quarta-feira, 3 de junho de 2026

Os labirintos da mente humana

Já postei sobre Fiódor Dostoiévski, inclusive sobre seu livro de estreia "Gente Pobre", do qual gostei muito... finalmente, depois de um longo e tenebroso inverno, li sua obra-prima: "Crime e castigo"! A narrativa densa sobre os labirintos da mente humana nos apresenta o jovem Raskólnikov "esmagado pela pobreza", que não consegue mais pagar os estudos nem o quarto que aluga e vive em constante insegurança, tendo que empenhar seus poucos pertences para conseguir alguns trocados, vivendo do dinheiro enviado pela a mãe e pela irmã, que moram no interior.

Mesmo atormentado, ele continua em Petersburgo, vestindo farrapos e isolado do convívio social, considerando-se mais inteligente do que qualquer um e quase não tolerando interações. Está sempre taciturno, refletindo sobre injustiças, moral, valores... adora Napoleão e acredita que nem todos os crimes devem ser punidos, porque alguns deles podem levar a um bem maior para a sociedade... pensamento sombrio esse, hein?

A partir de todas as dificuldades que enfrenta quando tem que deixar a faculdade e perde os alunos particulares, o jovem resolve cometer um crime que, em sua visão "napoleônica" vai livrar o mundo de uma pessoa deplorável: a velha viúva, a qual empenha seus pertences a juros escorchantes.

A desigualdade social e a forma vil como o pobre é desprezado nos grandes centros urbanos são temas constantes na obra do autor e nos deixa aquele gosto amargo, afinal, infelizmente, em pleno no Século XXI, continuamos vivendo os mesmos dilemas. Mas o que mais impressiona na narrativa é a magistral habilidade de criar personagens humanos... ainda que Raskólnikov seja um assassino cruel, tem seus momentos de puro altruísmo, como quando ajuda outras pessoas tão ou mais pobres que ele, por exemplo, doando todo o dinheiro enviado pela mãe para ajudar no enterro de um pai de família, de quem presencia o atropelamento.

A facilidade que Dostoiévski tem de detalhar não só as emoções como os cenários nos dá a sensação de estarmos acompanhando toda a jornada do protagonista e demais personagens in loco, porém, neste caso, o melhor a fazer é ficarmos olhando bem de longe... rsrsrs... Brincadeiras à parte, adoro quando o escritor lança mão do bom-humor em algumas conversas entre o protagonista e seu amigo, Razumíkhim; e ao descrever as características fisicas e trajes de outros personagens; são momentos que ajudam a aliviar a constante tensão.

Acompanhamos um homem dividido que, por um lado, acredita que seu crime era necessário, mas, ao mesmo tempo, sofre com a consciência pesada e luta por redenção. Enfim, cada livro do autor é uma aula de escrita e aumenta a vontade de ler toda sua obra! Viva a Literatura Clássica! Salve a genialidade de Dostoiévski! :)

sábado, 30 de maio de 2026

Revisitando um filme aconchegante

Decidi ir ao streaming escolher um filme, queria mergulhar em uma história que me fizesse esquecer um pouco minhas preocupações e as mazelas do mundo... Juro que queria alguma coisa nova, mas depois de rolar a tela e cansar de ver milhares de opções, me deparei com "Questão de tempo" (About time, 2013), com roteiro e direção de Richard Curtis, um diretor que sabe me conquistar com bom-humor, emoção e romance desde sempre... ou desde os adoráveis "Quatro casamentos e um funeral" (1994) e "Um lugar chamado Notting Hill" (1999)!
 

Ah! Eu estava precisando de um filme aconchegante como esse, que assisti no cinema, tive o DVD e é sempre uma inspiração só! Os personagens são muito bem construídos, absolutamente humanos e cheios de sutilezas!

Tudo começa quando Tim (Domhnall Gleeson) completa 21 anos e seu pai (Bill Nighy) conta a ele que os homens da família podem viajar no tempo e mudar o passado... e, então, ele conhece Mary (Rachel McAdams) e descobre que ela é a mulher da sua vida... a partir daí, várias situações se desenrolam até que ele a conquista. A sequência de cenas de Tim e Mary no metrô é encantadora e a do casamento na chuva é hilária. Ah! Adoro a trilha sonora!

Gosto das cenas iniciais em que é apresentada a família de Tim e suas tradições de tomar chá na praia, seja inverno ou verão, e realizar sessões de cinema ao ar livre, inclusive em dias chuvosos... as partidas de tênis de mesa entre o pai e o filho. A mãe (Lindsay Duncan) meio blasé, o adorável e excêntrico Tio D (Richard Cordery) e a irmã Kit Kat (Lydia Wilson) protagonizam cenas divertidas, assim como quando os pais de Mary conhecem Tim!

A relação que eles constroem é de uma delicadeza tão leve e bem-humorada que nos conquista completamente. Não vou contar detalhes pra que quem, por ventura, ainda não assistiu tenha suas próprias experiências com esse roteiro brilhante, desse cineasta igualmente brilhante! Adoro comédias britânicas! O filme nos convida a refletir sobre a importância de enfrentarmos os dias com um sorriso no rosto, lançando mão da gentileza pra facilitar a vida e conquistarmos momentos inesquecíveis! Viva o cinema! :) 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Não abandone seu poeta

A inversão de valores é explorada de forma altamente criativa pelo escritor português Afonso Cruz em "Vamos comprar um poeta". Preciso dizer que quando vi alguém, que não lembro quem, falando desta obra na internet, o que mais me chamou a atenção foi o título, que logo entrou para minha (cada vez maior) lista de leituras imprescindíveis! Aliás, benditas feiras que, por vezes, nos possibilitam comprar os livros que queremos com descontos vantajosos!

Com linguagem leve e certeira, o autor consegue prender a atenção do leitor desde as primeiras páginas. Em uma sociedade dominada pelo materialismo, onde tudo é contabilizado e negociado, a filha adolescente pede aos pais um poeta como se pedisse um animal de estimação. Na loja, o pai se certifica sobre o modelo que escolheram e o vendedor responde que o índice de subversão dele está abaixo dos 2%, mas alerta que é necessário que seja um pouco subversivo para manter a qualidade poética. O vendedor aconselhou ainda que para entretê-lo bastava comprar cadernos com folhas brancas, canetas e alguns livros! Adorei!

Além de provocar reflexões sobre o valor da poesia e da arte, a história, narrada pela adolescente, é permeada pelo humor. As características dos membros da família são um caso à parte: o pai vive tentando administrar os poucos cabelos que tem; o irmão descrito como "exponencialmente parvo", apaixona-se com facilidade e vive em "constante bancarrota emocional"; a mãe, cansada, sempre calçando pantufas gastas, recusa a compra de um artista, porque faz "muita porcaria", inclusive, uma conhecida passava horas limpando a "sujidade que ele fazia com as tintas", por isso acredita que um poeta seria menos trabalhoso. Já a narradora é a mais próxima do poeta e em determinado momento até se pergunta: "estarei a ficar poética?".

Ah! Como não adorar personagens tão bem construídos e uma narrativa inspiradora sobre a importância da cultura para o desenvolvimento humano em um mundo extremamente consumista! Aliás, vale o alerta: não abandone seu poeta numa praça qualquer! Viva a imaginação e o talento de Cruz! Salve a Literatura em língua portuguesa! :)

sábado, 23 de maio de 2026

Aquela vontade de comer um docinho


– Cadê você, amor?

– Tô aqui na sala... relaxando. Por quê?

– Tá tão quietinha.

– Tô olhando a garoa no vidro da janela.

– Que poética!

– E você? Tá fazendo o quê sozinho na cozinha, menino travesso?

– Ahahaha... adorei o travesso! Tava pensando...

– Pensando em quê?

– Sabe aquela vontade de comer um docinho?

– Sei...

– Nossa, que insensível!

– Por que insensível?

– Tô aqui externando minha vontade de saborear uma guloseima e você me vem com esse azedume!

– Desculpe, querido! Achei que era só um comentário daqueles de elevador, do tipo: esse calor tá de amargar!

– Ahahaha... tive que rir... faz tempo que não ouço "calor de amargar". No entanto, quero registrar que meu comentário foi muito mais profundo que uma conversa de elevador, querida!

– Tá bom, então, vamos dissertar sobre essa sua vontade...

– Não exagera! Tava só comentando e queria compartilhar.

– Já entendi, amor! Vamos começar de novo... pergunte!

– Sabe aquela vontade de comer um docinho?

– Te conheço, quando fala assim é porque já tem uma ideia formada. Qual docinho?

– Ah! Pensei num...

– Por favor, não vai me dizer que quer que eu faça crème brûlée ou, sei lá, alfajor... justo hoje que tiramos o dia pra descansar?

– Claro que não! Não sou requintado como você, pensei em algo bem mais simples.

– Devia gostar de ter ao seu lado alguém que está sempre pronta a aprender receitas variadas. Tá me chamando de fresca?

– Calma, amor! O fato é que você tem o paladar refinado...

– Para com isso! Não tenho culpa de gostar de doces de todos os tipos e nacionalidades.

– Tô falando... já lançou um "nacionalidades" e não quer que eu chame de requintada... ahahaha...

– Só disse que gosto de vários tipos de doces... do fino e delicado marzipan ao simpático e tradicional gibi, o doce de amendoim mais gostoso do Universo!

– Opa, não tá mais aqui quem falou! Eu ia dizer que tava querendo algo acessível como um pé de moleque.

– Ah! Pé de moleque? Que coisa mais sem glamour... ahahaha...

– Nesse momento, um pé de moleque já me satisfaria... e muito!

– Não precisa ficar chateado, tava te provocando.

– Bastava abrir o pote...

– Você venceu! Chega de admirar a garoa, mas que fique claro: não vou querer só o pé, quero inteiro! Vem cá, meu moleque! :)


* A foto que ilustra essa adocicada crônica é de minha autoria, assim como o marzipan em formato de coraçãozinho. Já o gibi, comprei no mercado, fotografei e depois saboreei, claro... rsrsrs...

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sonhos, desejos e desafios

Em "As Meninas", Lygia Fagundes Telles nos apresenta três universitárias, Lorena, Lia e Ana Clara que, durante o sombrio período da ditadura militar, convivem em um pensionato de freiras, sonham, cada uma a sua maneira, e enfrentam o início da vida adulta.

Com uma linguagem fluida, lançando mão do encantador e desafiador fluxo de consciência, Lygia nos brinda com uma narrativa que alterna as vozes e pensamentos das três protagonistas, tornando a leitura ágil e extremamente cativante.

A autora domina a arte de criar personagens profundamente humanas, dosando os momentos de aflição e desespero com tiradas de humor dignas dos mais fervorosos aplausos. Confesso que quando concluí a leitura, fiquei meio sem ação... queria saber mais do futuro das protagonistas, por outro lado, adoro quando o autor encerra a conversa e deixa que o leitor imagine e tire suas próprias conclusões. Aliás, essa é uma das funções da Literatura, nos fazer refletir!

Gosto de como cada uma delas nos desperta um sentimento diferente: Ana Clara é daquelas amigas inconsequentes que é preciso dar colo e, ao mesmo tempo, encher de broncas; Lia e sua combatividade nos convida a lutar contra os desmandos de uma época de repressão; e Lorena, a mais sonhadora e sensível que, mesmo sendo descendente de uma família paulista quatrocentona, está sempre pronta para ajudar as amigas, sua visão mais leve e bem-humorada da vida faz a diferença.

Adoro as observações de Lorena em vários momentos, como quando fica indignada com a frase inicial do livro de Lia que diz: "Em dezembro, a cidade cheira a pêssego"... Ah, adorei! Um pouco de poesia não faz mal, Lorena, deixa a menina escrever o que quiser... rsrsrs; ou quando ela empresta um delicado lenço para Lia e fica imaginando que a amiga será capaz de limpar os sapatos com ele... e aconselha: "Mas não se importe não, seja lenço. Solto-o no espaço. Abriu-se leve como um paraquedas que Lião apanha impaciente". A genialidade da autora retratando, nos mínimos detalhes, toda e qualquer situação nos prende tanto a atenção que ficamos envolvidos pela trama, aguardando onde isso tudo vai dar! Viva o talento e a sensibilidade de Lygia Fagundes Telles! Salve a Literatura Brasileira! :)

sábado, 16 de maio de 2026

Patrimônio cultural ameaçado

Esta semana, lamentavelmente, o Anexo do Espaço Petrobrás de Cinema e o Café Fellini foram fechados por ordem judicial. A direção do cinema afirmou, em comunicado oficial, que está tomando medidas legais cabíveis para reverter a situação.

O valor histórico e cultural do imóvel, um casarão da década de 1930, é inegável, além disso, o local integra área enquadrada como Zona Especial de Preservação Cultural - Área de Proteção Cultural (ZEPEC-APC). Ou seja, é um patrimônio cultural e afetivo da cidade e, portanto, deve ser preservado. 

É inaceitável que tradicionais endereços tenham que dar lugar a empreendimentos residenciais, como se a cidade já não tivesse sendo desfigurada por torres e mais torres de apartamentos que a cada dia apagam sua memória, pobre metrópole!

Quem me conhece sabe que adoro cinemas de rua e cafés! Tenho inúmeras lembranças do Espaço de Cinema da Rua Augusta, frequento desde sempre... Em meados dos anos 1990, lembro de uma sessão lotada do filme "O Balconista" (direção de Kevin Smith), uma comédia hilariante, cinema independente em P&B, uma doideira tão empolgante que quando começaram a subir os créditos aplaudimos de pé! Longas inesquecíveis, como "Cortina de Fumaça" (direção de Paul Auster e Wayne Wang), filme que já abordei aqui no blog em 2024, incrível e muito inspirador.

Fotos: Divulgação/@cinecafefellini

Já no Anexo, adorava assistir cinema europeu... ah... as produções italianas e francesas! Em 2018, assisti a comédia francesa "Assim é a vida" (direção de Eric Toledano e Olivier Nakache), sobre uma turbulenta festa de casamento realizada em um palácio do século XVII, roteiro brilhante e humor digno de aplausos. Lembro que ri até com a senhora que estava ao meu lado, isso é que é filme bom... a gente compartilha as risadas com desconhecidos sem qualquer pudor... rsrsrs... Mas isso também se dá porque o ambiente é agradável e o público se entende. Cinema de qualidade! No Café Fellini que sempre me cativou pelo nome, gostava de escolher uma mesa num cantinho do salão e outras vezes ao ar livre... natureza é sempre um bálsamo... pra saborear um cappuccino e uma adorável fatia de torta doce.

Ah! Ir ao cinema, pra mim, sempre foi aconchego... ir ao Espaço da Augusta e passar no Café antes da sessão é passeio completo, alimenta o corpo e a alma! Os dias em que vou ao cinema são sempre inspiradores e rendem boas recordações. Por isso, resolvi escrever sobre esse tradicional e querido cinema de rua... cada vez que eu atravessava aquela porta no número 1470 da Augusta, saía mais inspirada, querendo realizar sonhos! Torço para que o Anexo (salas e café) reabra para que eu possa conhecer novas histórias e para que a cidade mantenha seus centros culturais! Cinema de rua e cafés são amor! Viva o patrimônio cultural de São Paulo! :)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Romance social

Em seu primeiro romance, publicado em 1846, Fiódor Dostoiévski já mostrava sua maneira profundamente humana de retratar a dura realidade.

"Gente pobre" é de uma tristeza e, ao mesmo tempo, de uma beleza tão sutil proporcionada pelas pequenas alegrias cotidianas, que cativam o leitor, tornando-o íntimo dos personagens. 

O autor nos brinda com a chamada narrativa epistolar, partindo da troca de cartas entre o funcionário público Makar Diévuchkin e sua vizinha Varvara Alieksiêievna, uma jovem órfã.

Na correspondência, os dois contam os desafios da vida difícil que enfrentam, mas Makar consegue ter uma visão que beira ao otimismo, um olhar doce que torna a pobreza menos amarga. Alguns trechos são encantadores, como quando ele descreve seu quarto e fala da satisfação de ter o seu "cantinho" ou quando envia junto à carta presentes para Varvara com carinho paternal. 

Dostoiévski sabe como poucos nos apresentar o universo que cada um traz consigo, seus afetos e valores, de forma global e atemporal, tanto que esses dois personagens com suas dores e alegrias poderiam viver em qualquer país em desenvolvimento, como o nosso ainda sofrido e desigual Brasil.

Durante a leitura, lembrei da canção "Gente humilde" (melodia de Aníbal Augusto Sardinha, conhecido como Garoto, com letra de Vinícius de Moraes e uma pitada de Chico Buarque) que fala de quem "vai em frente, sem nem ter com quem contar". Aplausos à Música Popular Brasileira! Viva a sensibilidade de Dostoiévski! :)