quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sonhos, desejos e desafios

Em "As Meninas", Lygia Fagundes Telles nos apresenta três universitárias, Lorena, Lia e Ana Clara que, durante o sombrio período da ditadura militar, convivem em um pensionato de freiras, sonham, cada uma a sua maneira, e enfrentam o início da vida adulta.

Com uma linguagem fluida, lançando mão do encantador e desafiador fluxo de consciência, Lygia nos brinda com uma narrativa que alterna as vozes e pensamentos das três protagonistas, tornando a leitura ágil e extremamente cativante.

A autora domina a arte de criar personagens profundamente humanas, dosando os momentos de aflição e desespero com tiradas de humor dignas dos mais fervorosos aplausos. Confesso que quando concluí a leitura, fiquei meio sem ação... queria saber mais do futuro das protagonistas, por outro lado, adoro quando o autor encerra a conversa e deixa que o leitor imagine e tire suas próprias conclusões. Aliás, essa é uma das funções da Literatura, nos fazer refletir!

Gosto de como cada uma delas nos desperta um sentimento diferente: Ana Clara é daquelas amigas inconsequentes que é preciso dar colo e, ao mesmo tempo, encher de broncas; Lia e sua combatividade nos convida a lutar contra os desmandos de uma época de repressão; e Lorena, a mais sonhadora e sensível que, mesmo sendo descendente de uma família paulista quatrocentona, está sempre pronta para ajudar as amigas, sua visão mais leve e bem-humorada da vida faz a diferença.

Adoro as observações de Lorena em vários momentos, como quando fica indignada com a frase inicial do livro de Lia que diz: "Em dezembro, a cidade cheira a pêssego"... Ah, adorei! Um pouco de poesia não faz mal, Lorena, deixa a menina escrever o que quiser... rsrsrs; ou quando ela empresta um delicado lenço para Lia e fica imaginando que a amiga será capaz de limpar os sapatos com ele... e aconselha: "Mas não se importe não, seja lenço. Solto-o no espaço. Abriu-se leve como um paraquedas que Lião apanha impaciente". A genialidade da autora retratando, nos mínimos detalhes, toda e qualquer situação nos prende tanto a atenção que ficamos envolvidos pela trama, aguardando onde isso tudo vai dar! Viva o talento e a sensibilidade de Lygia Fagundes Telles! Salve a Literatura Brasileira! :)

sábado, 16 de maio de 2026

Patrimônio cultural ameaçado

Esta semana, lamentavelmente, o Anexo do Espaço Petrobrás de Cinema e o Café Fellini foram fechados por ordem judicial. A direção do cinema afirmou, em comunicado oficial, que está tomando medidas legais cabíveis para reverter a situação.

O valor histórico e cultural do imóvel, um casarão da década de 1930, é inegável, além disso, o local integra área enquadrada como Zona Especial de Preservação Cultural - Área de Proteção Cultural (ZEPEC-APC). Ou seja, é um patrimônio cultural e afetivo da cidade e, portanto, deve ser preservado. 

É inaceitável que tradicionais endereços tenham que dar lugar a empreendimentos residenciais, como se a cidade já não tivesse sendo desfigurada por torres e mais torres de apartamentos que a cada dia apagam sua memória, pobre metrópole!

Quem me conhece sabe que adoro cinemas de rua e cafés! Tenho inúmeras lembranças do Espaço de Cinema da Rua Augusta, frequento desde sempre... Em meados dos anos 1990, lembro de uma sessão lotada do filme "O Balconista" (direção de Kevin Smith), uma comédia hilariante, cinema independente em P&B, uma doideira tão empolgante que quando começaram a subir os créditos aplaudimos de pé! Longas inesquecíveis, como "Cortina de Fumaça" (direção de Paul Auster e Wayne Wang), filme que já abordei aqui no blog em 2024, incrível e muito inspirador.

Fotos: Divulgação/@cinecafefellini

Já no Anexo, adorava assistir cinema europeu... ah... as produções italianas e francesas! Em 2018, assisti a comédia francesa "Assim é a vida" (direção de Eric Toledano e Olivier Nakache), sobre uma turbulenta festa de casamento realizada em um palácio do século XVII, roteiro brilhante e humor digno de aplausos. Lembro que ri até com a senhora que estava ao meu lado, isso é que é filme bom... a gente compartilha as risadas com desconhecidos sem qualquer pudor... rsrsrs... Mas isso também se dá porque o ambiente é agradável e o público se entende. Cinema de qualidade! No Café Fellini que sempre me cativou pelo nome, gostava de escolher uma mesa num cantinho do salão e outras vezes ao ar livre... natureza é sempre um bálsamo... pra saborear um cappuccino e uma adorável fatia de torta doce.

Ah! Ir ao cinema, pra mim, sempre foi aconchego... ir ao Espaço da Augusta e passar no Café antes da sessão é passeio completo, alimenta o corpo e a alma! Os dias em que vou ao cinema são sempre inspiradores e rendem boas recordações. Por isso, resolvi escrever sobre esse tradicional e querido cinema de rua... cada vez que eu atravessava aquela porta no número 1470 da Augusta, saía mais inspirada, querendo realizar sonhos! Torço para que o Anexo (salas e café) reabra para que eu possa conhecer novas histórias e para que a cidade mantenha seus centros culturais! Cinema de rua e cafés são amor! Viva o patrimônio cultural de São Paulo! :)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Romance social

Em seu primeiro romance, publicado em 1846, Fiódor Dostoiévski já mostrava sua maneira profundamente humana de retratar a dura realidade.

"Gente pobre" é de uma tristeza e, ao mesmo tempo, de uma beleza tão sutil proporcionada pelas pequenas alegrias cotidianas, que cativam o leitor, tornando-o íntimo dos personagens. 

O autor nos brinda com a chamada narrativa epistolar, partindo da troca de cartas entre o funcionário público Makar Diévuchkin e sua vizinha Varvara Alieksiêievna, uma jovem órfã.

Na correspondência, os dois contam os desafios da vida difícil que enfrentam, mas Makar consegue ter uma visão que beira ao otimismo, um olhar doce que torna a pobreza menos amarga. Alguns trechos são encantadores, como quando ele descreve seu quarto e fala da satisfação de ter o seu "cantinho" ou quando envia junto à carta presentes para Varvara com carinho paternal. 

Dostoiévski sabe como poucos nos apresentar o universo que cada um traz consigo, seus afetos e valores, de forma global e atemporal, tanto que esses dois personagens com suas dores e alegrias poderiam viver em qualquer país em desenvolvimento, como o nosso ainda sofrido e desigual Brasil.

Durante a leitura, lembrei da canção "Gente humilde" (melodia de Aníbal Augusto Sardinha, conhecido como Garoto, com letra de Vinícius de Moraes e uma pitada de Chico Buarque) que fala de quem "vai em frente, sem nem ter com quem contar". Aplausos à Música Popular Brasileira! Viva a sensibilidade de Dostoiévski! :)

sábado, 9 de maio de 2026

Angústias futebolísticas

– "Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol"...

– Por que esta angústia toda?

– Ah! Só tô cantando, amor.

– Te conheço, que cara é essa?

– Tava lembrando daquela cachorrinha que a gente viu sozinha, olhando pros donos lá longe e, então, essa canção linda do Belchior me veio à cabeça.

– Ficou tristinha?

– Não com a cachorrinha, até porque os donos estavam só fazendo uma foto poética. Ela ali paradinha, com aquela carinha séria... devia estar pensando: venham logo, humanos, me peguem no colo e me levem pra casa, cansei de ser modelo fotográfico! 

– Ahahaha... só você, amor, pra imaginar o que a cadelinha tava pensando, mas o que te despertou a imagem dela sozinha?

– Sei lá, um sentimento de desamparo, tal qual um goleiro que toma um frango...

– Ahahaha... quando nosso time segue firme lá na parte debaixo da tabela, qualquer coisa nos remete a esse momento de tensão.

– Pois é... eu devia ter olhado a cadelinha e achado bonitinha, perguntado o nome dela, mas só me veio essa sensação e aí lembrei do raio do meu time... é de lascar!

– Não se preocupe que estamos no mesmo barco...

– Furado!

– Ah! Logo meu clube sobe na tabela e você vai ter a alegria de me ver feliz, já o seu... tá difícil! 

– E o que te faz pensar que vou ficar alegre com vitórias de seu clube?

– Não ponha palavras na minha boca... eu disse que você ficará alegre por mim e não... ah... você entendeu!

– Ahahaha... ficou nervoso? Você que começou querendo falar mal do meu time, isso não se faz!

– Tá bom, então, vamos parar com essa discussão sem sentido... que cachorrinha mais irritante!

– Não seja troglodita, ela é lindinha e não tem culpa de ter desencadeado em mim um pensamento musical futebolístico! 

– Ahahaha... eu tava brincando, boba! Adoro cachorro!

– Melhor assim!

– Agora, chega dessa cara de zona de rebaixamento!

– Ahahaha... que raiva... tive que rir!

– Ah... vem cá, minha torcedora angustiada! :)


* A doce cadelinha da foto é a Lady, que nem sabe que eu tenho essa foto dela... rsrsrs...

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Saudade de rebobinar uma fita

– E aí, amor? Escolheu o filme que vamos assistir hoje à noite?

– Sem pressão, querido!

– Nossa! Só perguntei porque já faz duas horas que você tá com o tablet no colo com uma cara de desamparo... ahahaha... 

– Isso, alopra mesmo! Eu sei lá, fico olhando esse monte de opção, misericórdia! É pior que escolher sabor de pizza... ahahaha... 

– Ahahaha... palhacinha! Só aviso que, desta vez, não vou escolher o filme! Sem chance, nas últimas semanas sobrou pra mim, agora é com você, minha indecisa amada!

– Você se salvou pela "amada", porque eu já ia te responder à altura.

– Pois, então, me responda com delicadeza!

– Responder o quê, meu curioso amado?

– Quer dizer que você ainda não escolheu o filme? Mas nem opções pra apresentar?

– Ah! Desculpe, mas filme pra mim tem que ser muito especial, não quero assistir qualquer coisa!

– Tudo bem, também gosto de filme de qualidade, mas como a gente paga essa bagaça de streaming temos de encontrar alguma coisa que seja passável pra, pelo menos, a gente se divertir!

– Sinceramente, você sabe o que me divertia? Ir à locadora de vídeo e ficar olhando as fitas de VHS nas prateleiras; receber indicação dos melhores filmes, inclusive, de clássicos antigos; ir correndo pra garantir o filme do momento pra evitar ter que ficar na fila de espera; sair com uma sacola cheia de alegria pra passar o fim de semana assistindo no sofá de casa, torcendo pro videocassete não mastigar nenhuma fita... 

– ... e, lógico, torcendo pra não esquecer de rebobinar todas pra não levar multa na hora de devolver... ahahaha... belas lembranças!

– Ah! Ir à locadora era um evento! A gente saía de casa animada, descobria filmes ótimos só de ouvir as conversas nos corredores! Adorava admirar aquelas prateleiras cheias de histórias, interpretadas por atores e atrizes de quem a gente era fã.. Pegar a caixinha que a gente queria tanto era a glória!

– Tá nostálgica, amor?

– Fiquei assim depois de permanecer, como você disse, duas horas olhando pra fria tela do streaming, lotada de filmes enfileirados... como é que se acha uma coisa legal pra assistir? 

– Impossível que não tenha nenhum que te chamou a atenção!

– Claro que tem... encontrei alguns que adoro e já vi no cinema. Queria encontrar algo novo, mas tenho até medo tamanha a quantidade de coisas estranhas que tenho visto... 

– Ahahaha... Adoro esse discurso de quem tá perdida...  

– Engraçadinho! Então, escolhe você...

– Ah... eu disse que não ia escolher, mas dá esse tablet aqui!

– Não seja ríspido!

– Ahahaha... Já que tá difícil arriscar algo novo, vamos escolher um que vale muito a pena rever: "Peggy Sue - Seu Passado a Espera"!

– Ah! Que amor! 

– Sabia que você ia gostar! 

– Vem, vamos assistir!

– Nem pensar. Agora, vamos pra cozinha ... a sessão de cinema é só depois do jantar!

– Que homem sensível, prendado, charmoso...

– Não comece... vamos cozinhar! 

– Sim, senhor!

– Gosto assim, obediente, educada, delicada...

– Não seja ridículo!

– E doce... que nem jiló... ahahaha...

– Olha quem fala... limãozinho azedo.

– Também te amo! :)

sábado, 2 de maio de 2026

Foto-cartum

Esta semana, fui me encantar com a exposição "Cartunistas", no Centro Cultural Fiesp. É sempre um prazer caminhar pela querida Avenida Paulista e respirar cultura!

Idealizada pelo fotógrafo Paulo Vitale, com curadoria de Eder Chiodeto, a mostra é um belo e inspirado encontro entre a fotografia e o cartum! 

São 144 cartunistas renomados performando diante da câmera fotográfica de Vitale, que em um clique nos brinda com sutilezas da personalidade e da arte dos fotografados. Adorei esse instigante mergulho no mundo dos cartuns e hqs, que tanto me inspiram! 

Confesso que passei duas vezes admirando cada uma das fotografias para conferir melhor os detalhes e os artistas, como o saudoso Ziraldo com seu autorretrato, e Maurício de Sousa, desenhando o querido Horácio, seu alter ego. 

Cartunistas que desde sempre seguem nos ajudando a entender a porra toda por meio de sua obra crítica, perspicaz e divertida, como Angeli em dose tripla e a poderosa Laerte. 


O cartunista e quadrinista Orlandeli, com um pequeno Daruma na cabeça, é outro nome admirável, suas fascinantes HQs nos apresentam arte, narrativa e personagens sensíveis que, invariavelmente, nos provocam reflexões sobre as coisas da vida.

Ah! Nada como a Cultura em suas mais variadas expressões para nos ajudar a enfrentar as mazelas do mundo. Cartuns são libertários, satirizam e questionam o cotidiano, a política, a sociedade e, por isso, merecem respeito e reconhecimento. Viva o cartunista brasileiro! :)

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Rabiscos pueris


– Ah! Que beleza!

– O que é uma beleza, amor? Você tá nessa janela há um tempão.

– Primeiro, fiquei aqui só disfarçando até que você colocasse a mesa pro almoço...

– Ah! Sacanagem... 
 
– Não seja engraçadinho... ontem fiz tudo, hoje é seu dia!

– Calma, querida! Como combinamos há séculos, hoje eu faço a comida e ponho a mesa, mas lembre-se que a louça é sua!

– Sei bem minhas responsabilidades... hoje é dia de louça retinindo!

– Você está insinuando que não lavo bem a louça?

– Insinuando não, amor, tô afirmando que lavo com mais afinco, por isso, o resultado é melhor... rsrsrs...

– Tá saliente, hein? Deixa de ser metida e, por favor, me conta logo o que te encantou tanto lá fora.

– Ué... não era você que tava faminto?

– Ainda tô, mas como diz a canção: "a gente não quer só comida".

– Uau... como tá inspirado, amor!

– Você me inspira, querida! Mostra logo essas fotos!

– Ahahaha... elegância passou longe.

– Ahahaha... desculpe... a fome, às vezes, me tira do prumo.

– Só tava querendo fazer uma foto aleatória, fiquei admirando o céu e eis que, de repente, vi uma nuvem igual àquelas que a gente desenha quando criança... quase chorei.

– Que meiga! Na infância, eu adorava desenhar o sol, as nuvens e os pássaros... minhas obras de arte sempre envolviam o firmamento!

– Ahahaha... obras de arte... firmamento, que poético, amor!

– E por que tá rindo? 

– Ah! achei divertido.

– Não precisa humilhar...

– Não exagera, bobinho! Voltando às nuvens... fiquei tão impactada que resolvi fazer umas fotos. Depois, quem sabe, pegamos papel, lápis de cor e...

– ... passamos a tarde mais nostálgica dos últimos tempos? Quero! Vamos fazer rabiscos pueris!

– Ahahaha... vou adorar. 

– Chega de crueldade e mostra logo essas fotos.

– Não prefere almoçar antes, amor?

– Nem pense em não me mostrar agora!

– Ô rapaz apressado... tá bom. Olha essa... fala a verdade! 

– Ah! É igualzinha às que eu desenhava.

– As minhas, provavelmente, eram mais lindas.

– Audácia! Quero ver quando a gente começar a rabiscar.

– Só que antes você tem que almoçar direitinho, comer verdura e legumes, como um menino obediente... ahahaha... e aí terá direito à sobremesa e à recreação!

– Ahahaha... pode deixar, vou fazer um prato de pedreiro e até dispenso a sobremesa pra ir desenhar mais rápido...

– Não existe a possibilidade de dispensar a sobremesa, sem pudim, nada de nuvens infantis!

– Ahahaha... então, vem almoçar, minha doce formiguinha! :)


* A foto que inspirou essa pueril crônica foi feita assim que vi essa nuvem... ela, realmente, me lembrou das que desenhava na infância.