![]() |
| Ilustração: Kleverson Mariano |
– Passa a bola, Lola! Este era o pedido que mais se ouvia quando ela invadia a pelada dos irmãos mais velhos. Ícaro, de 10, e Ítalo, de 8 anos, passavam as férias jogando futebol num pequeno campinho gramado no quintal dos fundos cedido pela mãe para que suas roseiras se livrassem das boladas certeiras.
Como é fato conhecido, até pouco tempo atrás, as mulheres não tinham vez quando o assunto era futebol. Entender do esporte, tudo bem, mas jogar? Driblar? Fazer golaços? Sem chance, fora de cogitação! Por isso, Iolanda, ou melhor, a centroavante Lola, passou parte da infância jogando só com os irmãos.
Aos poucos, o pai, que era meio reticente em apoiar a filha em um mundo tão masculino quanto o do futebol, começou a perceber que ela tinha mais do que jeito pra coisa… e, então, quando a menina completou seis anos, deu de presente um uniforme completo com direito à chuteira profissional e resolveu que era hora de matriculá-la em uma escolinha, afinal, praticar esportes é, antes de tudo, muito saudável.
Lola ficou radiante, sua mãe nunca viu seu sorriso tão iluminado como quando recebeu o uniforme e foi pra escolinha de futebol, nem quando ganhou uma boneca do seu tamanho, seu maior sonho de infância! Ainda assim, a boneca seguiu sendo sua companheira e herdando os uniformes antigos da garotinha.
Durante todos os anos em que esteve na escolinha, o pai fazia questão de levar e buscar a filha, adorava as conversas no carro sobre o treino, as jogadas ensaiadas e seus gols. Até que um dia, o olheiro de um time grande foi assistir um jogo aleatório, sem qualquer aviso.
Na ocasião, Lola foi a única criança convidada a fazer um teste na peneira do tal clube. Emocionado e meio reticente, o pai aceitou, mas disse que precisava conversar com a esposa antes de qualquer coisa. O olheiro deixou seu cartão e marcou o teste para a semana seguinte. Lola não deu uma palavra no caminho da escolinha à casa.
A mãe, mesmo assustada com a possibilidade de sua filha se machucar num jogo de contato por vezes tão violento, apoiou Lola e, então, a família toda acompanhou-a no teste. Os irmãos, embora meio constrangidos por nunca terem sido chamados para peneiras, no fundo não se importaram, afinal, ela era a mais talentosa dos três. Resultado: a pequena foi aceita e passou a integrar o clube nas categorias de base. Festa no gramado dos fundos do quintal, abram alas para a nova centroavante!
Dez anos depois, Lola estreou como profissional na partida final do Campeonato Paulista de Futebol! Na arquibancada, pai, mãe e irmãos se desmancharam de orgulho ao assistirem ao primeiro gol da sua querida café-com-leite. Torcendo a plenos pulmões, Ícaro e Ítalo ostentavam, durante o jogo, um cartaz enorme com a frase que mais gritavam no campinho da família, mas com uma modificação bastante significativa: PASSA A BOLA PRA LOLA! :)
* Escrevi esta doce e futebolística crônica para um concurso, mas não fui escolhida... faz parte... então, resolvi postar em meu querido blog, afinal, minha centroavante merece ser conhecida!
** Assim que vi a ilustração do Kleverson (@kleverson_mariano) no Instagram, reconheci minha Lola... rsrsrs... Por isso, pedi autorização para publicar aqui e ele, gentilmente, autorizou! Mais uma vez, obrigada pela parceria e parabéns por sua arte!











