 

– Ah! Peraí que vou te surpreender!

– Uau! Vou aguardar...

– AMOR, VEM AQUI!

– Que grito desesperado é esse? Tô indo...

– Vem aqui na janela... olha que lindo, amor! Um arco-íris!

– Ah! Que demais! Quer fazer uma foto?

– Não, vamos ficar aqui só admirando!

– Ah... o incontestável fascínio da Natureza! Isso é o que temos de mais precioso!

– Precioso é admirar um arco-íris na sua companhia, amor!

– Aí é a perfeição... vem cá que abraçado é melhor!

– Adoro! :)


* A foto que ilustra esta reflexiva crônica foi feita ontem pela manhã... adoro registrar as belezas da Natureza!

sábado, 4 de abril de 2026

A adorável Torre

Outro dia, procurando um filme no qual pudesse mergulhar pra esquecer um pouco as mazelas do mundo, me deparei com "Eiffel", sobre a construção do monumento que mais admiro: a Torre, símbolo de Paris, cidade que tive o prazer de conhecer em 2015! A coincidência é que assisti poucos dias após o monumento completar 137 anos (31 de março). Pra quem, como eu, adora a capital francesa e o maior ícone da engenharia mundial, certamente, era a escolha perfeita para uma singela e caseira sessão de cinema!
O longa, que tem a direção de Martin Bourboulon, conta a história do engenheiro francês Gustave Eiffel, que participou da construção de várias pontes ferroviárias, como a de Bourdeaux, e que depois de projetar a estrutura metálica interna da Estátua da Liberdade (presente da França para os Estados Unidos), foi convidado pelo governo francês a construir uma obra monumental que representasse a grandeza da França, para a Exposição Universal de 1889, quando, então, ele apresentou o projeto da encantadora Torre, que levaria seu nome e se tornaria um dos monumentos mais visitados do mundo!

Além do tema central ter me conquistado, gostei muito do trabalho impecável do ator Roman Duris interpretando Eiffel e da atriz Emma Mackey, como Adrienne Bourgès. Os dois vivem um romance, que mesmo ficcional, funciona como um tempero a mais ao enredo! Destaco ainda a fotografia e a reconstrução da época, que nos transportam imediatamente à "Cidade Luz"! 

Claro que até gostaria de ver mais detalhes da biografia e da trajetória profissional de Gustave Eiffel, mas pra isso podemos pesquisar (até fiz isso depois de assistir ao filme... rsrsrs). Ah! Se você se interessa pela Torre e por um bom romance, recomendo! Adorei! :)


* As fotos que ilustram esse texto são dois dos inúmeros registros que fiz durante a viagem... rsrsrs... Fiquei impressionada com a beleza da construção, não subi para ver a famosa vista da cidade, mas da próxima vez espero ter esse prazer! Foi muito divertido e inspirador caminhar pelas belas ruas de Paris!

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Uma bela surpresa

Sentado no banco da praça, todos os dias no mesmo horário, ele pensa no que aconteceu ao longo das 24 horas anteriores… e sempre tem alguma coisa que desencadeia uma série de pensamentos que o levam ao passado. Não, ele não é nostálgico, nem gosta de perder tempo na vida, mas, às vezes, as situações se repetem… e nem sempre as atitudes tomadas são as mesmas… enfim… é um encadeamento de pensamentos tão intenso que para voltar a admirar o lindo céu ensolarado costuma levar alguns minutos.

Sua mania de sentar nesse banco todos os dias… ah… nem sei se isso é mania ou é sua hora de prazer, todos têm a sua e se não têm, procurem. É muito bom pensar em pessoas queridas, em momentos bons. Afinal, todos os dias temos momentos bons, basta abrirmos a mente!

Ainda que a paisagem, a luz do Sol, as árvores e tudo à sua volta sejam encantadores... hoje, inexplicavelmente, ele começa a prestar atenção no banco, pois é… o companheiro onde descansa o corpo, enquanto sua alma viaja pelos pensamentos. E fica mais impressionado ainda por nunca ter reparado nas inscrições que marcam o assento do querido banco.

Há tantos anos ele fazia aquele verdadeiro ritual de contemplar a natureza sentado ali que aquele cantinho parecia ser só seu e de suas lembranças, mas pelo jeito parece ser de outras pessoas também. Ao mesmo tempo em que se incomoda com os rabiscos sujando seu assento preferido, fica curioso para ler o que dizem.

Várias datas e letras entrelaçadas, algumas dentro de corações… que bonito! Certamente, são as iniciais de casais apaixonados! Neste momento, uma brisa balança os galhos da árvore e algumas flores minúsculas começam a se espalhar pela grama. Ele olha para cima admirando a chuva de florzinhas douradas e acaba esquecendo por uns instantes dos rabiscos.

Revoadas de passarinhos e o canto de um sabiá laranjeira ao longe deixam tudo ainda mais mágico... pelo menos, aos olhos dele, que troca qualquer coisa para estar ali perto da Natureza e de coisas belas, como a joaninha que pousa em seu joelho por um instante.

Distraído, ele coloca a mão no banco, sente as ranhuras e se pergunta como puderam machucar assim a madeira de seu companheiro de reflexões! De repente, ele olha para um coração, delicadamente esculpido, que quase se esconde num cantinho, e um arrepio percorre todo seu corpo. Incrédulo, ele lê seu nome junto ao da esposa. Ah! Então ela nos gravou na memória da praça? Mas como nunca me contou? Quando será que fez isso? Ele se concentra, irrita-se em não ter ido ao oftalmologista para trocar os óculos, mas eis que seus olhos se enchem de lágrimas… a data esculpida na madeira é a mesma em que eles se conheceram há exatos 60 anos!

– Meu amigo, eu nem imaginava que você fosse tão antigo! Ahahaha… estou surpreso!

– Por que surpreso, meu bem?

– Você estava aí há muito tempo, querida?

– Não, cheguei agora, mas a tempo de ouvir sua exclamação!

– Desculpe, mas estou impressionado de você nunca ter me contado que esculpiu nossos nomes dentro de um lindo coraçãozinho… e no meu banco preferido!

– Todos temos nossos segredos… por acaso, você me conta todas as lembranças que têm durante suas reflexões diárias aqui na praça?

– Nada demais, reflexões de um velho que ama sua esposa e que adoraria saber que todos os dias senta em cima de nossa história!

– Ah, querido! Na verdade, adoro saber que o banco que escolhi marcar nosso encontro de almas foi o mesmo que escolheu para pensar na vida…

– Garota esperta, escolheu o cantinho mais bonito da praça e o banco mais paciente e bom ouvinte que conheço! Talvez ele seja assim porque sabe que faz parte de nossa história…

– Sim! Você também foi um garoto esperto em escolher este belo banco! Mas agora vamos para casa, acabei de assar a torta… 

– Aquela que eu adoro?

– Exatamente! :)


*A foto que ilustra esta delicada crônica é de minha autoria e foi feita em uma visita que fiz à cidade de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Um banco... um pássaro... em uma bela e inspiradora praça!

quinta-feira, 26 de março de 2026

Uma ilha e seus segredos

Gabriel García Márquez é sempre encantador! Ler "Em agosto nos vemos" é um prazer não só pela escrita inspiradora, mas pelos personagens profundamente humanos, vivenciando o amor e suas desventuras.

O romance narra a história de Ana Magdalena Bach, uma mulher de 46 anos que, uma vez por ano, visita o túmulo de sua mãe em uma ilha caribenha. As visitas, que antes eram apenas para levar flores em memória da mãe, mudam completamente quando ela conhece um homem com quem passa a noite. O encontro desperta desejos talvez adormecidos pela rotina de seu casamento e, a partir daí, ela passa a considerar as visitas à ilha como novas oportunidades de viver tórridas experiências cada vez com um amante diferente. 

A obra póstuma, ainda que não tenha tido a aprovação final do autor, traz o estilo inconfundível, a maestria narrativa... o cotidiano visto pela lente poética de Gabo! O que mais gosto é a forma como o autor nos coloca nos cenários, detalhando cada objeto, a maneira como nos apresenta seus personagens, características físicas, como se vestem, seus sentimentos, pensamentos, desejos, medos... é incrível como, ao longo das páginas, vamos nos familiarizando com a protagonista e seus segredos.

A riqueza de detalhes torna a leitura tão envolvente que passamos a esperar a chegada de um novo agosto só para acompanharmos Ana Magdalena Bach à ilha caribenha, quem sabe, em busca de amor, carinho, prazer... e tudo que temos direito... rsrsrs... Viva Gabo! Viva a Literatura da América Latina! :)

terça-feira, 24 de março de 2026

Uma delicada e reflexiva animação

Quando vi o cartaz de "A pequena Amélie", achei que a animação era o que precisava no momento: a doçura, a ingenuidade e a magia das descobertas infantis! Isso porque acredito que a cada recomeço, precisamos buscar a criança dentro de nós para nos encorajar e nos ajudar a trilhar novos caminhos!

A ida ao cinema foi uma experiência bastante relaxante, primeira sessão da tarde, poucas pessoas, mas algumas bem interessantes. Amigas de longa data, duas senhoras me chamaram a atenção, muito animadas e, ao mesmo tempo, discretas... ainda no café do cinema, descobri que também iam assistir a menininha do cartaz... Adorei! Como todos que gostam de escrever e veem personagens em todos os lugares, fiquei observando discretamente as senhorinhas. Além delas, alguns senhorzinhos. Todos curiosos para conhecer Amélie!

A animação franco-belga usa cores vivas para mostrar a fascinante história de uma menina de três anos, que descobre, entre alegrias e conquistas, perdas e frustrações, o sentido da vida! Inclusive, o uso das cores não só apresenta a beleza das paisagens orientais, mas também retrata as sutilezas emocionais da protagonista. Filha de diplomatas belgas, Amélie nasce no Japão e passa seus primeiros anos em silêncio, como se observasse o mundo, numa espécie de estado vegetativo. A partir do momento em que ela desperta para a vida, embarcamos numa viajem encantadora de descobertas que nos fazem refletir e até lembrar de nossa própria infância!

Duas cenas me conquistaram: a primeira, quando a avó paterna apresenta à pequena o chocolate belga... uau... que sensação adorável... até senti o sabor... rsrsrs;  a segunda, quando a menina descobre a alegria que é tomar chuva... Ah! A Gi pequenininha adorou! Lembrei que meu pai costumava me levar no quintal pra perder o medo da chuva, minha mãe que tinha pavor de trovões e relâmpagos gostava da ideia da filha ser mais corajosa! Saudade... boas lembranças! É isso, Amélie nos faz reencontrar nossa criança! Salve todas as forma de arte! Viva a animação e o cinema! :)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Forte, sem perder a ternura

Ilustração: Hiro Kawahara
Ser forte não nos isenta da necessidade de colo de vez em quando. Tenho tentado passar pelos obstáculos e rasteiras com serenidade. Pra isso, rir de mim mesma é uma das formas que encontro de enfrentar os percalços. O sorriso sempre nos leva longe, ainda que nosso olhar, por vezes, revele uma pontinha de tristeza.

E "cada vez que o mundo diz não", sigo em frente, tentando "manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo". Tudo é uma questão de equilíbrio.

Tá difícil? Sim, só eu sei o quanto, aliás, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", por isso, concentro-me em realizar sonhos, fazendo tudo com amor e seguindo minha intuição.

Escrever me salva, me faz sonhar e encontrar caminhos. Afinal, é preciso caminhar... um passo de cada vez, com calma e direção! Viva nossos grandes Guilherme Arantes, Walter Franco e Caetano Veloso, que sempre me inspiram e temperam minha humilde crônica com seus belos versos! :)


* Agradeço ao querido Hiro Kawahara (@hirokawahara) pela doce ilustração, sua arte é sempre inspiradora! Obrigada pela gentileza e admirável talento!

sábado, 31 de janeiro de 2026

Uma bela homenagem

Como fã de René Goscinny e Jean-Jacques Sempé, nem tentei resistir a essa delicadeza intitulada "O Pequeno Nicolau: o que a gente está esperando para ser feliz?". Trata-se de uma bela homenagem de Anne Goscinny, com adaptação gráfica de Fabrice Ascione, aos criadores do querido menininho que adora brincar e se aventurar com seus colegas de escola!

No livro, o próprio Nicolau conta como Goscinny e Sempé se conheceram, como foi sua criação, a amizade entre seus autores... em suas palavras "a mais bela de todas as minhas aventuras". Com muita sensibilidade, a obra mostra a beleza da infância e sua capacidade de encontrar a felicidade nas pequenas coisas, nas relações humanas e nos momentos mais corriqueiros da vida.

Sempre de maneira leve e divertida, a narrativa nos apresenta os desafios pessoais e profissionais enfrentados por esses dois ícones dos quadrinhos franceses que encantaram o mundo com sua arte!
A leitura me instigou a ler a coleção inteira de "O Pequeno Nicolau" e todos os quadrinhos e livros assinados pelos dois! Aplausos às parcerias entre talentosos escritores e ilustradores, que nos divertem e nos emocionam! Viva Goscinny-Sempé! :)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Primeiros passos de Saramago

Livros de José Saramago sempre me atraem, mas a história que envolve "Claraboia" me instigou ainda mais à leitura. Escrito no início da década de 1950, o original foi enviado para uma editora e acabou engavetado, sem qualquer retorno ao jovem autor. Mais tarde, em 1980, quando já era um escritor consagrado, a mesma editora entrou em contato para publicar o livro, o autor recusou e deixou claro que não gostaria de vê-lo editado em vida. 

Publicada em 2011, a obra é uma janela aberta pelo narrador para nos apresentar a rotina dos moradores de um pequeno prédio, em Lisboa, durante a primavera de 1952. Logo abrindo o primeiro capítulo, conhecemos Silvestre, o sábio sapateiro, e sua esposa Mariana, que mesmo depois de trinta anos de casados "amavam-se ternamente". São meus personagens preferidos pela leveza e postura, como diz o autor, "duas crianças, sem tirar nem pôr". E também pela profundidade das reflexões sobre a vida entre Silvestre e Abel, o jovem que aluga um quarto no apartamento do casal! Altas conversas, diálogos de mestre!

Admiro a genialidade de Samarago ao criar narrativas profundas, personagens bem construídos e, ao mesmo tempo, nos proporcionar momentos divertidos... bom-humor é tudo... rsrsrs... Como quando Anselmo, Rosália e a filha Maria Cláudia ouvem no rádio "o soluçar plangente e lastimoso do fado mais desabaladamente lancinante que jamais cantaram gargantas portuguesas"... pra completar, o autor comenta: "outro fado assim, e de três criaturas de saúde normal restariam três neuróticos"... ahahaha... adoro!

O autor detalha tão bem as características físicas e psicológicas dos personagens e seus desafios cotidianos que dá a impressão de conhecermos intimamente os moradores do prédio e até nos sentimos um deles!

"Claraboia" mostra um Saramago florescendo lindamente para a Literatura, com personagens cativantes e, acima de tudo, humanos, marca presente em toda sua obra. Ah! Já disse que o escritor português é um dos meus prediletos, ler seus livros é aconchego! Só pra registrar: ganhei este exemplar de presente de Natal do meu irmão Gerson e... adorei! Viva a literatura lusófona! Viva Saramago! :)

sábado, 24 de janeiro de 2026

Sempé e dois Patricks

Que adoro o traço delicado e sensível de Jean-Jacques Sempé não é novidade, estou sempre tentando garimpar as obras desse grande ilustrador, cartunista e um dos pioneiros do romance gráfico francês. Em minha constante procura, curiosamente, encontrei dois livros ilustrados por ele, cujos escritores chamam-se Patrick: "Filomena Firmeza", do também francês Patrick Modiano; e "A história do senhor Sommer", do escritor alemão Patrick Süskind. Duas belas narrativas enriquecidas pela arte irretocável de Sempé!

"Filomena Firmeza" é um respiro para esquecermos as sandices que acontecem mundo afora. O livro conta a história de Filomena que, adulta, relembra a infância com seu pai em Paris. A rotina de trabalho do pai era um mistério para a filha, mas nada que atrapalhasse a relação profunda, leve e, muitas vezes, divertida. É claro que ao ler um enredo sobre infância, acabamos por lembrar das nossas próprias experiências, mas é preciso ressaltar também como a força do texto e a genialidade da arte se complementam e ajudam a nos colocar na Paris sempre tão bem retratada por Sempé e, nesse caso, tão bem contada por Modiano!

Adoro o trecho em que a protagonista conta que tirar os óculos para dançar não a atrapalha em nada... ao que o pai responde: "Vai acontecer com você como aconteceu comigo quando eu era jovem... Quando você estiver sem óculos, os outros vão enxergar em seu olhar uma espécie de névoa e de doçura... A isso se dá o nome de charme..." Ah! Que meigo!


Outra curiosidade entre as obras é que, em "A história do senhor Sommer", o tema também são as lembraças da infância. Ilustrado pelo delicado traço de Sempé, o texto de Süskind aborda temas corriqueiros, mas profundos e instigantes. O narrador já adulto nos conta experiências boas e outras nem tanto, de maneira leve e divertida, mas sempre instigando o leitor a refletir sobre suas próprias lembranças e como lidamos com os obstáculos que enfrentamos ao longo da vida.

Subir em árvores, aprender a andar de bicicleta, o primeiro amor, estudar piano com uma professora altamente exigente são algumas das passagens que o protagonista narra com bastante humor e toques de ironia, mas a cereja do bolo (sempre quis usar essa expressão... rsrsrs) são as aparições da figura misteriosa, conhecido como senhor Sommer, um andarilho que ninguém sabe de onde veio e por que anda dia e noite a passos vigorosos pelas redondezas portando apenas um cajado e uma mochila. A misteriosa figura chama a atenção do menino e acaba fazendo o pequeno refletir sobre o que o destino reserva para cada um.

  Sempé/Modiano                   Sempé/Süskind

Ah! Histórias que nos brindam com doces ilustrações de Jean-Jacques Sempé são sempre prazerosas. Aplausos às belas parcerias! Viva os escritores! Viva os ilustradores! :)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Um certo falso beato

"A relíquia", de Eça de Queirós, conta a história de Teodorico Raposo, um rapaz habituado a aventuras e amores, que precisa fingir-se religioso para sua tia, D. Patrocínio das Neves.

O leitor acompanha as lembranças do protagonista desde quando perde os pais na infância e passa a morar com a tia rica, severa e, absolutamente, beata; passando por aventuras amorosas; até a viagem à Jerusalém, que provoca uma mudança em sua postura.

Sempre tentando agradar à tia, ele leva uma vida dupla se envolvendo em uma série de situações bizarras, divertidas e até emocionantes, mas sempre pensando em se tornar o herdeiro da fortuna de D. Patrocínio.

Sem contar detalhes, o que posso dizer é que o escritor português, mais uma vez, mostra todo seu talento criativo ao retratar/criticar a sociedade portuguesa da época e colocar em discussão a veracidade dos mitos religiosos.

Certamente, o que mais me surpreendeu foi quando Teodorico volta da viagem certo que vai abafar com a "relíquia" sagrada que dará à sua devota tia... confesso que ri alto da situação e da desfaçatez do protagonista!

Ah! A leitura é envolvente, nos faz refletir sobre a falta de limites da hipocrisia humana e sobre o fato de que colocar a mão na consciência, muitas vezes, pode mudar o rumo de uma vida, ainda que nosso Teodorico seja levemente incorrigível! Salve a genialidade do grande Eça de Queirós! Viva a Literatura clássica que tanto nos inspira! :)

sábado, 17 de janeiro de 2026

Celebrando a Cidade Luz

"Paris é uma festa", de Ernest Hemingway, é especialmente encantador por apresentar as experiências de um escritor em início de carreira e por ter como cenário Paris dos anos 1920!

Nada mais agradável para quem, como eu, gosta de escrever e já teve o prazer de visitar a adorável Cidade Luz do que ler uma narrativa leve, irônica, amorosa sobre a agitada vida na capital francesa, seus escritores e artistas, as pessoas comuns, seus cafés, suas charmosas ruas, enfim, uma festa a cada página... ops... a cada esquina!

Já no primeiro capítulo, Hemingway me conquista quando fala sobre um "bom café" que conhecia na Place Saint-Michel. "Era um café agradável, quente, limpo e acolhedor. Pendurei minha velha capa no cabide para secar, coloquei meu surrado e desbotado chapéu de feltro na prateleira que ficava por cima dos bancos e pedi um café au lait. O garçom trouxe-o e eu tirei do bolso do paletó o caderno de notas, um lápis, e comecei a escrever." Ah! Esse trecho é identificação imediata! Sempre gostei de ir às cafeterias com meus bloquinhos e já escrevi algumas crônicas, contos e trechos de livros nesse ambiente! Adoro... é inspirador!

Naquele tempo, ele não tinha dinheiro para comprar livros, mas os alugava na Shakespeare and Company, biblioteca e livraria de Sylvia Beach, figura cordial e amável, que deixou Hemingway pagar pelo empréstimo dos livros quando tivesse dinheiro. Generosidade é tudo! E assim ele conseguia ler com frequência, alías, necessidade básica de qualquer autor!

Na luta para ser um bom escritor e, ao mesmo tempo, ser fiel a si próprio, Hemingway narra a dificuldade financeira pontuada pela sensibilidade, crueza e ironia. Em dias em que, pela falta de dinheiro, era difícil até se alimentar, o autor nos envolve em uma narrativa rica e emocionante pelas ruas da cidade. "Se você não se alimentasse bem em Paris, tinha sempre uma fome mortal, pois todas as padarias exibiam coisas maravilhosas em suas vitrinas, e muitas pessoas comiam ao ar livre, em mesas na calçada, de modo que por toda parte se via comida ou se sentia o seu cheiro."

Outra situação com a qual me identifiquei bastante... rsrsrs... é quando ele reclama que está escrevendo concentrado, com a inspiração nível alto, e chega alguém para atrapalhar... "Era nesses momentos que um intruso poderia estragar tudo... Lá se ia embora a minha sorte, e o melhor era fechar o caderno. Nada pior do que isso." Pois é, também já me sentei em um café para escrever sozinha no meu canto e tive o desprazer de ser achada por esse tipo de ser humano... é de lascar! Também concordo com Hem (é tanta identificação que já tô íntima do colega... rsrsrs...) quando ele diz: "A única coisa capaz de nos estragar o dia eram pessoas, mas, se se pudesse evitar encontros, os dias não tinham limites. As pessoas eram sempre limitadoras da felicidade, exceto aquelas poucas que eram tão boas quanto a própria primavera." Assino embaixo!

Ah! O livro é uma festa! Poderia ficar aqui falando por parágrafos e mais parágrafos sobre a relação de amor e companheirismo dele com a esposa, Hadley; os vários amigos anônimos e famosos com quem viveu inúmeras situações, como o talentoso e perturbado escritor Scott Fitzgerald... mas preferi ressaltar os momentos em que Hem inspirou e até incentivou a Gi escritora e sua necessidade básica de escrever histórias! Viva Paris! Salve Hemingway! :)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Frutas temperamentais

– Precisamos falar sobre bananas!

– Você diz as frutas?

– Claro! Você pensou que seria sobre o quê?

– Sei lá! Tô aqui concentrado calculando se o armarinho que compramos vai caber no...

– ... alto lá! Nós compramos, não! Você comprou! Eu disse que tinha que medir antes.

– Tá bom, armário que eu comprei! Mas você não pode negar que se encantou quando nos deparamos com ele na loja!

– Erro meu! Devia ter disfarçado o encantamento...

– Ahahaha! Agora, chega de cálculos! Sobre o que precisamos conversar?

– Sobre a pressa que as queridas bananas têm de amadurecer de uma hora pra outra... parece coisa de superpoder!

– Ahahaha! Desculpe pela risada, sei que o tema é sensível... mas a rapidez com que elas amadurecem realmente é digna do Flash!

– Ahahaha... bobo! Isso não é pra rir. Lembra o que aconteceu na semana passada? Compramos meia dúzia amarelinhas bem firmes, mas bastou uma noite na fruteira pra ficarem moles, quase podres!

– Sim... fiquei chateado porque elas acabaram com meu café da manhã... estavam pra lá de Bagdá!

– Porém, como não me dou por vencida, esta semana, lancei mão de outra estratégia: comprei meia dúzia amarela, mas ainda durinhas, e meia dúzia absolutamente verde! E mais do que isso, enquanto arrumava na fruteira, pedi encarecidamente para que não inventassem de amadurecer todas juntas!

– Bem que tive a impressão de ouvir você implorando alguma coisa na cozinha... ahahaha...

– Ria, insensível! As bananas precisam ser estudadas... sinceramente, elas parecem rir da cara da gente, podem estar verdes feito o Hulk... 

– Ahahaha... pra continuar no tema super-heróis... você é incrível, amor!

– Engraçadinho... como eu ia dizendo, elas podem estar verdes feito o Hulk na gôndola do supermercado ou na feira, basta chegar em casa e, em poucas horas, amolecem como marias-moles! Desaforadas!

– Ahahaha... o que eu digo agora?

– Não precisa dizer nada, querido! Apenas compartilhe de minha indignação!

– Compartilho inteiramente! Às vezes, dá vontade de parar de comprar bananas... dar um tempo, mas é que quando ela tá molinha você faz um bolo tão gostoso!

– Obrigada! Sinceramente, prefiro a opção de dar um tempo, porque toda hora fazer bolo de banana está ficando inviável!

– Ah! A gente congela!

– Acho que deve ser mais fácil conseguir uma licença pra vender na rua do que arrumar lugar no freezer pra quantidade de bolo que tenho feito! A gente não come mais a fruta in natura, só em forma de bolo...

– Calma, amor!

– Por acaso, quando foi a última vez que você comeu uma banana, querido?

– É verdade, nem lembro mais...

– Tô falando! Outro que me irrita é o abacate!

– Esse é difícil... a gente compra maduro e quando corta, é só machucado!

– E se quiser companhia, compre um abacate bem verde, duro mesmo... ele vai ficar na sua fruteira intacto por décadas!

– E, muitas vezes, pulando etapas... de verde direto pra podre!

– Ainda assim, continuo achando as bananas mais atrevidas!

– Ahahaha... imagina se tivessem olhos!

– Na minha imaginação, elas têm olhos, daqueles que julgam a gente...ahahaha...

– Ahahaha... olhos blasé... 

Falando assim parece que a gente tá exagerando, mas acho que até nossa fruteira tá ficando traumatizada!

– Ahahaha... será que vamos ter que conversar com ela, querida?

– Ah! Você que converse com a fruteira, já cansei de conversar com as bananas sem resultado!

Acho que a gente precisa viajar um pouco, espairecer... vamos pesquisar destinos inusitados?

– Uau! Já esqueci as frutas!

– Ahahaha... não fale assim, precisamos delas!

– Tô brincando, você sabe que amo bananas, abacates e afins.

– A única coisa que sei é que a gente se ama! O resto é salada de fruta...

– Que poético! :)

sábado, 10 de janeiro de 2026

Memórias peregrinas

Em "Doze contos peregrinos", Gabriel García Márquez nos apresenta histórias de latino-americanos na Europa, sempre saudosos da terra natal e vivendo experiências em que o corriqueiro e o fantástico se misturam.

Já disse em postagens anteriores que gosto muito da forma como o autor nos envolve em seus enredos profundos, mas confesso que, no caso dessa obra, o que mais gostei foi o prólogo, talvez porque me arrisco a escrever e tomei suas palavras como ensinamentos de um mestre!

Durante anos, Gabo anotou temas que iam lhe ocorrendo sem decidir o que fazer com eles... até que um dia ficou claro que suas anotações não resultariam em um romance, mas em uma coleção de contos curtos, "baseados em fatos jornalísticos mas redimidos de sua condição mortal pelas astúcias da poesia."

Vencendo as incertezas, os contos, finalmente, foram reescritos. "A escrita tornou-se então fluida, e tanto que às vezes me sentia escrevendo pelo puro prazer de narrar, que é talvez o estado humano que mais se parece à levitação"... Ah! Concordo muito!

Adoro este trecho que mostra bem o tempero do querido Gabo... rsrsrs: "Sempre acreditei que toda versão de um conto é melhor que a anterior. Como saber então qual deve ser a última? É um segredo do ofício que não obedece às leis da inteligência mas à magia dos instintos, como a cozinheira que sabe quando a sopa está no ponto."

Entre os contos propriamente ditos, destaco três: "Me alugo para sonhar", que tem a marca do mestre do realismo fantástico; "Só vim telefonar", que deixa o leitor completamente impotente com a situação e, ao mesmo tempo, curioso pelo desfecho;  e "O rastro do teu sangue na neve", que começa como uma viagem de lua de mel que tinha tudo para ser perfeita, mas que por um detalhe resulta na angústia da espera e da falta de notícias!

A experiência de ler o autor colombiano é sempre marcante... personagens humanos e surpreendentes, ora pela simplicidade, ora pelo extraordinário! Viva Gabo! Viva os contos, esses pequenos notáveis da Literatura! :)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Seguindo em frente

Em "Travessia", de Rapha Pinheiro, acompanhamos a saga de um explorador no deserto de um planeta alienígena. Como a HQ é uma narrativa visual, a falta da fala dos personagens torna a experiência bastante subjetiva. A trajetória do protagonista, que se interessa por obeliscos que erradiam uma luz rosa, é intrigante! Inclusive, as anotações que ele faz numa língua desconhecida não aliviam em nada a tarefa do leitor... rsrsrs...

Com cores fortes, a arte nos ajuda a entender a jornada do explorador, mesmo sem sabermos exatamente para onde vai ou o que o motiva a seguir em frente, determinado e atraído pelos obeliscos. Como leitora, o que mais me marcou foi a sensação de urgência do protagonista em caminhar quase sem parada pelos silêncios do deserto. Ah! Comprei na CCXP 25, meu exemplar tem autógrafo do autor... oba! Viva as HQs sem fala, seus mistérios e encantos! :)

sábado, 3 de janeiro de 2026

Um alto funcionário sem noção

"Uma história desagradável", de Fiódor Dostoiévski,  é uma viagem pela falta de noção de Ivan Ilitch Pralínski, um alto funcionário que de repente começa a refletir sobre a importância de todos serem tratados com mais humanidade e resolve levar isso às últimas consequências... rsrsrs... entra de penetra na festa de casamento de Pseldonímov, um de seus mais humildes subordinados, com a intenção de conquistar a todos... afinal, "... a humanidade tudo salva e tudo constrói...". Para Pralínski, tratar os subordinados com mais humanidade poderia "servir de pedra angular para as futuras reformas...".

Raciocinando de modo desconexo, os pensamentos de Pralínski o levam a achar que sua visita surpresa, no meio da festa, será um acontecimento positivo que levará à aproximação dele com os humildes convidados. Entre seus devaneios, o trecho que destaco mostra bem como ele parece fora de órbita... rsrsrs... "Bem, é claro que me farão sentar com os convidados mais importantes, com algum conselheiro titular ou parente, um capitão aposentado de nariz vermelho... Aquelas figuras que Gógol descrevia tão bem. Então, é claro, serei apresentado à noiva, vou tecer-lhe um elogio, animarei os convidados. Pedirei que não se acanhem, que se alegrem e continuem a dançar, fazer piadas, darei risada, em uma palavra: serei gentil e agradável." Mas o fato é que, a partir do momento em que Pralínsk entra na casa do subordinado, um constrangimento geral se faz presente e as situações mais bizarras acontecem.

Para além da habilidade incontestável do autor ao entregar ao leitor profundidade, crítica social e política, a narrativa fluida ainda nos brinda com personagens bem construídos e pitadas de humor na medida certa! Adorei e sigo querendo ler toda sua obra! Salve Dostoiévski ! Viva a Literatura! :)