quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Uma querida injustiçada

– Oi, amor!

– Oi! Tô aqui na cozinha, não se preocupe, já passei pano no chão e limpei as janelas... 

– Adoro seu jeito prendado de ser!

– Pra mim, arrumar a casa sempre foi natural, minha saudosa mãe nos ensinou, ela queria que seus filhos soubessem se virar a qualquer tempo! 

– Sábia senhora! 

– Passou no mercado, querida?

– Sim! Fiz umas comprinhas, mas confesso que ouvi uns comentários arrogantes que me deixaram, sinceramente, irritada!

– Sobre o quê?

– Peraí, tô indo... me ajuda a guardar as compras?

– Claro, minha consumidora preferida!

– As sacolas estão mais pesadas do que planejei...

– ... você sempre compra mais coisas do que tinha na lista, amor!

– Olha quem fala... quando te peço pra comprar uma dúzia de ovos, você volta com várias sacolas descartáveis com todo tipo de mercadoria e guloseimas.

– Ahahaha... mas, seja sincera, você adora quando nessas sacolinhas tem bolachinhas de nata, chás variados e aquele docinho da infância, confere?

– Tá bom, sem críticas a ida de cada um ao mercado, agora, por favor, deixa eu sentar um pouco.

– Toma um copo de água, enquanto eu guardo tudo e, por favor, me conte o que te deixou indignada?

– Ah! Que gostoso beber água! Então... eu tava na parte de hortifrúti e me deparei com lindas mexericas...

– Tô comprovando... lindas e cheirosas!

– Pois é, adoramos essa delícia da Natureza! O problema é que tinha duas cidadãs falando mal: "não gosto nem de chegar perto, o cheiro delas fica impregnado por horas e as pessoas sabem de longe que comemos mexerica"... ao que a outra respondeu: "é verdade, prefiro banana que não tem esse cheiro horroroso"... Que ridículas, sem coração, falando na frente das frutinhas!

– Ahahaha... amor, desculpe, mas tive de rir. Concordo, já ouvi muita gente falando do cheiro da simpática mexerica... seu sabor é sem igual, não sei como podem evitá-la... Eu adoro o cheiro!

– Eu não me contive...

– Saiu no tapa com as duas?

– Só em pensamento, mas falei que era um absurdo condenar uma fruta tão saborosa e rica em nutrientes simplesmente por seu cheiro que, pra mim, é muito bom! É uma injustiça!

– Teve bate-boca?

– Não porque elas me olharam com um desprezo tão grande que não tive nem o que dizer mais. Só fiz questão de encher um saco bem grande de mexerica pra jogar na cara delas como são boas!

– Melhor não discutir, nunca se sabe com quem estamos lidando.

– Não se preocupe, eu virei as costas e saí. Provavelmente, falaram mal de mim, que se lasquem, eram duas frescas que devem preferir os insípidos sucos industrializados!

– O importante é que aqui em casa comemos fruta com as mãos, porque a ideia é se lambuzar mesmo... ahahaha...

– Concordo... fruta é pra se deliciar!

– Voltando a essa bizarrice, lembrei que trabalhei em um lugar que ninguém podia levar mexerica por causa do cheiro... quando levei a primeira vez não sabia dessa regra esdrúxula e me encheram o saco o dia inteiro alegando que a copa, a geladeira e eu ficamos cheirando mexerica... bando de neuróticos!

– Ahahaha... realmente fico indignada com quem se incomoda com o aroma de certos alimentos. Inclusive, hoje, as marmitas não são mais as mesmas... Como não amar essa doce fruta e os clássicos ovo frito com arroz e feijão ou ovo com pão? Gente insensível!

– Deixa pra lá, amor! Pra nós, mexerica tem espaço garantido! E ovo frito também!

– Nada mais agradável que alimentos saborosos...

– ... e cheirosos!

– Chega de conversa... vamos comer mexerica na varanda!

– Melhor programa depois de uma faxina rápida.

– Então, pega a sacola e vem, meu mexeriqueiro preferido!

– Ahahaha... vamos logo, senão vou te descascar em plena cozinha...

– Ahahaha... não me provoca! :)

sábado, 8 de agosto de 2026

Um delicado curta de animação

Às vezes, só precisamos assistir a uma história leve que coloque um sorriso em nosso rosto, nos dê a sensação de aconchego e nos afaste um pouco das preocupações do cotidiano.  Garimpando no YouTube, encontrei o curta de animação da Disney "Paperman", que acredito ser exatamente o que estava precisando pra relaxar.

A obra me conquistou de cara só pelo fato de ser em P&B. Achei um charme os cenários e, claro, os simpáticos protagonistas.

Ele, no trabalho, sempre rodeado de papéis por todos os lados, mas elegante e com aquele olhar sonhador que adoro. Um dia, na estação de trem, depois de uma ventania (que, aliás, vem bem a calhar, já que estamos passando por uma semana de expectativa de ventos fortes), ele conhece a "mulher da sua vida". As circunstâncias? Ah! Prefiro não contar, assista e tenha sua experiência... garanto que vai gostar... rsrsrs...

Por sua vez, ela, estilosa, com seu batom vermelho, que é decisivo na trama, também se encanta com o rapaz atrapalhadinho... rsrsrs... Enfim, é uma animação fascinante, que me fez lembrar de uma época adorável da Disney... dos clássicos "Cinderela", "Branca de Neve e os Sete Anões", "A Dama e o Vagabundo"... desenhos que assisto desde sempre com o mesmo brilho nos olhos! Viva os curtas e os longas de animação! :) 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Quando nos reconhecemos em uma HQ

Outro dia, procurando algo pra ler, rir e relaxar um pouco, descobri a história em quadrinhos "Diário de uma volátil", da ilustradora argentina Agustina Guerrero. Além de gostar do fato de ser a reunião de publicações de seu blog autobiográfico, adorei a forma bem-humorada, por vezes escrachada e cheia de sutilezas, que ela nos apresenta seu cotidiano, com o qual me identifiquei em várias páginas... rsrsrs... Nada como uma autora sensível pra retratar, na medida certa, as mazelas de nosso dia a dia com reflexão e emoção! 



Poderia ficar aqui comentando cada uma das páginas, porque as ilustrações são lindas e divertidas, mas separei três que me abriram um sorriso no rosto, como a que fala exatamente que quanto maior o sorriso, melhor! Concordo plenamente, inclusive, já disse aqui que o sorriso sempre nos leva longe, facilita as coisas... mesmo quando estamos sem rumo!

Ah! A identificação com algumas situações foi enorme... rsrsrs... como a retratada ao lado. Quando vou ao supermercado, invariavelmente, pego o produto que está mais ao fundo da prateleira... adorei me ver nessa ilustração... ahahaha... Engraçado que faço isso com qualquer mercadoria, não importa se xampu, arroz, queijo, sabão em pó, margarina ou papel higiênico... sem pudor, escolho o mais escondido e saio satisfeita... ahahaha... 


Falando em emoção, fiquei surpresa quando me deparei com a ilustração que retrata a delicadeza de quando "o céu resolve desenhar"... Ah! Pra quem, como eu, adora o amanhecer, o entardecer, o anoitecer... enfim, admirar e conversar com o Sol, as nuvens, as estrelas e minha querida Lua, me reconheci muito nessa cena... rsrsrs... Incrível como, exatamente, no mesmo dia, registrei, da minha janela, um belo céu que também resolveu desenhar... 


Fiz a foto (ao lado) por volta das seis e meia da manhã... fiquei fascinada e, então, me identifiquei ainda mais com a moça da HQ... rsrsrs... Ah! Olhar para o céu, seja de dia ou de noite, sempre me acalma... me inspira! Viva as cores da Natureza! Viva a Nona Arte e o talento das quadrinistas! :)

sábado, 1 de agosto de 2026

Um querido e doce clássico


– Ah! Bom mesmo era meu querido Romi-Isetta azul! Foi o que enfatizou Seu Bernardo quando perguntado o que estava achando de passear na Ferrari F40, recém-adquirida pelo seu neto mais velho. Indignados, todos olham para o senhor com um misto de espanto e um leve rancor. Afinal, não é todo dia que se passeia em um automóvel tão icônico como o modelo italiano, ainda mais sendo o primeiro exemplar da coleção do rapaz.

– Eu sei que vocês gostam desses carros cheios de ostentação, espaçosos, que chamam a atenção onde quer que se vá, mas continuo com a minha opinião: são encantadores, no entanto, qual a graça se vão ficar guardados 99% do tempo em garagens todas monitoradas por câmeras, cães de guarda e seguranças?

– Mas papai, onde o senhor queria que a gente guardasse esses tesouros? Na calçada, em frente ao seu predinho simples, ao lado do metrô e da padaria da esquina?

– Não seja esnobe, querida! 

– Seu Bernardo, já sabemos sua opinião sobre tudo isso, mas gostaríamos que o senhor participasse desse momento de conquista de nosso primogênito, só isso! Queria que o senhor se divertisse com a gente! 

– Meu genro, não se desespere... peço desculpas a todos. É que toda a vez que vejo carros antigos bem conservados como esse, lembro do meu...

– ... "Bolinha Azul"! Sabemos disso, meu velho, não fique assim... um dia ainda vamos tê-lo conosco de novo e vamos fazer piquenique no parque todos os domingos de manhã!

–  Ah! Minha velha, Suzaninha! Só você mesmo pra me entender... você acha que estou sendo intransigente?

– Querido, só acho que deveríamos nos alegrar, afinal, nosso neto está começando uma bela coleção de automóveis antigos... você foi um dos seus maiores incentivadores, sempre levando-o a feiras de colecionadores! Dê ao menos um sorriso!

– Parabéns, meu neto, por iniciar sua coleção... desculpe seu avô, não queria ofendê-lo... o modelo é realmente lindo.

– Vô Bê, não se preocupe, não estou chateado, sei bem do seu amor por esse famoso "Bolinha Azul"!

– Tudo resolvido! Agora, vamos voltar pra casa, porque um lanche reforçado nos aguarda!

Seu Bernardo dá um suspiro contrariado. Ultimamente, não gosta muito de ficar longe de seu refúgio, adora passar as tardes lendo romances com Dona Suzana, porém, como já criou uma leve polêmica, aceita de bom grado ir à casa da filha.

Por mais que o clima tenha pesado durante o passeio de Ferrari, Seu Bernardo e família adoram um café da tarde e assim que veem a mesa posta repleta de pãezinhos, bolachinhas, geleias, manteiga, queijos e outras guloseimas, esquecem qualquer rusga. Com a presença dos dois netos mais novos, as conversas se tornam ainda mais animadas e as risadas preenchem o ambiente.

– Filha, adorei o café, estava tudo uma delícia, mas sua mãe e eu precisamos ir pra casa descansar!

– Nem pensar... depois do jantar, vamos cantar parabéns pro senhor, papai! Fiz o seu bolo preferido! Ou o senhor estava achando que o passeio era suficiente? Precisamos e adoramos comemorar seu aniversário!

– Ah! Imagina, filha! O passeio foi suficiente pra eu quase acabar com o dia da família... eu e minha boca grande... ahahaha...

– Não fale assim, olha a alegria de seu neto por ter te levado a esse passeio de carro novo!

– Por isso, não queria ter dado essas minhas opiniões inúteis...

– Para com isso, vovô! Vamos conversar, quero saber qual sua avaliação sobre alguns modelos que estive pensando... pai, vem cá também!

– Já tô pronto! Também quero saber o parecer de meu sogro sobre nossas ideias para as próximas aquisições! 

–  Vem, mamãe! Quero te mostrar umas toalhas e panos de prato que comprei...

– Ah, filha, quero ver tudo!

As duas saem da sala, enquanto Seu Bernardo, o genro e os netos se empolgam com o bate-papo sobre o mundo dos automóveis antigos. De repente, a conversa é interrompida por um estranho grito de Dona Suzana.

– O que foi? O que aconteceu com minha Suzaninha?

– Calma, vô! Já imagino... 

– Não se preocupe, o grito foi de satisfação, meu sogro!

– Que tipo de toalha, pano de prato ou seja lá o que for que minha filha mostrou pra mãe soltar um grito desse!? Agora fiquei curioso!

– Vamos ver, vovô!

Quando os netos e o genro abrem a porta da cozinha que dá acesso à garagem principal da casa, Seu Bernardo não consegue conter as lágrimas.

– Mas esse é meu querido "Bolinha Azul"? É ele mesmo, meu neto?

– Sim, vovô! Ele voltou para o senhor, é seu presente de aniversário!

– Como assim? Suzaninha, você sabia disso?

– Não, também fui surpreendida. Você não ouviu meu estabanado grito de alegria!?

– Mas como vocês conseguiram? Eu tive de vender meu Romi-Isetta e nunca mais tive contato com o dono, até tentei...

– Seu neto foi implacável, Seu Bê! Ele passou um ano procurando, lembra quando ele pediu pra ver as fotos do seu carro?

– Meu neto amado! Deve ter sido caro... como conseguiu achar meu "Bolinha Azul"?

– Simples, vovô! Fui atrás das pistas, conhecendo gente de tudo que é canto nas feiras que o senhor me apresentou quando eu era criança... estou realizado, comprar de volta esse carro é o que eu mais queria fazer.

– Mas como vou te pagar?

–  Com seu sorriso!

–  Me dá um abraço, meu neto! Nem sei o que dizer...

– Seus olhos já estão me dizendo, te amo Vô Bê! Agora, pegue sua garota e vá passear!

– Cadê a chave? Vamos, querida!

– Nada de passeio longo, casalzinho! Voltem logo pra gente cantar parabéns e comer o bolo! :)


* A foto que ilustra esta automobilística crônica é de minha autoria. O registro foi feito, há quase 10 anos, quando me deparei com essa coisinha lindinha sorrindo pra mim... rsrsrs... Pois é, assim como meu personagem, sou encantada por esse doce carrinho! ❤️

quarta-feira, 29 de julho de 2026

A insana violência do ser humano



– Tô chocada com a notícia da capivara que foi atingida por uma flecha, na Represa de Guarapiranga, na Zona Sul de São Paulo! O ser humano, realmente, continua sendo um dos menos evoluídos na face da Terra. 

– Também fiquei impressionado! O mundo todo sofrendo com as mudanças climáticas, tempestades, incêndios em florestas, calor extremo, fome e, no meio disso tudo, um insano é capaz de flechar uma capivara na maior metrópole da América Latina, em pleno Século XXI. Esse indivíduo não deve ter nada na cabeça.

– Deve ser um desalmado... um sem noção. Como ainda tem gente praticando caça de animais silvestres... que, além de desumana, é proibida no Brasil e configura crime ambiental?

– Sim! São Paulo tem tanto problema pra resolver, desigualdade social, violência, fome. Será que as pessoas não podiam aliviar um pouco ao invés de sair por aí brincando de tiro ao alvo?

– Não tem cabimento atentar contra os animais silvestres, com o meio ambiente. E nossa querida cidade cresceu e continua crescendo desordenadamente. Sinto tanto quando vejo árvores sendo derrubadas dando lugar a arranha-céus.

– Sem contar a quantidade de casas antigas sendo demolidas e substituídas por prédios que mais parecem caixas de sapato. Preservar a história e o patrimônio da cidade deveria ser mais levado em conta.

– Nossa, amor, que conversa mais triste. Vamos passear um pouco, se possível em um parque bem preservado pra ouvir só o canto dos pássaros?

– Claro, vem cá, me dá um abraço!

– Só se você me devolver outro...

– É pra já!

– Também te amo! :)


* A foto que ilustra essa crônica/desabafo é de minha autoria, fiz esse registro, há alguns anos, no Horto Florestal (ZN-SP). Resolvi publicar essa capivara com seus filhotinhos para reforçar como a Natureza é bonita, mais bonita do que muita gente. Viva os animais!

sábado, 25 de julho de 2026

Amor de porcelana

Aproveitando que amanhã é Dia dos Avós, tava lembrando da minha avó materna... portuguesinha de cabelinhos brancos, viúva desde muito nova... meu avô materno faleceu quando minha mãe tinha apenas sete anos.

Quando era pequenininha, lembro da hora do café da tarde, a mesa era organizada, tudo simples e muito bonito... a manteiga conservada na água pra ficar macia, os pãezinhos frescos... a faca de pão, grande de serrinha, clássica, todo mundo tinha uma em casa, o café com leite na medida certa, servido em bonitas xícaras com pires... ah... doces lembranças na casa da vó. 

Se íamos almoçar, ela acabava sempre me dando leves broncas, achava que eu comia pouco e até ameaçava dar um presente pra outra menina qualquer se eu não raspasse o prato... rsrsrs... eu me divertia... mas, às vezes, ficava preocupada... que menina seria essa que minha avó ia presentear? Até porque ela não gostava de dar brinquedos, ela sempre me dava roupa, só uma vez me deu uma bonequinha tão linda... guardo até hoje! 

Toda a vez que íamos visitá-la, minha mãe sempre dizia: comportem-se e não mexam em nada. Éramos educados e por mais que a cristaleira dela nos encantasse, nunca fizemos nada errado, a gente ficava só olhando todos aqueles itens que preenchiam as prateleiras, louças, souvenires... eu adorava os bibelôs de porcelana, especificamente, um casalzinho sentado num muro... era tão lindo! Quando minha vó faleceu, eu ainda era criança e minha tia me deu o bibelô de presente... ah... achei tão bonito, ela sabia que eu gostava! Sempre que olho pra ele sinto todo o carinho... é como um abraço de vó... da minha vó!

Uma coisa que me traz sua lembrança é o aroma de arruda... minha vó sempre ia na nossa casa logo cedo pra me benzer. Ela era muito paciente com a Gi pequenininha... rsrsrs... eu queria saber o que ela rezava enquanto me benzia, ela ria e isso atrapalhava sua reza. Minha mãe pedia pra eu ficar quieta, mas minha avó não se importava e, algumas vezes, pra conseguir me benzer, ela me virava de costas... coisa de criança sapeca e curiosa... rsrsrs... hoje sinto falta desse cuidado todo... mas sei que sua bênção continua me protegendo de onde estiver... ❤️

Já meu avô paterno, italiano, faleceu quando eu tinha três anos... não tenho lembranças dele, porém minha mãe dizia que quando eu me irritava parecia o vô Carlo... rsrsrs... e minha avó paterna faleceu quando eu tinha uns cinco anos de idade, mesmo assim lembro de seu cheirinho e de seu abraço! :)

* Esta crônica, ilustrada pela foto do meu querido casalzinho de porcelana, é uma singela homenagem aos meus avós paternos e maternos que me deram meu pai e minha mãe... ❤️

quarta-feira, 22 de julho de 2026

A calma simpática dos jabutis

– Outro dia tava observando a gente andando pela calçada rumo à padaria...

– Tava fazendo um estudo antropológico, amor?

– Não exatamente, apenas fazendo uma observação leiga.

– Qual sua conclusão?

– Não fique contente... minha conclusão é levemente incômoda!

– Não me diga!

– Pensei que tava curioso.

– Engraçadinha! Fala logo, minha observadora social!

– Ahahaha... adorei meu novo cargo! 

– Continuo aguardando seu parecer.

– Calma, vou fazer um simples comentário... de uma sensação que me veio à cabeça enquanto vi nosso reflexo nas vitrines daquela loja de departamentos, no quarteirão anterior à padaria!  

– Tá enrolando muito... e olha que eu sou o mais paciente do casal!

– Dois erros: não estou enrolando e você não é o mais paciente do casal pelo simples fato de eu não ostentar um traço sequer de paciência em meu ser!

– Ahahaha... agora você foi assertiva em sua colocação... prossiga!

– Como eu ia dizendo, olhando pra nós dois, quem vê de fora é capaz de achar que somos completamente sedentários.

– Não entendi, não somos sedentários, pelo menos, não completamente!

– Ahahaha... pois é, acho que vamos ter de rever os treinos na academia ou ao menos aumentar a intensidade das caminhadas.

– O que você viu nesse reflexo? Será que descobriu o multiverso?

– Bobo! Vi a gente se arrastando como se fôssemos um casal de jabutis indo atrás de um naco de banana ou uma folha de acelga!

– Ahahaha... exagerada! Mas não acho que estávamos nos arrastando tanto assim... se bem que parecer com um casal de jabutis é até simpático... são tão tranquilos, dóceis!

– Concordo, mas achei que estávamos até meio corcundas...

– Também gosto do Corcunda de Notre Dame... no fundo é um romântico e só queria a Esmeralda pra ele... acho justo!

– Então, assunto encerrado, não tenho mais como argumentar!

– O importante é manter o bom-humor! Não posso fazer nada se tem dias em que minha coluna adora doer a cada passo que dou... por isso, sou uma mistura de jabuti, pela calma, e corcunda pra tentar aliviar a tensão... ahahaha... 

– Se está satisfeito, ótimo! Não gostei de me ver arrrastando os chinelos e praticamente encurvada em público!

– Exagerada! Nem tinha ninguém na rua, domingo às sete da manhã, só mesmo o casal de jabutis corcundas aqui pra ir à padaria!

– Ahahaha... que raiva! Não quero rir, queria ficar chateada...

– Você é a única pessoa no mundo que quer ficar chateada. Deixa pra lá, aquelas vitrines confundem a visão, são muitos reflexos ao mesmo tempo, parece uma sala de espelhos...

– Depois eu é que sou exagerada!

– E nervosa... e impaciente!

– Mais algum adjetivo para me definir, querido?

– Por hora é isso mesmo... ahahaha...

– Você ainda quer a torta de frango que me pediu ontem à noite?

– Ah! Não... você não é vingativa.

– Talvez um pouco sentida...

– Amor... você tá querendo confete?

– Prefiro chocolate granulado!

– Ahahaha... essa é minha garota.

– A conversa tá boa, mas tenho que ir pra cozinha...

– Nem pensar... agora quero você aqui do meu lado! Tava pensando em comer um naco de banana ou uma folha de acelga junto da jabutizinha mais linda das galáxias!

– Como não tenho a calma de um jabuti, vou assar a torta!

– Você tá dispensando seu jabuti de coluna torta?

– Ahahaha... parece nome da espécie: jabuti-de-coluna-torta!

– Ahahaha... gostou? Adoro sua risada! 

– E eu adoro sua habilidade em me fazer rir!

– Deixa a torta, o jabuti e o corcunda pra lá e vem cá rir comigo, minha querida quelônia!

– Mas você não queria a torta?

– Prefiro passar a manhã, tranquilamente, em sua companhia.

– Ah! Assim você me quebra as pernas!

– Nada de violência! Aqui é só amor! :)


* A foto é de minha autoria... os inspiradores jabutis vivem na casa dos meus queridos Betão (irmão) e Nivia (cunhada)... ❤️