sábado, 19 de setembro de 2026

Vamos ao teatro!

Mais uma vez, Carmela e Gregório estão, confortavelmente, sentados em suas poltronas prediletas, na primeira fileira. Só frequentam este teatro, pois, além de ser perto de casa, foi onde se conheceram. Não, essa não é uma lembrança romântica. Na verdade, foi aporrinhação à primeira vista! Gregório gosta de dizer que a culpada pelo fato da primeira memória do casal ser ruim é Carmela! E ela diz que a grosseria dele é que contribuiu para que a situação se tornasse tão desagradável.

Voltamos para meados da década de 1970. Era inverno e caía uma garoazinha que, para os desavisados, encharcava até os ossos, lembra Gregório. A noite pedia um pouco de arte para amenizar o dia atarefado de trabalho e ele tentou caprichar no visual: vestiu seu melhor jeans boca de sino, camiseta básica, jaqueta surrada, tênis batido e seguiu para o teatro!

Apressada, Carmela estreava uma minissaia, casaco de lã, botas de cano longo e seu recorrente guarda-chuva colorido... sentia-se pronta para ser feliz em uma noite teatral. Ao atravessar a avenida, tomou um susto com o alvoroço na bilheteria... devia ter comprado o ingresso na hora do almoço, mas preferiu adiantar o serviço e ficar livre mais cedo a tempo de ir para casa trocar de roupa. Sem lamentações, afinal, não há problema em enfrentar uma fila.

Com o ingresso na mão, Gregório aproveitou para tomar um café, enquanto olhava a aglomeração que ainda se formava na bilheteria. Gostava da agitação e de observar as pessoas e suas esquisitices... como se ele não tivesse esquisitices também, ora bolas!

Quando, finalmente, Carmela comprou o ingresso, correu para o toalete, precisava garantir que não teria vontade de fazer xixi no meio da peça. A hora do teatro, pra ela, deveria ser encarada com todo respeito que a arte merece, portanto, nada de arriscar! 

Primeiro sinal. Hora de entrar e se acomodar em sua poltrona. Em meio ao leve burburinho, os mais prevenidos e atentos logo começaram a procurar seus lugares. Gregório entrou pela porta da esquerda e Camela pela da direita, por ser a mais próxima ao sanitário feminino. Com o ingresso na mão, ela ficou indignada quando viu um homem sentado em seu lugar e logo o questionou.

– Acredito que o senhor está ocupando meu lugar!

– O quê?

– O senhor é surdo? Está ocupando meu lugar...

– Claro que não! Acabei de comprar meu ingresso... você é que deve estar enganada!

– Não costumo me enganar... também comprei meu ingresso agora há pouco.

– E?

Segundo sinal. A peça iria começar em 15 minutos!

– O senhor ouviu o segundo sinal?

– Claro que ouvi... espero que a senhorita sente na hora do espetáculo, caso contrário, vai atrapalhar não só a mim, mas toda a plateia que está, imediatamente, atrás de nós!

– O senhor é bem articulado e, portanto, já entendeu que está sentado no meu lugar... agora, seja gentil e levante!

– A senhorita é sempre assim?

– Assim como? Educada?

– Não... pedante!

– Como o senhor é grosseiro. Agora, já chega... preciso sentar logo, não gosto de chamar a atenção.

– Nem eu. Por isso, entrei logo e sentei no meu lugar, já a senhorita continua de pé me aporrinhando!

– Me mostre seu ingresso logo... vai ver como estou...

– ... errada! Aqui está: Fileira A, poltrona 13!

– Não pode ser... a minha também é Fileira A, poltrona 13!

Terceiro sinal. As luzes da plateia seriam apagadas e, em cinco minutos, o espetáculo começaria.

– Eu não acredito, quero meu lugar!

– Me dá aqui seu ingresso! Vamos conferir isso agora!

Gregório revira os olhos, faz uma careta e respira fundo.

– A senhorita está atrasada, este seu ingresso é da peça que encerrou temporada na semana passada! Ahahaha... que situação!

– Como assim? Devolve meu ingresso, agora!

As pessoas em volta já se mostravam incomodadas com os dois discutindo. Carmela fica vermelha, procura em sua bolsa e acha o ingresso correto: Fileira A, poltrona 15.

– Mil desculpas... as luzes... por favor, pode me dar licença pra que eu sente em minha poltrona?

Gregório dá um sorrisinho de canto de boca e começa a considerar que, como dizia sua avó: há males que vem para o bem! Por sua vez, Carmela olha discretamente e conclui que, apesar da grosseria, ele tem um rosto bonito! Então, as luzes se apagam e abrem-se as cortinas. É hora de aproveitar o momento, pois uma vida inteira os espera após a sessão! :)


* Hoje comemora-se o Dia Nacional do Teatro e essa crônica é minha humilde homenagem aos dramaturgos, atores, atrizes, diretores e aos inúmeros profissionais que abrem as cortinas, iluminam os palcos, clareando ideias e enriquecendo nossas vidas!

* Na foto, meus exemplares de peças do saudoso Plínio Marcos (adorava encontrá-lo nos corredores da Bienal do Livro de São Paulo pra conversar e pegar seu autógrafo); e uma relíquia... rsrsrs... o tíquete do espetáculo "Dores de Amores" (1989), de autoria de Léo Lama, filho do Plínio e da grande atriz Walderez de Barros, que tinha como protagonistas Malu Mader e o querido e talentosíssimo Taumaturgo Ferreira! Viva o Teatro brasileiro!

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Um doce filme, uma bela recordação

Ambientada nos anos 1950 e tendo como "trilha sonora" o agradável som das máquinas de escrever, a comédia romântica francesa "A Datilógrafa", direção e roteiro de Regis Roinsard, me conquistou antes mesmo de assistir! Fotografia, cenários e figurinos me encantaram do mesmo modo. Ah! A sonhadora aqui adora essas delicadezas!

O filme conta a história de Rose Pamphyle (Déborah François), que aos 21 anos decide sair da casa do pai, em uma cidadezinha da Normandia, norte da França, para morar na maior cidade da região, Lisieux, e tentar uma vaga como secretária, sonho da maioria das moças modernas daquela época! Para surpresa do chefe Louis Échard (Romain Duris), ela é muito rápida teclando, então, ele resolve treiná-la para ser a datilógrafa mais rápida da França e, pra isso, não mede esforços para que desenvolva cada vez mais a técnica... Rose passa dias e noites teclando, copiando livros inteiros! Em meio às confusões que envolvem os bastidores dos concursos, Rose e Louis vivem um romance. A trama conta ainda com simpáticos coadjuvantes. Pra quem só precisa de algo leve e divertido, vale a pena! 

Assistindo ao longa, não pude deixar de lembrar da Gi aqui, quando tinha... sei lá... uns 10 anos de idade, teclando numa máquina de escrever, como esta da foto ao lado. Eu não fiz datilografia... já não era mais obrigatório como nos tempos da Rose... rsrsrs... mas confesso que gostaria de ter aprendido, tenho saudade de teclar. Toda a vez que vejo uma máquina de escrever, fico com vontade de datilografar, ainda vou comprar uma dessas pra ouvir o adorável e instigante barulhinho das teclas. Viva o Cinema sempre tão inspirador! :)

sábado, 12 de setembro de 2026

A banda mais revolucionária das galáxias

Dia desses estava procurando um filme pra assistir sem grandes expectativas e eis que me aparece um que desde a primeira vez que ouvi falar despertou curiosidade e, ao mesmo tempo, uma certa repulsa, afinal a premissa de que, depois de um apagão, o mundo esquecia da existência dos Beatles é muito alarmante. Nasci ouvindo os garotos de Liverpool, meu irmão roqueiro adorava e continua adorando, cresci acompanhando as letras em revistinhas de música que ele colecionava.

Controlado o horror de um mundo sem Beatles, resolvi assistir "Yesterday", direção de Danny Boyle! E fui fisgada justamente pelas músicas, que cantei a plenos pulmões... sozinha no meu quarto, claro... o espetáculo deixo para a banda mais criativa e revolucionária das galáxias! No início, o músico Jack Malik (Himesh Patel) pensa, seriamente, em desistir da carreira, depois de fazer shows para meia dúzia de espectadores. No dia do tal apagão, ele é atropelado por um ônibus e ao acordar descobre que vive em um mundo em que os Beatles não existiam... que mundo esquisito, eu, hein?

Depois de fazer uma busca na internet e constatar que a banda não existe, ele passa, de forma pouco honesta, a gravar as músicas como se fossem suas composições... fiquei arrasada. Só que quando ele começa a cantar, embarcamos nas belas e instigantes canções: "Yesterday", "Let it be", "I want to hold your hand", She loves you", "I saw here standing there", "In my life", "Back in the USSR", The Long and winding road", "Here comes de sun", "Something", "A hard's day night", "Carry that weight hey" "Hey Jude", "Help", "All you need is love", "Ob-la-di, Ob-la-da". Com uma trilha sonora dessas, não há como não se encantar, mais uma vez, pela genialidade do quarteto!

Que alegria que os Beatles existiram! O mundo se tornou muito melhor com eles. O filme serviu pra resgatar músicas que não ouvia faz tempo. Ah! Beatles faz bem pra saúde e pra sonhar um pouco em meio às preocupações do dia a dia... recomendo! Viva o rock and roll! Viva John, Paul, George e Ringo! :)


* A crônica de hoje é minha doce homenagem ao Betão, meu irmão musical, que quando eu era pequenininha tinha uma banda, era meu ídolo da guitarra, baixo, violão e o que mais viesse, além de ser meu MacGyver particular... e que faz aniversário amanhã! Parabéns ❤️

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Tempos ainda difíceis para os sonhadores

No dia 29/08, me chamaram a atenção as postagens que faziam referência ao filme "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" (2001), confesso que nunca havia assistido e alguma coisa me dizia que era o que eu precisava no momento e, finalmente, assisti... 25 anos depois do lançamento! Fazer o quê, às vezes, a correria é tão insana que acabamos por perder histórias que, certamente, nos dariam aconchego!

Ah! Adoro filmes franceses! Adorei tudo! Com direção de Jean-Pierre Jeunet e roteiro dele e de Guillaume Laurent, o longa já me conquistou logo no início, quando o narrador começa a apresentar cada um dos personagens, suas características e manias... Os pais de Amélie são um caso à parte... rsrsrs... ele, médico, não tem o hábito de demonstrar carinho à filha e acaba por diagnosticá-la com uma doença fictícia, o que faz com que a menina não frequente a escola; a mãe é professora, tem tique nervoso, gosta de dar lustro no assoalho com suas pantufas e coube a ela alfabetizar a pequena em casa mesmo. Assim, sempre sozinha, privada da companhia de outras crianças, Amélie inventa um mundo só dela!

Depois que a mãe morre em uma tragédia, a menina passa a viver com o pai. Quando adulta, resolve sair de sua cidade, no norte da França e vai morar em Montmartre, bairro parisiense, trabalhar como garçonete no charmoso Café Des Deux Moulins. Mais uma vez, o narrador nos apresenta a dona, as funcionárias e os clientes do café, além dos moradores do prédio onde mora a protagonista... todos hilários em suas esquisitices. Amélie (interpretada brilhantemente pela atriz Audrey Tautou) segue sonhadora... ah... ela adora quebrar a cobertura do crème brûlée com a pontinha da colher! 

Adoro filmes que misturam fantasia e realidade, que valorizam os pequenos gestos de carinho e atestam que as coisas mais simples do cotidiano são as mais importantes da vida! O cinema sabe ser, ao mesmo tempo, emocionante e divertido, e nos fazer refletir!

As cenas com o anão de jardim do pai são impagáveis... rsrsrs... Pra incentivá-lo a viajar, ela pega o dito cujo escondida e, de repente, o pai começa a receber cartas com fotos do anão de jardim em várias partes do mundo, como um turista dos mais viajados... e o melhor de tudo é a reação nonsense do Senhor Poulain, olhando as fotos e dizendo: "Eu não entendo"... ahahaha...

Quando Amélie vê Nino Quincampoix  (Mathieu Kassovitz) é amor à primeira vista.. ele coleciona fotos rasgadas e rejeitadas por seus donos em cabines fotográficas... pois é, cada um com sua mania... rsrsrs... Mesmo querendo encontrá-lo novamente, ela uso de bizarros estratagemas qua acabam por adiar esse reencontro... mas aí é que está a delicadeza do filme... nos detalhes!

Ah! Não vou contar mais nada, porque o melhor é cada um mergulhar nessa doce viagem à Paris! Além do longa me encantar pelo roteiro pontuado pelas várias formas de amor e pela bela fotografia, preciso registrar que o guarda-chuva vermelho de bolinhas brancas foi o ápice da identificação: tenho um igualzinho... me reconheci ainda mais na história da romântica Amélie Poulain! E reafirmo: são tempos ainda difíceis para sonhadores! Viva a inventividade e a ternura do Cinema Francês! Viva a Sétima Arte! :)

sábado, 5 de setembro de 2026

Livros e HQs à mancheia

– É sempre bom... "um dia frio, um bom lugar pra ler um livro..."

– ... ou uma HQ!

– Claro, esse clima friozinho também combina com histórias em quadrinhos!

– Concordo muito. Inclusive, acabei de ler uma!

– Também conclui meu momento leitura do dia... pelo menos, até segunda ordem.

– Isso se a senhora ficar bem longe da estante... ahahaha...

– Ahahaha... pois é, não é prudente provocar meu lado leitora voraz!

– Uau! Voraz é bonito, hein?

– Ahahaha... não muda de assunto, querido!

– Ahahaha... você é que tá pensando outra coisa... eu tava dizendo que gostei da palavra voraz...

– Tá bom... e essa cara de safado?

– Ahahaha... como assim? Tudo bem... vamos voltar ao tema leitura! O que você tava lendo tão concentrada?

– Ah! Achei que o dia pedia contos... e peguei aquele teu exemplar antigo de "Contos Novos"...

– ... de Mário de Andrade! Gostou?

– Muito... principalmente, o conto "Tempo da camisolinha"... ah... lembranças da infância infância, embora às vezes ácidas, são delicadas... como a dor de ter que cortar os cabelos cacheados e o medo de ter "ficado homem naquele tamanhinho".... rsrsrs...

– Brincava até sujar a barra da tal camisolinha na terra... e muitas vezes faltava "a calcinha de encobrir as coisas feias " e "sentia um esporte de inverno em levantar a camisola na frente pro friozinho entrar"... ahahaha... esses contos são pérolas do autor!

– Concordo muito! Os personagens vivem diversas situações que nos divertem e nos emocionam... além de nos brindarem com as sutilezas das relações humanas. 

– Outro conto que adoro revisitar é "O peru de Natal"! O Juca, o desajustado da família, resolve transformar a primeira noite de Natal, após a perda do pai, em uma momento de felicidade familiar: finalmente, iam comer um peru só eles, sem chamar outros parentes. Adoro esse trecho: "Minha mãe, minha tia, nós, alagados de felicidade... Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento dos outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si". É de uma sensibilidade da melhor espécie...

– Sim... sensibilidade misturada com bom humor e pitadas de ironia! Grande Mário de Andrade! Mas e você, querido... estava lendo qual história em quadrinho?

– "Greatest Hits", uma edição uruguaia assinada por Maco e Roy. A Maco é uma renomada quadrinista, inclusive, parece que ela já tem HQ lançada no Brasil...

– Ah! Conhecer novas HQs é uma ótima desculpa pra dar um pulinho nas livrarias de rua!

– Vou adorar passear com minha leitora preferida por esses oásis de alegria! Agora, voltando à HQ que estava lendo, é uma coletânea das melhores histórias produzidas pelos dois anteriormente tanto no Uruguai como na Argentina, além de uma inédita... uma adaptação de Alice no País das Maravilhas, chamada "Alicia entre viñetas"... gostei do traço e das ideias!  

– Parece bem legal! Ainda não conhecia os autores... vou ter que acionar meu portunhol... rsrsrs...

– Ah! As línguas latinas são irmãs, a gente sempre dá um jeito de entender... principalmente, se o conteúdo nos interessa.

– Sim... livros, HQs, filmes, músicas e artes em geral a gente adora... então, tá lido!

– Assim que eu gosto! Como diz o Caetano: "Livros, discos, vídeos à mancheia. E deixa que digam, que pensem, que falem".

– É isso mesmo! Eu quero é mais!

– Ah! É?

– Olha ele apimentando o diálogo de novo!

– Ahahaha... Você que veio com esse negócio de "eu quero é mais", minha leitora voraz!

– Ahahaha... olha a cara de safado de novo! :)


* Muito bom ganhar um quadrinho vindo direto do Uruguai e um livro de contos de um simpático sebo... obrigada pelos presentes, conversa e presença Gé (Gerson Donato), meu irmão e assessor para assuntos literários, históricos e futebolísticos... rsrsrs... ❤️

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Enredo tocante... arte acolhedora

A graphic novel "Lydie" é a primeira parceria assinada por uma das duplas contemporâneas de que mais gosto no mundo da Nona Arte! O texto de Zidrou aborda, com delicadeza, a dor de Camille Tirion, uma mãe que perde seu bebê durante o parto e para seguir em frente, passa a agir como se a criança, a qual deu o nome de Lydie, continuasse viva. O avô, pai de Camille, Augustin Tirion, apoia a filha, auxiliando-a em todos os momentos, desde o batizado até quando Lydie é matriculada na escola.

A comunidade do beco, então, acolhe a história de Lydie e participa do cotidiano da família como se, realmente, a bebê estivesse viva. A beleza maior do enredo está na generosidade e na compreensão das pessoas que vibram com o desenvolvimento de Lydie, tratando a mãe com carinho... as crianças até fazem amizade com a menina "invisível". 


A conexão de Augustin com a filha é de uma ternura que nos emociona e nos leva a refletir sobre as sutilezas que envolvem as relações humanas. 
Ao retratar uma história sobre superação da perda, aceitação e a habilidade necessária de se colocar no lugar do outro, a arte de Lafebre é cativante. Os personagens expressivos e os cenários impecáveis nos transportam para o beco e, de imediato, somos conquistados pela simpatia dos moradores e da família de Lydie. 

Como já disse, sou muito fã dessa brilhante parceria, a cada trabalho, uma grata surpresa! Aplausos para a genialidade de Zidrou e Lafebre! Viva as histórias em quadrinhos e seus diversos e inspiradores mundos! :)

sábado, 29 de agosto de 2026

Passa a bola, Lola!

Ilustração: Kleverson Mariano

Aos três anos de idade, as perninhas curtas e levemente desajeitadas de Lola já adoravam chutar uma bola. Como assim, menina? Ela não podia ver os irmãos jogando futebol que esquecia as bonecas! Mas assim pequena? Claro que ainda era considerada café-com-leite do time, vai ver por isso gosta tanto da bebida.

– Passa a bola, Lola! Este era o pedido que mais se ouvia quando ela invadia a pelada dos irmãos mais velhos. Ícaro, de 10, e Ítalo, de 8 anos, passavam as férias jogando futebol num pequeno campinho gramado no quintal dos fundos cedido pela mãe para que suas roseiras se livrassem das boladas certeiras.

Como é fato conhecido, até pouco tempo atrás, as mulheres não tinham vez quando o assunto era futebol. Entender do esporte, tudo bem, mas jogar? Driblar? Fazer golaços? Sem chance, fora de cogitação! Por isso, Iolanda, ou melhor, a centroavante Lola, passou parte da infância jogando só com os irmãos.

Aos poucos, o pai, que era meio reticente em apoiar a filha em um mundo tão masculino quanto o do futebol, começou a perceber que ela tinha mais do que jeito pra coisa… e, então, quando a menina completou seis anos, deu de presente um uniforme completo com direito à chuteira profissional e resolveu que era hora de matriculá-la em uma escolinha, afinal, praticar esportes é, antes de tudo, muito saudável.

Lola ficou radiante, sua mãe nunca viu seu sorriso tão iluminado como quando recebeu o uniforme e foi pra escolinha de futebol, nem quando ganhou uma boneca do seu tamanho, seu maior sonho de infância! Ainda assim, a boneca seguiu sendo sua companheira e herdando os uniformes antigos da garotinha.

Durante todos os anos em que esteve na escolinha, o pai fazia questão de levar e buscar a filha, adorava as conversas no carro sobre o treino, as jogadas ensaiadas e seus gols. Até que um dia, o olheiro de um time grande foi assistir um jogo aleatório, sem qualquer aviso.

Na ocasião, Lola foi a única criança convidada a fazer um teste na peneira do tal clube. Emocionado e meio reticente, o pai aceitou, mas disse que precisava conversar com a esposa antes de qualquer coisa. O olheiro deixou seu cartão e marcou o teste para a semana seguinte. Lola não deu uma palavra no caminho da escolinha à casa.

A mãe, mesmo assustada com a possibilidade de sua filha se machucar num jogo de contato por vezes tão violento, apoiou Lola e, então, a família toda acompanhou-a no teste. Os irmãos, embora meio constrangidos por nunca terem sido chamados para peneiras, no fundo não se importaram, afinal, ela era a mais talentosa dos três. Resultado: a pequena foi aceita e passou a integrar o clube nas categorias de base. Festa no gramado dos fundos do quintal, abram alas para a nova centroavante!

Dez anos depois, Lola estreou como profissional na partida final do Campeonato Paulista de Futebol! Na arquibancada, pai, mãe e irmãos se desmancharam de orgulho ao assistirem ao primeiro gol da sua querida café-com-leite. Torcendo a plenos pulmões, Ícaro e Ítalo ostentavam, durante o jogo, um cartaz enorme com a frase que mais gritavam no campinho da família, mas com uma modificação bastante significativa: PASSA A BOLA PRA LOLA! :)


* Escrevi esta doce e futebolística crônica para um concurso, mas não fui escolhida... faz parte... então, resolvi postar em meu querido blog, afinal, minha centroavante merece ser conhecida!

** Assim que vi a ilustração do Kleverson (@kleverson_mariano) no Instagram, reconheci minha Lola... rsrsrs... Por isso, pedi autorização para publicar aqui e ele, gentilmente, autorizou! Mais uma vez, obrigada pela parceria e parabéns por sua arte!