quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Forte, sem perder a ternura

Ilustração: Hiro Kawahara
Ser forte não nos isenta da necessidade de colo de vez em quando. Tenho tentado passar pelos obstáculos e rasteiras com serenidade. Pra isso, rir de mim mesma é uma das formas que encontro de enfrentar os percalços. O sorriso sempre nos leva longe, ainda que nosso olhar, por vezes, revele uma pontinha de tristeza.

E "cada vez que o mundo diz não", sigo em frente, tentando "manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo". Tudo é uma questão de equilíbrio.

Tá difícil? Sim, só eu sei o quanto, aliás, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", por isso, concentro-me em realizar sonhos, fazendo tudo com amor e seguindo minha intuição.

Escrever me salva, me faz sonhar e encontrar caminhos. Afinal, é preciso caminhar... um passo de cada vez, com calma e direção! Viva nossos grandes Guilherme Arantes, Walter Franco e Caetano Veloso, que sempre me inspiram e temperam minha humilde crônica com seus belos versos! :)


* Agradeço ao querido Hiro Kawahara (@hirokawahara) pela doce ilustração, sua arte é sempre inspiradora! Obrigada pela gentileza e admirável talento!

sábado, 31 de janeiro de 2026

Uma bela homenagem

Como fã de René Goscinny e Jean-Jacques Sempé, nem tentei resistir a essa delicadeza intitulada "O Pequeno Nicolau: o que a gente está esperando para ser feliz?". Trata-se de uma bela homenagem de Anne Goscinny, com adaptação gráfica de Fabrice Ascione, aos criadores do querido menininho que adora brincar e se aventurar com seus colegas de escola!

No livro, o próprio Nicolau conta como Goscinny e Sempé se conheceram, como foi sua criação, a amizade entre seus autores... em suas palavras "a mais bela de todas as minhas aventuras". Com muita sensibilidade, a obra mostra a beleza da infância e sua capacidade de encontrar a felicidade nas pequenas coisas, nas relações humanas e nos momentos mais corriqueiros da vida.

Sempre de maneira leve e divertida, a narrativa nos apresenta os desafios pessoais e profissionais enfrentados por esses dois ícones dos quadrinhos franceses que encantaram o mundo com sua arte!
A leitura me instigou a ler a coleção inteira de "O Pequeno Nicolau" e todos os quadrinhos e livros assinados pelos dois! Aplausos às parcerias entre talentosos escritores e ilustradores, que nos divertem e nos emocionam! Viva Goscinny-Sempé! :)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Primeiros passos de Saramago

Livros de José Saramago sempre me atraem, mas a história que envolve "Claraboia" me instigou ainda mais à leitura. Escrito no início da década de 1950, o original foi enviado para uma editora e acabou engavetado, sem qualquer retorno ao jovem autor. Mais tarde, em 1980, quando já era um escritor consagrado, a mesma editora entrou em contato para publicar o livro, o autor recusou e deixou claro que não gostaria de vê-lo editado em vida. 

Publicada em 2011, a obra é uma janela aberta pelo narrador para nos apresentar a rotina dos moradores de um pequeno prédio, em Lisboa, durante a primavera de 1952. Logo abrindo o primeiro capítulo, conhecemos Silvestre, o sábio sapateiro, e sua esposa Mariana, que mesmo depois de trinta anos de casados "amavam-se ternamente". São meus personagens preferidos pela leveza e postura, como diz o autor, "duas crianças, sem tirar nem pôr". E também pela profundidade das reflexões sobre a vida entre Silvestre e Abel, o jovem que aluga um quarto no apartamento do casal! Altas conversas, diálogos de mestre!

Admiro a genialidade de Samarago ao criar narrativas profundas, personagens bem construídos e, ao mesmo tempo, nos proporcionar momentos divertidos... bom-humor é tudo... rsrsrs... Como quando Anselmo, Rosália e a filha Maria Cláudia ouvem no rádio "o soluçar plangente e lastimoso do fado mais desabaladamente lancinante que jamais cantaram gargantas portuguesas"... pra completar, o autor comenta: "outro fado assim, e de três criaturas de saúde normal restariam três neuróticos"... ahahaha... adoro!

O autor detalha tão bem as características físicas e psicológicas dos personagens e seus desafios cotidianos que dá a impressão de conhecermos intimamente os moradores do prédio e até nos sentimos um deles!

"Claraboia" mostra um Saramago florescendo lindamente para a Literatura, com personagens cativantes e, acima de tudo, humanos, marca presente em toda sua obra. Ah! Já disse que o escritor português é um dos meus prediletos, ler seus livros é aconchego! Só pra registrar: ganhei este exemplar de presente de Natal do meu irmão Gerson e... adorei! Viva a literatura lusófona! Viva Saramago! :)

sábado, 24 de janeiro de 2026

Sempé e dois Patricks

Que adoro o traço delicado e sensível de Jean-Jacques Sempé não é novidade, estou sempre tentando garimpar as obras desse grande ilustrador, cartunista e um dos pioneiros do romance gráfico francês. Em minha constante procura, curiosamente, encontrei dois livros ilustrados por ele, cujos escritores chamam-se Patrick: "Filomena Firmeza", do também francês Patrick Modiano; e "A história do senhor Sommer", do escritor alemão Patrick Süskind. Duas belas narrativas enriquecidas pela arte irretocável de Sempé!

"Filomena Firmeza" é um respiro para esquecermos as sandices que acontecem mundo afora. O livro conta a história de Filomena que, adulta, relembra a infância com seu pai em Paris. A rotina de trabalho do pai era um mistério para a filha, mas nada que atrapalhasse a relação profunda, leve e, muitas vezes, divertida. É claro que ao ler um enredo sobre infância, acabamos por lembrar das nossas próprias experiências, mas é preciso ressaltar também como a força do texto e a genialidade da arte se complementam e ajudam a nos colocar na Paris sempre tão bem retratada por Sempé e, nesse caso, tão bem contada por Modiano!

Adoro o trecho em que a protagonista conta que tirar os óculos para dançar não a atrapalha em nada... ao que o pai responde: "Vai acontecer com você como aconteceu comigo quando eu era jovem... Quando você estiver sem óculos, os outros vão enxergar em seu olhar uma espécie de névoa e de doçura... A isso se dá o nome de charme..." Ah! Que meigo!


Outra curiosidade entre as obras é que, em "A história do senhor Sommer", o tema também são as lembraças da infância. Ilustrado pelo delicado traço de Sempé, o texto de Süskind aborda temas corriqueiros, mas profundos e instigantes. O narrador já adulto nos conta experiências boas e outras nem tanto, de maneira leve e divertida, mas sempre instigando o leitor a refletir sobre suas próprias lembranças e como lidamos com os obstáculos que enfrentamos ao longo da vida.

Subir em árvores, aprender a andar de bicicleta, o primeiro amor, estudar piano com uma professora altamente exigente são algumas das passagens que o protagonista narra com bastante humor e toques de ironia, mas a cereja do bolo (sempre quis usar essa expressão... rsrsrs) são as aparições da figura misteriosa, conhecido como senhor Sommer, um andarilho que ninguém sabe de onde veio e por que anda dia e noite a passos vigorosos pelas redondezas portando apenas um cajado e uma mochila. A misteriosa figura chama a atenção do menino e acaba fazendo o pequeno refletir sobre o que o destino reserva para cada um.

  Sempé/Modiano                   Sempé/Süskind

Ah! Histórias que nos brindam com doces ilustrações de Jean-Jacques Sempé são sempre prazerosas. Aplausos às belas parcerias! Viva os escritores! Viva os ilustradores! :)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Um certo falso beato

"A relíquia", de Eça de Queirós, conta a história de Teodorico Raposo, um rapaz habituado a aventuras e amores, que precisa fingir-se religioso para sua tia, D. Patrocínio das Neves.

O leitor acompanha as lembranças do protagonista desde quando perde os pais na infância e passa a morar com a tia rica, severa e, absolutamente, beata; passando por aventuras amorosas; até a viagem à Jerusalém, que provoca uma mudança em sua postura.

Sempre tentando agradar à tia, ele leva uma vida dupla se envolvendo em uma série de situações bizarras, divertidas e até emocionantes, mas sempre pensando em se tornar o herdeiro da fortuna de D. Patrocínio.

Sem contar detalhes, o que posso dizer é que o escritor português, mais uma vez, mostra todo seu talento criativo ao retratar/criticar a sociedade portuguesa da época e colocar em discussão a veracidade dos mitos religiosos.

Certamente, o que mais me surpreendeu foi quando Teodorico volta da viagem certo que vai abafar com a "relíquia" sagrada que dará à sua devota tia... confesso que ri alto da situação e da desfaçatez do protagonista!

Ah! A leitura é envolvente, nos faz refletir sobre a falta de limites da hipocrisia humana e sobre o fato de que colocar a mão na consciência, muitas vezes, pode mudar o rumo de uma vida, ainda que nosso Teodorico seja levemente incorrigível! Salve a genialidade do grande Eça de Queirós! Viva a Literatura clássica que tanto nos inspira! :)

sábado, 17 de janeiro de 2026

Celebrando a Cidade Luz

"Paris é uma festa", de Ernest Hemingway, é especialmente encantador por apresentar as experiências de um escritor em início de carreira e por ter como cenário Paris dos anos 1920!

Nada mais agradável para quem, como eu, gosta de escrever e já teve o prazer de visitar a adorável Cidade Luz do que ler uma narrativa leve, irônica, amorosa sobre a agitada vida na capital francesa, seus escritores e artistas, as pessoas comuns, seus cafés, suas charmosas ruas, enfim, uma festa a cada página... ops... a cada esquina!

Já no primeiro capítulo, Hemingway me conquista quando fala sobre um "bom café" que conhecia na Place Saint-Michel. "Era um café agradável, quente, limpo e acolhedor. Pendurei minha velha capa no cabide para secar, coloquei meu surrado e desbotado chapéu de feltro na prateleira que ficava por cima dos bancos e pedi um café au lait. O garçom trouxe-o e eu tirei do bolso do paletó o caderno de notas, um lápis, e comecei a escrever." Ah! Esse trecho é identificação imediata! Sempre gostei de ir às cafeterias com meus bloquinhos e já escrevi algumas crônicas, contos e trechos de livros nesse ambiente! Adoro... é inspirador!

Naquele tempo, ele não tinha dinheiro para comprar livros, mas os alugava na Shakespeare and Company, biblioteca e livraria de Sylvia Beach, figura cordial e amável, que deixou Hemingway pagar pelo empréstimo dos livros quando tivesse dinheiro. Generosidade é tudo! E assim ele conseguia ler com frequência, alías, necessidade básica de qualquer autor!

Na luta para ser um bom escritor e, ao mesmo tempo, ser fiel a si próprio, Hemingway narra a dificuldade financeira pontuada pela sensibilidade, crueza e ironia. Em dias em que, pela falta de dinheiro, era difícil até se alimentar, o autor nos envolve em uma narrativa rica e emocionante pelas ruas da cidade. "Se você não se alimentasse bem em Paris, tinha sempre uma fome mortal, pois todas as padarias exibiam coisas maravilhosas em suas vitrinas, e muitas pessoas comiam ao ar livre, em mesas na calçada, de modo que por toda parte se via comida ou se sentia o seu cheiro."

Outra situação com a qual me identifiquei bastante... rsrsrs... é quando ele reclama que está escrevendo concentrado, com a inspiração nível alto, e chega alguém para atrapalhar... "Era nesses momentos que um intruso poderia estragar tudo... Lá se ia embora a minha sorte, e o melhor era fechar o caderno. Nada pior do que isso." Pois é, também já me sentei em um café para escrever sozinha no meu canto e tive o desprazer de ser achada por esse tipo de ser humano... é de lascar! Também concordo com Hem (é tanta identificação que já tô íntima do colega... rsrsrs...) quando ele diz: "A única coisa capaz de nos estragar o dia eram pessoas, mas, se se pudesse evitar encontros, os dias não tinham limites. As pessoas eram sempre limitadoras da felicidade, exceto aquelas poucas que eram tão boas quanto a própria primavera." Assino embaixo!

Ah! O livro é uma festa! Poderia ficar aqui falando por parágrafos e mais parágrafos sobre a relação de amor e companheirismo dele com a esposa, Hadley; os vários amigos anônimos e famosos com quem viveu inúmeras situações, como o talentoso e perturbado escritor Scott Fitzgerald... mas preferi ressaltar os momentos em que Hem inspirou e até incentivou a Gi escritora e sua necessidade básica de escrever histórias! Viva Paris! Salve Hemingway! :)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Frutas temperamentais

– Precisamos falar sobre bananas!

– Você diz as frutas?

– Claro! Você pensou que seria sobre o quê?

– Sei lá! Tô aqui concentrado calculando se o armarinho que compramos vai caber no...

– ... alto lá! Nós compramos, não! Você comprou! Eu disse que tinha que medir antes.

– Tá bom, armário que eu comprei! Mas você não pode negar que se encantou quando nos deparamos com ele na loja!

– Erro meu! Devia ter disfarçado o encantamento...

– Ahahaha! Agora, chega de cálculos! Sobre o que precisamos conversar?

– Sobre a pressa que as queridas bananas têm de amadurecer de uma hora pra outra... parece coisa de superpoder!

– Ahahaha! Desculpe pela risada, sei que o tema é sensível... mas a rapidez com que elas amadurecem realmente é digna do Flash!

– Ahahaha... bobo! Isso não é pra rir. Lembra o que aconteceu na semana passada? Compramos meia dúzia amarelinhas bem firmes, mas bastou uma noite na fruteira pra ficarem moles, quase podres!

– Sim... fiquei chateado porque elas acabaram com meu café da manhã... estavam pra lá de Bagdá!

– Porém, como não me dou por vencida, esta semana, lancei mão de outra estratégia: comprei meia dúzia amarela, mas ainda durinhas, e meia dúzia absolutamente verde! E mais do que isso, enquanto arrumava na fruteira, pedi encarecidamente para que não inventassem de amadurecer todas juntas!

– Bem que tive a impressão de ouvir você implorando alguma coisa na cozinha... ahahaha...

– Ria, insensível! As bananas precisam ser estudadas... sinceramente, elas parecem rir da cara da gente, podem estar verdes feito o Hulk... 

– Ahahaha... pra continuar no tema super-heróis... você é incrível, amor!

– Engraçadinho... como eu ia dizendo, elas podem estar verdes feito o Hulk na gôndola do supermercado ou na feira, basta chegar em casa e, em poucas horas, amolecem como marias-moles! Desaforadas!

– Ahahaha... o que eu digo agora?

– Não precisa dizer nada, querido! Apenas compartilhe de minha indignação!

– Compartilho inteiramente! Às vezes, dá vontade de parar de comprar bananas... dar um tempo, mas é que quando ela tá molinha você faz um bolo tão gostoso!

– Obrigada! Sinceramente, prefiro a opção de dar um tempo, porque toda hora fazer bolo de banana está ficando inviável!

– Ah! A gente congela!

– Acho que deve ser mais fácil conseguir uma licença pra vender na rua do que arrumar lugar no freezer pra quantidade de bolo que tenho feito! A gente não come mais a fruta in natura, só em forma de bolo...

– Calma, amor!

– Por acaso, quando foi a última vez que você comeu uma banana, querido?

– É verdade, nem lembro mais...

– Tô falando! Outro que me irrita é o abacate!

– Esse é difícil... a gente compra maduro e quando corta, é só machucado!

– E se quiser companhia, compre um abacate bem verde, duro mesmo... ele vai ficar na sua fruteira intacto por décadas!

– E, muitas vezes, pulando etapas... de verde direto pra podre!

– Ainda assim, continuo achando as bananas mais atrevidas!

– Ahahaha... imagina se tivessem olhos!

– Na minha imaginação, elas têm olhos, daqueles que julgam a gente...ahahaha...

– Ahahaha... olhos blasé... 

Falando assim parece que a gente tá exagerando, mas acho que até nossa fruteira tá ficando traumatizada!

– Ahahaha... será que vamos ter que conversar com ela, querida?

– Ah! Você que converse com a fruteira, já cansei de conversar com as bananas sem resultado!

Acho que a gente precisa viajar um pouco, espairecer... vamos pesquisar destinos inusitados?

– Uau! Já esqueci as frutas!

– Ahahaha... não fale assim, precisamos delas!

– Tô brincando, você sabe que amo bananas, abacates e afins.

– A única coisa que sei é que a gente se ama! O resto é salada de fruta...

– Que poético! :)