quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Mordidinhas de amor

Ilustração: Kleverson Mariano
Casaizinhos caninos são encantadores... Dama e Vagabundo, Pongo e Pepita são clássicos e devem inspirar cãezinhos românticos pelo mundo afora. Este é o caso de Boris e Brenda aí do lado... rsrsrs... Toda a vez que Boris era levado pelo dono para passear no parque, ele imaginava a doce cena em que Pongo se encanta por Pepita e ficava atento a tudo que acontecia ao seu redor pra, quem sabe, conhecer sua futura companheira. Voltava pra casa sempre tão agitado que o dono não entendia por que seu cachorro parecia ficar mais estressado depois do passeio, será que ele gostava mais de ficar no quintal correndo atrás de sua bolinha? Impossível... todo cachorro gosta de dar seu rolê.

Com Brenda não era muito diferente, durante os passeios ela estava sempre de orelha em pé... modo de dizer... suas orelhinhas são um charme caidinhas como um cabelo bem cuidado... rsrsrs... mas o fato é que sua dona chegava a ficar meio envergonhada, porque sua cadela não gostava simplesmente de brincar, na verdade, parecia uma fofoqueira... olhando pros lados, procurando sabe-se lá o quê... e toda a vez que passavam em frente à cantina do seu Francesco, ela parava e ficava olhando as mesinhas com os casais enamorados. Mas como a dona de Brenda não queria incomodar o almoço alheio, sempre dava um leve puxãozinho na guia e Brenda seguia cabisbaixa... Ah! Tadinha, ela ficava magoada, queria ser a Dama para dividir uma macarronada com um belo companheiro, como o sedutor Vagabundo.

Morando em uma metrópole, em bairros de regiões diferentes, como, cargas d'água, Boris e Brenda viraram esse casal que estamos conhecendo? O leitor pode pensar: simples, os donos procuraram companheiros para seus cãezinhos em abrigos, em canis ou, quem sabe, por intermédio de amigos, conhecidos, familiares. Ah, por favor, sem mesmices... rsrsrs... A verdade é que, depois de muitos passeios nada produtivos, Boris e Brenda se acharam quando se perderam de seus donos. Sim, aconteceu numa daquelas caminhadas em que eles são chamados de pets... argh... que horror, eles abominam essa mania de chamá-los com o mesmo apelido das garrafas de refrigerante... rsrsrs... 

Irritações à parte, durante o tal evento, houve um incidente lamentável. Uma queima de fogos com direito a pavorosos rojões disparados de uma empresa em festa, assustou os animais e a caminhada passou a ser uma correria desembestada... alguns cães, entre eles, Boris e Brenda, se soltaram de seus donos e correram para o parque para se protegerem do perigo. Aterrorizado, rabo entre as pernas, Boris tentava se esconder em um moita, quando sentiu seu traseiro encostar em outro traseiro... ai... era Brenda... tremendo de medo, os dois viraram ao mesmo tempo e... que amor! Finalmente, Boris achou sua Pepita e Brenda, seu Vagabundo! Melhor do que na imaginação, agora eles são um casal... nada mais vai separá-los. O leitor pode perguntar: como isso vai se resolver se os donos nem se conhecem? Ah... aí é problema dos humanos... porque, como diria Lulu Santos, "tolice é viver a vida assim, sem aventura... deixa ser pelo coração... se é loucura, então, melhor não ter razão"! Viva os necessários últimos românticos! :)


* Agradeço, mais uma vez, a generosidade de Kleverson Mariano (@kleverson_mariano) em autorizar que eu ilustrasse minha delicada e canina crônica com sua bela arte... 😉

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Sensibilidade e diversão

Nesses dias de luta pela manutenção da democracia, em que passamos muito tempo em estado de alerta, precisei dar uma aliviada nas preocupações... coisa rápida... é que escrever, ler, assistir a um filme ou animação, ir a uma exposição, ir ao teatro, visitar uma livraria... tudo isso me inspira, me ajuda a sonhar e me fortalece... a cultura sempre me salva! Por isso, para amenizar a tensão, assisti, pela primeira vez, uma das obras-primas do Estúdio Ghibli.

Escrita e dirigida por Hayao Miyazaki, a clássica animação "Meu Amigo Totoro" conta a história de duas irmãs, Satsuki e Mei que, junto ao pai, Tatsuo, mudam para o interior do Japão para que a família fique mais próxima ao hospital onde a mãe, Yasuko, está internada. Assim que chegam com a mudança, o pai incentiva as meninas a conhecerem cada cômodo e aí começam as descobertas a respeito da nova casa.

Quando já estão instalados e o cotidiano recomeça, Satsuki vai para a escola, o pai mergulha no trabalho e Mei, do alto de seus quatro aninhos, resolve explorar os arredores da propriedade. Os cenários são fascinantes e é exatamente na floresta que as crianças encontram o carinho e o conforto que precisavam pra enfrentar a falta da mãe. 

Então, a pequena tem o primeiro contato com espíritos da floresta ao seguir uma criaturinha de orelhas pontudas por uma espécie de túnel. A obra é um convite pra aproveitar a magia da Natureza... e, pra mim, que adoro ouvir os pássaros, o vento balançando os galhos das árvores, o barulho da chuva, uma história que valoriza essas delicadezas me conquista logo de cara!

Ah! Fiquei encantada quando a Mei conhece o Totoro e deita em cima dele, fofo e aconchegante como um bicho de pelúcia... rsrsrs... Dá até vontade de ter um desses pra relaxar nos momentos difíceis, deve ser terapêutico... rsrsrs...

A cena no ponto de ônibus é um charme... a irmã mais velha carrega nas costas a pequena que está com sono, Totoro chega pra fazer companhia e começa a se divertir com as gotas d'água batendo no guarda-chuva... é uma ternura!

Gostei demais! É uma obra sensível não só pelos personagens carismáticos e cores vivas, mas pela mensagem de otimismo, mesmo quando os problemas estão à espreita! A imaginação infantil e a magia da natureza tornam a animação encantadora. Valeu pelos inspiradores momentos de descanso. Viva a arte de Miyazaki! Viva a Cultura! :)

sábado, 17 de outubro de 2026

Um sábado relaxante

– Que manhã gostosa, amor!

– Também adorei, querida! Fazia tempo que a gente não tirava o sábado pra passear sem rumo. 

– Pois é... e nossa passada rápida na banca de jornal me aliviou uma saudade enorme...

– Sei bem... achei que seria interessante sair pra arejar um pouco sem programação.

– Ah! E adorei comprar palavras cruzadas.

– Lembrou da sua velhinha, amor?

– Às vezes, a gente acorda assim... com saudade de quem foi e continua sendo importante pra gente, mesmo sem estar mais aqui...

– Era você quem comprava as palavras cruzadas?

– Não, querido! Eu era pequenininha... tava começando a aprender a ler... minha mãe que comprava... e era uma alegria imensa ver os olhos brilhantes da minha avó pegando a sacolinha e começando imediatamente a fazer as palavras cruzadas... era uma boa terapia pra ela... e, inclusive, é muito bom pra saúde dos mais velhos! 

– Opa! Acho que tá na hora da gente começar a armazenar palavras cruzadas... rsrsrs... 

– Ahahaha... bobo, mas é bom mesmo!

– Concordo! Só falei pra alegrar o dia!

– Você sempre me alegra o dia...

– ... não é isso que você diz quando esqueço a toalha na cadeira do quarto... e isso porque não é na cama... ahahaha...

– Ahahaha... mas depois que dou bronca, sempre faço um carinho pra amenizar...

– Ahahaha... aí, realmente, me alegra o dia.

– Deixa de safadeza... eu tava aqui num momento doce, lembrando de minha avó e você vem...

– Quem começou a me provocar foi você dizendo que depois das broncas faz carinho aqui no seu menino travesso... rsrsrs...

– Ahahaha... sem comentários! Tá mais pra menino maluquinho...

– Gostei... grande Ziraldo! Mas voltando à sua avó... sabe o que me deu vontade de fazer agora?

– Palavras cruzadas?

– Ahahaha... mais tarde! Agora tava pensando que a gente podia fazer aquela bolachinha de amêndoas que ela te ensinou... 

– Ah! Adorei, amor! É uma forma de lembrar um pouquinho mais dela nessa manhã tranquila.

– Posso ajudar, untando a forma...

– Claro que quero sua ajuda, vamos fazer a bolachinha em homenagem à minha avó, mas sem bagunça!

– Ah! Assoprar um pouquinho de farinha em você não pode ser classificado como uma bagunça propriamente dita!

– Ahahaha... nem vem, depois sou eu que tenho que limpar a cozinha toda por conta da sua suave assopradinha. Por que você não unta a forma como todo mundo?

– Como diria nossas mães e, provavelmente, sua avó... eu não sou todo mundo!

– Original, ele!

– Grosseira, ela! Mas adoro mesmo assim.

– Ah! Então vem alegrar meu sábado, menino travesso!

– É pra já! :)


* Outro dia, pela manhã, passei na banca de jornal e quando olhei para as revistas de palavras cruzadas, imediatamente, lembrei que minha querida e saudosa mãe adorava! Uma doce lembrança que me inspirou a escrever esta singela crônica! ❤️

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Flanando por aí

É numa segunda-feira, levemente chuvosa, que os dois se conhecem em frente a um cinema de rua. Eles se esbarram e ela deixa cair seu bloco de notas no chão.

– Desculpe, sou muito atrapalhada mesmo...

– Imagina, eu que estava pensando demais como sempre e não vi a senhora.

– Obrigada pelo respeito que a palavra senhora carrega, mas pode me chamar de você. 

– Claro... muito prazer! Meu nome é Sol!

– Sol?

– Sol... de Solano!

– Ah! Gostei... o apelido é doce... rsrsrs... e o nome é forte!

– Obrigado! Posso saber seu nome?

– Lia!

– Lia?

– Sim... Lia de Lia mesmo!

– Ahahaha... boa! Você estava indo ao cinema?

– Não exatamente, quer dizer, sim... mas não assistir a um filme.

Ele levanta uma das sobrancelhas e dá um sorriso enigmático.

– Não pense que sou estranha... pelo menos, não por isso... rsrsrs... é que, na verdade, eu ia comer uma torta de amora e tomar um expresso no café do cinema.

– Entendo! Aliás, é uma coincidência, porque eu também não ia assistir nenhum filme, embora, adore a Sétima Arte. É que assim que saí do metrô pensei no incomparável pastel de forno...

– Ahahaha... então, você também costuma vir ao cinema só pra comer e beber as delícias do café?

– Frequentemente... quando tô precisando arejar as ideias ou desacelerar... se bem que, ultimamente, aprendi a caminhar em marcha lenta pra ver o mundo, apreciar o céu... essas coisas...

Lia dá um sorrisinho, meio encabulada, e tenta disfarçar a satisfação de ouvir palavras que se conectam com o jeito como ela tenta enfrentar todo tipo de maré.

– O que foi? Agora eu que digo: não pense que sou estranho... rsrsrs...

– Muito pelo contrário, só me surpreendi ao notar como somos parecidos!

– É verdade... você ia ao café sozinha? Ou está esperando alguém? 

– Sozinha... por quê?

– Ah! Pensei que seria legal tomarmos esse lanche juntos no café do cinema, o que acha? Se não for atrapalhar seus planos...

– Sem planos... hoje, saí pra flanar por aí!

– Ahahaha! Não acredito que você usa esse verbo maravilhoso: flanar! Todo mundo me enche o saco por isso...

– Ahahaha... bem-vindo ao mundo dos que adoram flanar!

– Que ótimo! Será que encontrei meu mundo?

Lia dá um sorriso tímido e baixa os olhos, tentando guardar o bloco na bolsa, enquanto Sol a observa atentamente.

– Vamos ao café?

– Vamos! Você se importa se eu pedir minha torta doce?

– Imagina! A única coisa que quero é sua companhia... e, claro, meu pastel de forno... rsrsrs... :)


* Uma curiosidade: comecei a escrever essa crônica há meses e deixei arquivada... mas na semana passada, resolvi continuar a história e, de repente, vendo a ilustração da minha querida @alikailustra (sobrinha/afilhada/ilustradora) reconheci meus personagens! Pedi e ela, generosamente, me deixou publicar aqui! Obrigada pela parceria de sempre! ❤️

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Alegria é resistência

– "É melhor ser alegre que ser triste. Alegria é a melhor coisa que existe. É assim como a luz no coração"!

– Ah! "Samba da Benção"... Vinícius de Moraes e Baden Powell! Adoro!

– Que letra, querido! O poetinha sabe das coisas!

– Pois é... mas achei que você tava um tanto quanto desanimadinha.

– Imagina! Tava só pensativa, amor! E nessas horas, gosto muito de cantar... uma bela canção sempre provoca sorrisos. Além do mais, alegria é um ato de resistência!

– Concordo muito! Aliás, nossas lutas são sempre acompanhadas de um sorriso largo!

– Agora lembrei de uma do Guilherme Arantes... "pra nunca perder esse riso largo e essa simpatia estampada no rosto"... rsrsrs...

– "Cuide-se bem"... uma bela canção puxa a outra... rsrsrs...

– Boa, amor! 

– A alegria consciente é nosso combustível pra enfrentar as maluquices que têm nos surpreendido por aí, querida!  

– A doce Cora Coralina dizia: "a alegria é uma escolha, uma atitude diante da vida"!

– Que lindeza, amor!

– Olha que depois de falar de coisas tão bonitas e relevantes, tô mais forte!

– Que bom, querida! Então, "deixa a tristeza pra lá. Canta forte, canto alto, que a vida vai melhorar"!

– Grande Martinho da Vila! Nesse caso, vou ter que cantar com você e dar um breque nas reflexões!

– Antes de cantarmos... falando em reflexão, vi uma entrevista do saudoso Paulo Freire que vem bem a calhar... ouça esse trecho: "sou inveteradamente esperançoso, tenho um certo gosto verdadeiro, na intimidade do meu ser, de brigar pela esperança"!

– Ah! Somos três! :)


* Ao escrever esta singela crônica, meus adoráveis personagens me ajudaram a esperançar! Viva a democracia!

sábado, 3 de outubro de 2026

Pelas ruas da capital francesa

Quando fui à exposição "Traçando Verissimo - O Mundo Fabuloso do Mestre do Humor Brasileiro", no Centro Cultural Fiesp, na Avenida Paulista, postei uma crônica (publicada em 26/09) e fiquei encantada com tudo, primeiro porque sou fã do autor desde sempre, segundo porque conheci um pouco mais sobre sua vida e carreira... porém quando vi o original da apresentação de "Traçando Paris" fiquei curiosa pra ler, saí pesquisando... e agradeço, imensamente, à existência dos sebos, em especial ao Sebo do Messias, onde comprei meu exemplar!

O livro é uma viagem sentimental que relata as particularidades de Paris na visão desse mestre do humor elegante! Como sempre acontece com sua obra, a leitura é fluida, divertida e inteligente, tratando de temas cotidianos com pitadas de História. Tive o prazer de conhecer vários pontos da capital francesa mostrados por ele, mas muitos outros não... e agora? Vou ter que planejar nova visita à terra das delicadezas! 

Logo de cara adorei o trecho: "Estamos na frente da Catedral de Notre Dame. Do alto destas torres sete séculos nos contemplam. E se você aguçar os olhos e a imaginação, também poderá ver o corcunda Quasimodo nos espiando de dentro de um nicho, lá em cima..." Incrível, quando estive em frente à Catedral pensei na mesma coisa, achei tão deslumbrante e grandiosa... mas evitava olhar com atenção para o alto das torres, porque também pensei que veria o corcunda me observando... rsrsrs... 

As ilustrações de Joaquim da Fonseca conseguem captar todo o encanto da capital francesa e sua elegante arquitetura. Até a polêmica pirâmide de vidro em frente ao majestoso Museu do Louvre tem seu charme... tanto nos belos traços do artista quanto ao vivo!

Confesso que, em 2015, quando vi a pirâmide estranhei, mas a foto (ao lado) que fiz da estrutura metálica com o sóbrio prédio ao fundo ornou... rsrsrs... Depois de muito observar, acabei adorando o resultado, não só da minha foto, mas também da mistura sofisticada do moderno com o clássico! 

Verissimo e família moraram em um apartamento da Rue Greneta, na parte mais antiga da cidade, de maio a dezembro de 1990. Em cada uma das crônicas, ele nos leva de carona, seja em suas observações pela janela, seja em suas andanças pelas ruas, enquanto ia se acostumando com a nova vizinhança. A poética ilustração de Fonseca (ao lado) nos convida a conhecer todos endereços e roteiros sugeridos. Com muito bom-humor, ironia e elegância, a cada página nos são apresentados o comportamento dos franceses, fatos históricos e sufocos cotidianos em meio à fascinação que o autor tinha pela capital francesa.

Ah! É uma leitura leve pra quem, como eu, adora as sutilezas da doce Cidade-Luz... ou melhor, La Ville Lumierè! "Agora, andem, que Paris é para sempre"... assim como nosso saudoso mestre das crônicas! Viva Luis Fernando Verissimo! :)

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Levemente nostálgicos

– Que saudade que me deu das tradicionais bancas de jornal!

– Ah! Uma variedade de revistas e gibis pendurados chamando a gente pra ler! 

– Tudo colorido! Era uma festa pra todas as idades! Sem chance de passar em frente e ignorar!

– Ahahaha... pois é... era muito bom, tinha em qualquer esquina, de todos os bairros da cidade, sem miséria... pena que, atualmente, são tão escassas.

– Tudo era papel... tudo físico... e a alegria indiscutível de ter algo pra abraçar e levar pra casa!

– Antes que digam que somos muito nostálgicos...

– ... Somos mesmo... ahahaha...

– Ahahaha... a saudade de coisas boas do passado não anula as coisas boas do presente, apenas validam a beleza de tempos em que não existia tanta tecnologia, ninguém nos rastreava... e tudo parecia mais humano, inclusive, as relações!

– Ah! A nossa continua transbordando de amor!

– Emocionei, querida!

– Olha que coincidência... você sabia que hoje é Dia Nacional do Jornaleiro?

– Não, mas sabe de quem lembrei agora? Do Seu Pepe e seu topete grisalho... 

– E aquele bigodinho fino... que elegante!

– Ah! Você gosta de bigodinho fino?

– Sim, mas tem que ter estilo! E o Seu Pepe sempre teve muito, além da simpatia!

– Nossa! Eu querendo recordar uma lembrança pueril do jornaleiro e você toda animada com o estilo do Seu Pepe! Tô surpreso!

– Por que, amor? Era um senhor muito bem apessoado, sempre muito paciente com a pressa estabanada das crianças, só isso!

– Continuo impressionado! Você tem uma tese sobre o comportamento do Seu Pepe? E eu que pensava que ele era só o dono da banca de jornal mais legal do bairro!

– Ahahaha... você tá com ciúme do Seu Pepe da banca?

– Não, mas do jeito que você fala parece que ele era um velhinho e pelo que me lembro era só um cara grisalho e ainda bem novo... eu diria sapecado!

– Ahahaha... agora você acha que ele era novo e sapecado porque tem quase a mesma idade que ele tinha, mas, na época, a gente era criança... 

– Ahahaha... tá bom, bela forma de me lembrar que estou começando a ficar grisalho...

– ... e continua charmoso, querido! Não estrague nossa recordação, eu só pensava em comprar gibi e ser feliz!

– Obrigado pelo elogio, eu também só pensava em comprar gibis! Mas voltando ao tema central de nossa conversa... a Banca do Pepe era passagem obrigatória depois da aula... aos sábados...

– ... aos domingos e feriados também... ahahaha...

– Ahahaha... toda hora era ideal pra dar uma passadinha por lá! Nossa! E a gente nunca se encontrou na banca... que coisa!

– Ah! Moramos no mesmo bairro, mas não estudamos na mesma escola... e nem sempre eu passava na banca quando tinha vontade, meus pais controlavam meus trocados... ahahaha...

– Mesmo assim, a Banca do Pepe tava sempre cheia de crianças... queria ter te conhecido com aquelas tranças da fotografia!

– E eu queria ter conhecido você com aquela franja...

– Ahahaha... nem me lembre daquela franja... 

– Por quê? Tão lindinho...

– Sei que smpre fui lindo!

– Deixa de ser convencido! A hora exata da gente se encontrar esta escrita nas estrelas... rsrsrs... mas isso é outra história, amor!

– É nossa bela história!

– Agora voltando à banca, lembra dos fascículos de enciclopédias de tudo que é assunto: animais, cinema, futebol... 

– Adorava esperar a cada semana qual seria o fascículo da vez... era tão bom esse tempo, essa forma de colecionar aos poucos...

– Sem comparação! Eu adorava os fascículos de uma enciclopédia  sobre animais selvagens...

– Também tive... a gente gastava as páginas de tanto ler e conhecer novas espécies. E os álbuns de figurinhas? Lembra quando não eram autocolantes?

– Aquelas do tempo dos nossos avós? Ahahaha... tá bom, mocinho, vamos parar de lembranças enrugantes!

– Ahahaha... enrugante é ótimo! Mas e o que dizer do prazer de ir à banca comprar o jornal pra...

– ... ler as tirinhas! Uau! A gente caminhava, conversava com o Seu Pepe e com qualquer pessoa que estivesse lá... ou seja...

– ... a banca de jornal era o ponto de encontro do bairro, era diversão garantida... e ainda tinha as balas e doces. 

– Era um refúgio! Pena que esse cenário mudou tanto... 

– O importante é que continuamos indo às bancas... procurando conversas boas como as do Seu Pepe!

– E alguém com a irresistível simpatia do melhor jornaleiro de todos os tempos!

– Concordo! Mas agora me diz uma coisa: será que tenho de me preocupar com jornaleiros grisalhos?

– Não seja grosseiro... Seu Pepe é uma lembrança de nossa infância...

– De fato... é outra lembrança que nos liga, mesmo sem nunca termos ido juntos à banca!

– Ah... adoro nossa história, amor! 

– Adoro nós dois! :)


* A doce ilustração é da minha querida @alikailustra (sobrinha/afilhada/parceira/ilustradora/designer) ❤️