quarta-feira, 27 de maio de 2026

Não abandone seu poeta

A inversão de valores é explorada de forma altamente criativa pelo escritor português Afonso Cruz em "Vamos comprar um poeta". Preciso dizer que quando vi alguém, que não lembro quem, falando desta obra na internet, o que mais me chamou a atenção foi o título, que logo entrou para minha (cada vez maior) lista de leituras imprescindíveis! Aliás, benditas feiras que, por vezes, nos possibilitam comprar os livros que queremos com descontos vantajosos!

Com linguagem leve e certeira, o autor consegue prender a atenção do leitor desde as primeiras páginas. Em uma sociedade dominada pelo materialismo, onde tudo é contabilizado e negociado, a filha adolescente pede aos pais um poeta como se pedisse um animal de estimação. Na loja, o pai se certifica sobre o modelo que escolheram e o vendedor responde que o índice de subversão dele está abaixo dos 2%, mas alerta que é necessário que seja um pouco subversivo para manter a qualidade poética. O vendedor aconselhou ainda que para entretê-lo bastava comprar cadernos com folhas brancas, canetas e alguns livros! Adorei!

Além de provocar reflexões sobre o valor da poesia e da arte, a história, narrada pela adolescente, é permeada pelo humor. As características dos membros da família são um caso à parte: o pai vive tentando administrar os poucos cabelos que tem; o irmão descrito como "exponencialmente parvo", apaixona-se com facilidade e vive em "constante bancarrota emocional"; a mãe, cansada, sempre calçando pantufas gastas, recusa a compra de um artista, porque faz "muita porcaria", inclusive, uma conhecida passava horas limpando a "sujidade que ele fazia com as tintas", por isso acredita que um poeta seria menos trabalhoso. Já a narradora é a mais próxima do poeta e em determinado momento até se pergunta: "estarei a ficar poética?".

Ah! Como não adorar personagens tão bem construídos e uma narrativa inspiradora sobre a importância da cultura para o desenvolvimento humano em um mundo extremamente consumista! Aliás, vale o alerta: não abandone seu poeta numa praça qualquer! Viva a imaginação e o talento de Cruz! Salve a Literatura em língua portuguesa! :)

sábado, 23 de maio de 2026

Aquela vontade de comer um docinho


– Cadê você, amor?

– Tô aqui na sala... relaxando. Por quê?

– Tá tão quietinha.

– Tô olhando a garoa no vidro da janela.

– Que poética!

– E você? Tá fazendo o quê sozinho na cozinha, menino travesso?

– Ahahaha... adorei o travesso! Tava pensando...

– Pensando em quê?

– Sabe aquela vontade de comer um docinho?

– Sei...

– Nossa, que insensível!

– Por que insensível?

– Tô aqui externando minha vontade de saborear uma guloseima e você me vem com esse azedume!

– Desculpe, querido! Achei que era só um comentário daqueles de elevador, do tipo: esse calor tá de amargar!

– Ahahaha... tive que rir... faz tempo que não ouço "calor de amargar". No entanto, quero registrar que meu comentário foi muito mais profundo que uma conversa de elevador, querida!

– Tá bom, então, vamos dissertar sobre essa sua vontade...

– Não exagera! Tava só comentando e queria compartilhar.

– Já entendi, amor! Vamos começar de novo... pergunte!

– Sabe aquela vontade de comer um docinho?

– Te conheço, quando fala assim é porque já tem uma ideia formada. Qual docinho?

– Ah! Pensei num...

– Por favor, não vai me dizer que quer que eu faça crème brûlée ou, sei lá, alfajor... justo hoje que tiramos o dia pra descansar?

– Claro que não! Não sou requintado como você, pensei em algo bem mais simples.

– Devia gostar de ter ao seu lado alguém que está sempre pronta a aprender receitas variadas. Tá me chamando de fresca?

– Calma, amor! O fato é que você tem o paladar refinado...

– Para com isso! Não tenho culpa de gostar de doces de todos os tipos e nacionalidades.

– Tô falando... já lançou um "nacionalidades" e não quer que eu chame de requintada... ahahaha...

– Só disse que gosto de vários tipos de doces... do fino e delicado marzipan ao simpático e tradicional gibi, o doce de amendoim mais gostoso do Universo!

– Opa, não tá mais aqui quem falou! Eu ia dizer que tava querendo algo acessível como um pé de moleque.

– Ah! Pé de moleque? Que coisa mais sem glamour... ahahaha...

– Nesse momento, um pé de moleque já me satisfaria... e muito!

– Não precisa ficar chateado, tava te provocando.

– Bastava abrir o pote...

– Você venceu! Chega de admirar a garoa, mas que fique claro: não vou querer só o pé, quero inteiro! Vem cá, meu moleque! :)


* A foto que ilustra essa adocicada crônica é de minha autoria, assim como o marzipan em formato de coraçãozinho. Já o gibi, comprei no mercado, fotografei e depois saboreei, claro... rsrsrs...

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sonhos, desejos e desafios

Em "As Meninas", Lygia Fagundes Telles nos apresenta três universitárias, Lorena, Lia e Ana Clara que, durante o sombrio período da ditadura militar, convivem em um pensionato de freiras, sonham, cada uma a sua maneira, e enfrentam o início da vida adulta.

Com uma linguagem fluida, lançando mão do encantador e desafiador fluxo de consciência, Lygia nos brinda com uma narrativa que alterna as vozes e pensamentos das três protagonistas, tornando a leitura ágil e extremamente cativante.

A autora domina a arte de criar personagens profundamente humanas, dosando os momentos de aflição e desespero com tiradas de humor dignas dos mais fervorosos aplausos. Confesso que quando concluí a leitura, fiquei meio sem ação... queria saber mais do futuro das protagonistas, por outro lado, adoro quando o autor encerra a conversa e deixa que o leitor imagine e tire suas próprias conclusões. Aliás, essa é uma das funções da Literatura, nos fazer refletir!

Gosto de como cada uma delas nos desperta um sentimento diferente: Ana Clara é daquelas amigas inconsequentes que é preciso dar colo e, ao mesmo tempo, encher de broncas; Lia e sua combatividade nos convida a lutar contra os desmandos de uma época de repressão; e Lorena, a mais sonhadora e sensível que, mesmo sendo descendente de uma família paulista quatrocentona, está sempre pronta para ajudar as amigas, sua visão mais leve e bem-humorada da vida faz a diferença.

Adoro as observações de Lorena em vários momentos, como quando fica indignada com a frase inicial do livro de Lia que diz: "Em dezembro, a cidade cheira a pêssego"... Ah, adorei! Um pouco de poesia não faz mal, Lorena, deixa a menina escrever o que quiser... rsrsrs; ou quando ela empresta um delicado lenço para Lia e fica imaginando que a amiga será capaz de limpar os sapatos com ele... e aconselha: "Mas não se importe não, seja lenço. Solto-o no espaço. Abriu-se leve como um paraquedas que Lião apanha impaciente". A genialidade da autora retratando, nos mínimos detalhes, toda e qualquer situação nos prende tanto a atenção que ficamos envolvidos pela trama, aguardando onde isso tudo vai dar! Viva o talento e a sensibilidade de Lygia Fagundes Telles! Salve a Literatura Brasileira! :)

sábado, 16 de maio de 2026

Patrimônio cultural ameaçado

Esta semana, lamentavelmente, o Anexo do Espaço Petrobrás de Cinema e o Café Fellini foram fechados por ordem judicial. A direção do cinema afirmou, em comunicado oficial, que está tomando medidas legais cabíveis para reverter a situação.

O valor histórico e cultural do imóvel, um casarão da década de 1930, é inegável, além disso, o local integra área enquadrada como Zona Especial de Preservação Cultural - Área de Proteção Cultural (ZEPEC-APC). Ou seja, é um patrimônio cultural e afetivo da cidade e, portanto, deve ser preservado. 

É inaceitável que tradicionais endereços tenham que dar lugar a empreendimentos residenciais, como se a cidade já não tivesse sendo desfigurada por torres e mais torres de apartamentos que a cada dia apagam sua memória, pobre metrópole!

Quem me conhece sabe que adoro cinemas de rua e cafés! Tenho inúmeras lembranças do Espaço de Cinema da Rua Augusta, frequento desde sempre... Em meados dos anos 1990, lembro de uma sessão lotada do filme "O Balconista" (direção de Kevin Smith), uma comédia hilariante, cinema independente em P&B, uma doideira tão empolgante que quando começaram a subir os créditos aplaudimos de pé! Longas inesquecíveis, como "Cortina de Fumaça" (direção de Paul Auster e Wayne Wang), filme que já abordei aqui no blog em 2024, incrível e muito inspirador.

Fotos: Divulgação/@cinecafefellini

Já no Anexo, adorava assistir cinema europeu... ah... as produções italianas e francesas! Em 2018, assisti a comédia francesa "Assim é a vida" (direção de Eric Toledano e Olivier Nakache), sobre uma turbulenta festa de casamento realizada em um palácio do século XVII, roteiro brilhante e humor digno de aplausos. Lembro que ri até com a senhora que estava ao meu lado, isso é que é filme bom... a gente compartilha as risadas com desconhecidos sem qualquer pudor... rsrsrs... Mas isso também se dá porque o ambiente é agradável e o público se entende. Cinema de qualidade! No Café Fellini que sempre me cativou pelo nome, gostava de escolher uma mesa num cantinho do salão e outras vezes ao ar livre... natureza é sempre um bálsamo... pra saborear um cappuccino e uma adorável fatia de torta doce.

Ah! Ir ao cinema, pra mim, sempre foi aconchego... ir ao Espaço da Augusta e passar no Café antes da sessão é passeio completo, alimenta o corpo e a alma! Os dias em que vou ao cinema são sempre inspiradores e rendem boas recordações. Por isso, resolvi escrever sobre esse tradicional e querido cinema de rua... cada vez que eu atravessava aquela porta no número 1470 da Augusta, saía mais inspirada, querendo realizar sonhos! Torço para que o Anexo (salas e café) reabra para que eu possa conhecer novas histórias e para que a cidade mantenha seus centros culturais! Cinema de rua e cafés são amor! Viva o patrimônio cultural de São Paulo! :)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Romance social

Em seu primeiro romance, publicado em 1846, Fiódor Dostoiévski já mostrava sua maneira profundamente humana de retratar a dura realidade.

"Gente pobre" é de uma tristeza e, ao mesmo tempo, de uma beleza tão sutil proporcionada pelas pequenas alegrias cotidianas, que cativam o leitor, tornando-o íntimo dos personagens. 

O autor nos brinda com a chamada narrativa epistolar, partindo da troca de cartas entre o funcionário público Makar Diévuchkin e sua vizinha Varvara Alieksiêievna, uma jovem órfã.

Na correspondência, os dois contam os desafios da vida difícil que enfrentam, mas Makar consegue ter uma visão que beira ao otimismo, um olhar doce que torna a pobreza menos amarga. Alguns trechos são encantadores, como quando ele descreve seu quarto e fala da satisfação de ter o seu "cantinho" ou quando envia junto à carta presentes para Varvara com carinho paternal. 

Dostoiévski sabe como poucos nos apresentar o universo que cada um traz consigo, seus afetos e valores, de forma global e atemporal, tanto que esses dois personagens com suas dores e alegrias poderiam viver em qualquer país em desenvolvimento, como o nosso ainda sofrido e desigual Brasil.

Durante a leitura, lembrei da canção "Gente humilde" (melodia de Aníbal Augusto Sardinha, conhecido como Garoto, com letra de Vinícius de Moraes e uma pitada de Chico Buarque) que fala de quem "vai em frente, sem nem ter com quem contar". Aplausos à Música Popular Brasileira! Viva a sensibilidade de Dostoiévski! :)

sábado, 9 de maio de 2026

Angústias futebolísticas

– "Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol"...

– Por que esta angústia toda?

– Ah! Só tô cantando, amor.

– Te conheço, que cara é essa?

– Tava lembrando daquela cachorrinha que a gente viu sozinha, olhando pros donos lá longe e, então, essa canção linda do Belchior me veio à cabeça.

– Ficou tristinha?

– Não com a cachorrinha, até porque os donos estavam só fazendo uma foto poética. Ela ali paradinha, com aquela carinha séria... devia estar pensando: venham logo, humanos, me peguem no colo e me levem pra casa, cansei de ser modelo fotográfico! 

– Ahahaha... só você, amor, pra imaginar o que a cadelinha tava pensando, mas o que te despertou a imagem dela sozinha?

– Sei lá, um sentimento de desamparo, tal qual um goleiro que toma um frango...

– Ahahaha... quando nosso time segue firme lá na parte debaixo da tabela, qualquer coisa nos remete a esse momento de tensão.

– Pois é... eu devia ter olhado a cadelinha e achado bonitinha, perguntado o nome dela, mas só me veio essa sensação e aí lembrei do raio do meu time... é de lascar!

– Não se preocupe que estamos no mesmo barco...

– Furado!

– Ah! Logo meu clube sobe na tabela e você vai ter a alegria de me ver feliz, já o seu... tá difícil! 

– E o que te faz pensar que vou ficar alegre com vitórias de seu clube?

– Não ponha palavras na minha boca... eu disse que você ficará alegre por mim e não... ah... você entendeu!

– Ahahaha... ficou nervoso? Você que começou querendo falar mal do meu time, isso não se faz!

– Tá bom, então, vamos parar com essa discussão sem sentido... que cachorrinha mais irritante!

– Não seja troglodita, ela é lindinha e não tem culpa de ter desencadeado em mim um pensamento musical futebolístico! 

– Ahahaha... eu tava brincando, boba! Adoro cachorro!

– Melhor assim!

– Agora, chega dessa cara de zona de rebaixamento!

– Ahahaha... que raiva... tive que rir!

– Ah... vem cá, minha torcedora angustiada! :)


* A doce cadelinha da foto é a Lady, que nem sabe que eu tenho essa foto dela... rsrsrs...

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Saudade de rebobinar uma fita

– E aí, amor? Escolheu o filme que vamos assistir hoje à noite?

– Sem pressão, querido!

– Nossa! Só perguntei porque já faz duas horas que você tá com o tablet no colo com uma cara de desamparo... ahahaha... 

– Isso, alopra mesmo! Eu sei lá, fico olhando esse monte de opção, misericórdia! É pior que escolher sabor de pizza... ahahaha... 

– Ahahaha... palhacinha! Só aviso que, desta vez, não vou escolher o filme! Sem chance, nas últimas semanas sobrou pra mim, agora é com você, minha indecisa amada!

– Você se salvou pela "amada", porque eu já ia te responder à altura.

– Pois, então, me responda com delicadeza!

– Responder o quê, meu curioso amado?

– Quer dizer que você ainda não escolheu o filme? Mas nem opções pra apresentar?

– Ah! Desculpe, mas filme pra mim tem que ser muito especial, não quero assistir qualquer coisa!

– Tudo bem, também gosto de filme de qualidade, mas como a gente paga essa bagaça de streaming temos de encontrar alguma coisa que seja passável pra, pelo menos, a gente se divertir!

– Sinceramente, você sabe o que me divertia? Ir à locadora de vídeo e ficar olhando as fitas de VHS nas prateleiras; receber indicação dos melhores filmes, inclusive, de clássicos antigos; ir correndo pra garantir o filme do momento pra evitar ter que ficar na fila de espera; sair com uma sacola cheia de alegria pra passar o fim de semana assistindo no sofá de casa, torcendo pro videocassete não mastigar nenhuma fita... 

– ... e, lógico, torcendo pra não esquecer de rebobinar todas pra não levar multa na hora de devolver... ahahaha... belas lembranças!

– Ah! Ir à locadora era um evento! A gente saía de casa animada, descobria filmes ótimos só de ouvir as conversas nos corredores! Adorava admirar aquelas prateleiras cheias de histórias, interpretadas por atores e atrizes de quem a gente era fã.. Pegar a caixinha que a gente queria tanto era a glória!

– Tá nostálgica, amor?

– Fiquei assim depois de permanecer, como você disse, duas horas olhando pra fria tela do streaming, lotada de filmes enfileirados... como é que se acha uma coisa legal pra assistir? 

– Impossível que não tenha nenhum que te chamou a atenção!

– Claro que tem... encontrei alguns que adoro e já vi no cinema. Queria encontrar algo novo, mas tenho até medo tamanha a quantidade de coisas estranhas que tenho visto... 

– Ahahaha... Adoro esse discurso de quem tá perdida...  

– Engraçadinho! Então, escolhe você...

– Ah... eu disse que não ia escolher, mas dá esse tablet aqui!

– Não seja ríspido!

– Ahahaha... Já que tá difícil arriscar algo novo, vamos escolher um que vale muito a pena rever: "Peggy Sue - Seu Passado a Espera"!

– Ah! Que amor! 

– Sabia que você ia gostar! 

– Vem, vamos assistir!

– Nem pensar. Agora, vamos pra cozinha ... a sessão de cinema é só depois do jantar!

– Que homem sensível, prendado, charmoso...

– Não comece... vamos cozinhar! 

– Sim, senhor!

– Gosto assim, obediente, educada, delicada...

– Não seja ridículo!

– E doce... que nem jiló... ahahaha...

– Olha quem fala... limãozinho azedo.

– Também te amo! :)

sábado, 2 de maio de 2026

Foto-cartum

Esta semana, fui me encantar com a exposição "Cartunistas", no Centro Cultural Fiesp. É sempre um prazer caminhar pela querida Avenida Paulista e respirar cultura!

Idealizada pelo fotógrafo Paulo Vitale, com curadoria de Eder Chiodeto, a mostra é um belo e inspirado encontro entre a fotografia e o cartum! 

São 144 cartunistas renomados performando diante da câmera fotográfica de Vitale, que em um clique nos brinda com sutilezas da personalidade e da arte dos fotografados. Adorei esse instigante mergulho no mundo dos cartuns e hqs, que tanto me inspiram! 

Confesso que passei duas vezes admirando cada uma das fotografias para conferir melhor os detalhes e os artistas, como o saudoso Ziraldo com seu autorretrato, e Maurício de Sousa, desenhando o querido Horácio, seu alter ego. 

Cartunistas que desde sempre seguem nos ajudando a entender a porra toda por meio de sua obra crítica, perspicaz e divertida, como Angeli em dose tripla e a poderosa Laerte. 


O cartunista e quadrinista Orlandeli, com um pequeno Daruma na cabeça, é outro nome admirável, suas fascinantes HQs nos apresentam arte, narrativa e personagens sensíveis que, invariavelmente, nos provocam reflexões sobre as coisas da vida.

Ah! Nada como a Cultura em suas mais variadas expressões para nos ajudar a enfrentar as mazelas do mundo. Cartuns são libertários, satirizam e questionam o cotidiano, a política, a sociedade e, por isso, merecem respeito e reconhecimento. Viva o cartunista brasileiro! :)

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Rabiscos pueris


– Ah! Que beleza!

– O que é uma beleza, amor? Você tá nessa janela há um tempão.

– Primeiro, fiquei aqui só disfarçando até que você colocasse a mesa pro almoço...

– Ah! Sacanagem... 
 
– Não seja engraçadinho... ontem fiz tudo, hoje é seu dia!

– Calma, querida! Como combinamos há séculos, hoje eu faço a comida e ponho a mesa, mas lembre-se que a louça é sua!

– Sei bem minhas responsabilidades... hoje é dia de louça retinindo!

– Você está insinuando que não lavo bem a louça?

– Insinuando não, amor, tô afirmando que lavo com mais afinco, por isso, o resultado é melhor... rsrsrs...

– Tá saliente, hein? Deixa de ser metida e, por favor, me conta logo o que te encantou tanto lá fora.

– Ué... não era você que tava faminto?

– Ainda tô, mas como diz a canção: "a gente não quer só comida".

– Uau... como tá inspirado, amor!

– Você me inspira, querida! Mostra logo essas fotos!

– Ahahaha... elegância passou longe.

– Ahahaha... desculpe... a fome, às vezes, me tira do prumo.

– Só tava querendo fazer uma foto aleatória, fiquei admirando o céu e eis que, de repente, vi uma nuvem igual àquelas que a gente desenha quando criança... quase chorei.

– Que meiga! Na infância, eu adorava desenhar o sol, as nuvens e os pássaros... minhas obras de arte sempre envolviam o firmamento!

– Ahahaha... obras de arte... firmamento, que poético, amor!

– E por que tá rindo? 

– Ah! achei divertido.

– Não precisa humilhar...

– Não exagera, bobinho! Voltando às nuvens... fiquei tão impactada que resolvi fazer umas fotos. Depois, quem sabe, pegamos papel, lápis de cor e...

– ... passamos a tarde mais nostálgica dos últimos tempos? Quero! Vamos fazer rabiscos pueris!

– Ahahaha... vou adorar. 

– Chega de crueldade e mostra logo essas fotos.

– Não prefere almoçar antes, amor?

– Nem pense em não me mostrar agora!

– Ô rapaz apressado... tá bom. Olha essa... fala a verdade! 

– Ah! É igualzinha às que eu desenhava.

– As minhas, provavelmente, eram mais lindas.

– Audácia! Quero ver quando a gente começar a rabiscar.

– Só que antes você tem que almoçar direitinho, comer verdura e legumes, como um menino obediente... ahahaha... e aí terá direito à sobremesa e à recreação!

– Ahahaha... pode deixar, vou fazer um prato de pedreiro e até dispenso a sobremesa pra ir desenhar mais rápido...

– Não existe a possibilidade de dispensar a sobremesa, sem pudim, nada de nuvens infantis!

– Ahahaha... então, vem almoçar, minha doce formiguinha! :)


* A foto que inspirou essa pueril crônica foi feita assim que vi essa nuvem... ela, realmente, me lembrou das que desenhava na infância.

sábado, 25 de abril de 2026

Desvios de rota

Animado para aproveitar a tarde ensolarada, Angelo confere os pneus da bicicleta. De férias no trabalho e na faculdade, ele está radiante, pois, finalmente, terá dias de calma e diversão. Com um enorme sorriso no rosto, sobe na magrela, mas logo na primeira esquina, precisa estrear os freios, quando uma pata e seis patinhos, em fila indiana, aparecem do nada atravessando a rua. Ainda bem que Angelo estava de bicicleta e conseguiu desviar da família de penas, caso dirigisse um ônibus ou até um Fusquinha, poderia ter acontecido uma tragédia. Foi tudo tão rápido que só deu tempo de desviar de uma caminhonete que vinha no sentido contrário e se estatelar no gramado da praça, tirando uma fina das aves. 

Respirando fundo, Angelo se levanta e ao som de seus gemidos e de quá-quás furiosos, ele tenta se aproximar da pata, mas quase leva uma bicada. Sem graça, ele empurra a bicicleta avariada de volta ao conserto. Na oficina mecânica, ele tem uma notícia nada animadora, o aro dianteiro da bicicleta está amassado e precisa ser trocado, fazer o quê... ele autoriza o serviço. Fazendo caretas cada vez que sente dor nas canelas raladas, ele passa em frente à quintanda da Dona Amora e Seu Arlindo, pensando em ir o mais rápido possível pra casa... chega de desvios de rota.

– Cadê sua bicicleta?

– É uma longa história, Dona Amora.

– A magrela ficou avariada?

– Ah! Amassou o aro dianteiro, mas ainda bem que não cheguei a atropelar ninguém…

– E essa ralada na perna?

– Não é nada, vou pra casa tomar um banho e logo me recupero!

– Mas não vai mesmo. Entra aqui, vou pedir para o Arlindo segurar um pouco o atendimento.

Cuido de você, faço um curativo rapidinho e ainda te ofereço um copo dos grandes de suco de pitaia.

– É mesmo, a senhora me prometeu este suco há semanas!

– Eu sei que estou em dívida com você, mas não precisa cobrar assim na cara dura.

– Ahahaha… desculpe!

– Bobo, venha, enquanto cuido desse ferimento, quero saber direitinho o que aconteceu.

Dona Amora grita para o marido, que está no caixa em um momento de diversão, jogando paciência. 

– O que foi, Amora? Que gritaria é essa? Angelo! Tudo bem? O que foi isso na sua canela? Se envolveu em algum acidente? Bateu a cabeça? Posso levá-lo ao médico se for algo urgente.

– Calma, seu Arlindo! Muito obrigado pela preocupação, mas estou bem, nada grave.

– Eu te chamei pra você cuidar do atendimento, enquanto faço um curativo na perna desse menino.

– E o suco de pitaia… rsrsrs…

– Ah! Também vou querer suco de pitaia, querida!

– Claro, amor! Vou fazer suco suficiente para todos nós.

– Por isso é minha Amora… doce demais… o grito é aquele azedinho que equilibra o sabor.

– Ahahaha… temos aqui um galanteador!

– Ah! Angelo, nisso você tem razão, meu marido é elegante e carinhoso até pra me criticar… por isso, amo!

Dona Amora dá um selinho em Seu Arlindo e puxa Angelo pelo braço quitanda adentro, abrindo a porta que dá acesso à casa propriamente dita.

– Sente-se! Vou pegar a caixa de primeiros socorros e não adianta fazer essa cara de que não é nada. Um ferimento é sempre perigoso, é a porta de entrada para doenças, já dizia minha mãe. Tem que cuidar!

Ele fica ali olhando os detalhes da cozinha até que avista um bolo descansando na pia, coberto com um pano de prato bordado... pelo cheiro deve ser de cenoura com calda de chocolate.

– Viu minhas cortininhas novas? O Arlindo que instalou ontem… são tão lindas! Você não acha?

– Muito lindas, gostei! Eu não me canso de dizer que essa sua cozinha é muito aconchegante, sempre que venho aqui me sinto abraçado.

– Que coisa linda de se dizer, Angelo! Obrigada! Fico feliz em proporcionar sensações tão boas pra você, querido.

– E esse bolo…

– É ele mesmo, o bolo de cenoura que você adora.

– E eu vou poder…

– …comer um pedaço enorme? Claro que vai! Quando assei, pensei em você. Nada mais agradável do que uma pessoa ficar empolgada com algo que a gente prepara! Mas primeiro vou fazer seu curativo. Deixa ver essa ralada violenta. E essa meia, vai ter que colocar de molho, hein?

– Ah! Pode deixar, quando chegar em casa, faço isso.

Dona Amora começa a passar a gaze embebida em antisséptico, Angelo se contorce de dor.

– Pra quem disse que não era nada, tá sofrendo bem, hein, querido!

– Ai… tá ardendo.

– Pois é, por isso quis cuidar de você. Raladas devem ser tratadas.

– Vou precisar… ai… de um belo pedaço de bolo.

– E o suco de pitaia?

– Sim, mas esse bolo com um cafezinho ia ser o máximo!

– Está bem, depois de fazer o curativo, vou preparar um belo café da tarde pra nós três.

– Não quero atrapalhar.

– Que bobagem, nós adoramos tomar café da tarde e quando temos pessoas queridas por companhia tudo fica mais gostoso.

Curativo feito, caixa de primeiros socorros guardada, Dona Amora coloca a água para ferver, porque, pra ela, café tem que ser coado. Angelo continua sentado, mas com cara de quem está envergonhado por não ajudar.

– Fique aí mesmo. Daqui a pouco o curativo faz efeito e você vai poder me ajudar a lavar a louça.

– Ai… acho que ainda vai doer além do café da tarde.

– Ahahaha… sei. Vou pegar o queijo e a manteiga na geladeira, enquanto isso, coloque esses guardanapos ao lado de cada xícara.

– Pode deixar.

Depois de tudo pronto, Dona Amora chama o marido. Seu Arlindo baixa a porta da quitanda com o simpático recadinho para os clientes: Pausa para o café, voltaremos em breve! :)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

São tantas emoções...

Esta é a história de um casal que vive em uma casinha de vila, daquelas que tem terraço com 
floreiras, mesinha pro café e cadeiras de balanço, lugar ideal pra dar um tempo, pra relaxar e conversar, coisa, aliás, que Dona Lavínia do Seu Nuno e Seu Nuno da Dona Lavínia adoram fazer desde sempre.

Ele é engenheiro aposentado, gosta de cozinhar arroz, feijão e misturas variadas pra dar mais energia e alegrar os dias. Muito ativo, Nuno adora fazer caminhada logo cedo pra acordar e no final da tarde pra dormir melhor. E funciona, pois ele continua cheio de disposição.

Bióloga aposentada, ela gosta de passar o tempo inventado sobremesas inusitadas, resolvendo palavras cruzadas e fazendo toalhinhas de crochê e blusinhas de tricô que doa para o orfanato do bairro. Lavínia gosta de se sentir útil, mas sem deixar de curtir seu lar e seu querido.

O casal vive muito bem na sua casinha amarela, em um dos cantinhos mais remotos da pequena vila. E mesmo a saudade que sentem por conta das raras visitas que recebem dos filhos, que aos poucos deixaram de aparecer até mesmo em datas comemorativas ou para um simples abraço nos pais, eles se divertem e, acima de tudo, adoram seu refúgio.

Embora a tristeza, às vezes, tente tomar conta do ambiente, sempre lembram que essa história começou com os dois e que eles continuam ali, dividindo as lágrimas e os sorrisos, com o mesmo brilho nos olhos que conquistou um ao outro. E como consideram feriados prolongados importantes para temperar a vida, decidiram que, este ano, nada vai tirar o encanto de saírem um pouco da rotina.

– Nem a falta dos meninos? Tem certeza que você não vai ficar tristinho?

– Claro que não, querida! Imagina, tenho a melhor companhia do mundo há décadas!

– E põe décadas nisso… ahahaha...

– Pois nem senti esse tempo todo passar.

– Ah! Isso porque você não pariu três vezes...

– Que bom que está animada, tá tirando sarro de mim a cada segundo!

– Aprendi com você!

Os dois se abraçam, sentados diante da televisão e, como sempre costumam fazer, ficam, por longos minutos, só ouvindo a respiração um do outro, até que a panela de pressão começa a fazer um barulho assustador.

– O que é isso, No?

– Calma, Lav! Vou ver, mas deve ser só o pino da panela de pressão querendo entupir…

– E você fala isso com essa calma?

– Claro, pressão é com a panela…

– Engraçadinho, cuidado! Não me diga que você tá cozinhando grão bico de novo nessa bendita panela! Quer explodir a casa?

– Não seja exagerada. Você não vem comigo?

– Eu não!

– E aquele negócio de “na alegria e na tristeza”?

– Ahahaha… o contrato não dizia nada sobre acompanhá-lo nas sandices!

– Ahahaha… como você é cruel!

Nuno faz uma careta e vai chinelando pra cozinha. Depois de alguns minutos, Lavínia ouve um grito lancinante, típico de filme de terror, e levanta assustada, mas não consegue se mexer. O silêncio que se segue é estarrecedor. 

Com muito esforço, ela tenta vencer o nervosismo e começa a andar lentamente, já com lágrimas nos olhos. Quando chega à cozinha, ela se supreende com uma cena inusitada: Nuno está com a panela aberta olhando maravilhado e a cozinha, limpinha, sem nenhum sinal de acidente.

– Por que você tá com essa cara?

– Lembra daquela receita de puchero que sempre entupia o pino e eu tinha que continuar na panela convencional por várias horas? Pois é… consegui!

– E por que o grito de terror?

– Pra dar mais emoção e te trazer pra cá… ahahaha…

– Não acredito! Você sempre arruma um jeito de me atrair, hein?

– São anos de experiência e, pelo jeito, de total êxito!

– Bobo… mas o cheiro tá maravilhoso!

– Como tudo que faço, Lav!

– Como diria Herbert Vianna, “se eu não te amasse tanto assim…”

– Talvez me enchesse de porrada, né? Ahahaha…

– Ahahaha… mais ou menos por aí, meu poeta! :)

sábado, 18 de abril de 2026

Um dia na fila do pão

Preciso parar de pensar tanto e agir mais rápido, mas confesso que tá difícil, não tenho ninguém pra me abraçar e me dar força, disse a senhora na fila da padaria. O rapaz, imediatamente atrás dela, fica incomodado com sua reflexão em voz alta, mas ela nem percebe, porque sua vez está chegando e precisa se concentrar no pedido. Embora conheça-a há bastante tempo, o atendente espera que ela faça o pedido. Não por maldade, muito pelo contrário, mas para que a senhora se mantenha alerta, com o cérebro funcionando a todo vapor. Voltando ao rapaz, ele não sabe como, mas sua vontade é dar um abraço naquela senhorinha. 

Ela se aproxima do balcão, o atendente abre um sorriso e faz a pergunta que desencadeia um certo nervosismo na tradicional freguesa. Ela dá um suspiro, como se para chamar a concentração, e faz o pedido: quatro pãezinhos, 200 gramas de queijo prato, daquele bem amarelinho, 200 gramas de mortadela, o médico já pediu pra ir se despedindo aos poucos do acepipe, mas ela ainda resiste à ideia. E um sonho, dos grandes, sim, esse ela ainda tem autorização para saborear. Não pede todos os dias, mas todas as quintas-feiras é de lei. O atendente escolhe o mais recheado e se diverte com os olhos brilhantes da senhora, mas alerta que é preciso seguir o que o médico recomenda. Ela faz uma careta e lembra que não tem problemas com açúcar, ao que o atendente responde, com voz suave: todos temos problemas com o açúcar. Com cara enfastiada, a senhora responde com classe: só como esse sonho, porque, além de muito bem feito, dizem que é mais saudável por estar sempre fresquinho. O atendente dá uma gargalhada e fala da satisfação de vê-la tão disposta. Ela dá uma piscadinha e se dirige, calmamente, ao caixa.

Enquanto isso, no balcão, o rapaz pede ao atendente 10 pãezinhos, um litro de leite, 500 gramas de mortadela e três pães doces, daqueles com creme em cima. Quando chega ao caixa, irritado pela demora do atendente em fatiar a mortadela, desanima, pois a senhora já pagou e deve estar longe. Ele sai apressado e vê, do outro lado da rua, a velhinha carregando as sacolas com certa dificuldade, parecendo procurar alguma coisa na bolsa. 

Mesmo precisando levar as compras para o escritório, onde terá um café coletivo, coisa que ele não gosta muito, mas que é preciso enfrentar quando se tem boletos a pagar, sua curiosidade em relação à senhora é grande, por isso, resolve atravessar a rua. Quando se aproxima, antes mesmo de se apresentar, ele precisa faz um malabarismo para salvar uma das sacolinhas, evitando que o sonho se espatife na calçada. A senhora se assusta com a agilidade do rapaz, mas, como não o conhece, fica com medo e se afasta como se estivesse em perigo. 

Envergonhado por não ter tido o mínimo de educação ao se aproximar, ainda que com a missão não menos importante de salvar o sonho rechonchudo, ele pede desculpas e se apresenta. A senhora dá um suspiro para se acalmar e estende a mão ao rapaz, que aperta com força, enquanto dá um sorriso encantador. Pelo menos, foi o que ela pensou ao avaliar o rosto jovem à sua frente. 

Por alguns segundos os dois ficam em silêncio, mas logo ela, que parece preocupada, pede que ele segure as outras sacolas para tentar encontrar seu chaveiro, que deve ter se escondido em algum cantinho da bolsa. O rapaz então passa suas sacolas para a mão esquerda e segura as da senhora com a direita. Que bom que ele é organizado, preciso achar logo as chaves, pensa a senhora. Passados alguns instantes, ele resolve ajudar de maneira mais enfática e pergunta: posso procurar? Indignada, ela responde prontamente: de jeito nenhum, não vou deixar ninguém mexer na minha bolsa. Desculpe, não quis ser inconveniente, mas posso ajudá-la, estou vendo que está aflita, disse o rapaz. Estou aflita com sua presença, nem te conheço, menino, e você está com minhas compras e agora quer minha bolsa, vociferou ela. Mil desculpas, é que vi a senhora na fila da padaria. Mais indignada ainda, a senhora responde, arrancando as compras da mão do rapaz: onde já se viu, vai procurar alguém da sua idade pra aloprar. Só queria ajudá-la, ele diz timidamente.

Sem jeito, o rapaz vira as costas e começa a caminhar, pensando alto: ela parece tanto com minha avó, eu só queria um abraço, que ela também disse que precisava. Emocionada, a senhora chama o rapaz de volta, os dois soltam as sacolas e se abraçam, como se, de fato, fossem avó e neto. De repente, o momento de carinho é interrompido por um cachorro, vindo sabe-se lá de onde, que mete o focinho nas sacolas espalhadas na calçada, abocanhando o apetitoso sonho. Impactados com a cena trágica, os dois gritam ao mesmo tempo: mas de quem é esse bendito cachorro, pombas!? :)


* A ilustração é da minha querida @alikailustra ❤️ (sobrinha/afilhada/parceira/ilustradora/designer)

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Vai saber...

Ilustração: Eduardo Arruda
– Às vezes, tudo parece tão parado... ou a gente que tá muito reflexivo, o fato é que "tem dias que sei lá"...

– "Pode crer", concordo muito! Tem dia que a única coisa a se fazer é não fazer nada...

– E digo mais, é melhor nem tentar entender!

– O ideal, nesses casos, é esperar pelas próximas 24 horas... 

– Exatamente... pra ver no que vai dar!

– Enquanto isso, é ficar no seu canto... e não dar muita trela pras mazelas do mundo.

– Tomar um café forte, ler um livro, comer um bom prato de pinhão!

– Café, livro... tudo bem, mas um prato de pinhão?

– Ah! Falei porque gosto de pinhão, mas fique à vontade pra escolher outra iguaria!

– Assim é melhor... prefiro um mix de frutas secas!

– Satisfeitos os paladares, voltando à estranheza desse dia... penso que cochilar por algumas horas possa aliviar essa sensação...

– Sim, aquele cochilo que avança pela tarde inteira é uma boa ideia.

– Depois dessa nossa rápida e elucidativa conversa, minha conclusão é que, realmente, tem dias que sei lá...

– Pode crer! :)


* A tirinha que inspirou esta crônica é do quadrinista e ilustrador Eduardo Arruda (@eduardobarruda), que, mais uma vez, gentilmente, autorizou que eu publicasse sua arte aqui em meu querido blog! Obrigada e parabéns pelo trabalho! 😉 

sábado, 11 de abril de 2026

As charmosas magrelas

Outro dia tava distraída e, de repente, descobri uma exposição sobre a história das bicicletas... ah... tão lindas! Sempre gostei de bicicleta e, de uns tempos pra cá, gosto cada vez mais... e não faço ideia do porquê, afinal, nem sei andar... rsrsrs... mas o fato é que elas me encantam! 

Quando vi pela primeira vez o filme "Butch Cassidy", fiquei fascinada pela inesquecível, poética e divertida cena de Paul Newman (Butch) e Katherine Ross (Etta) passeando de bicicleta, ao som de "Raindrops Keep Fallin' on My Head", na voz de B. J. Thomas! Pra mim, é uma das melhores cenas que o cinema produziu... Adoro!


Ah! É triste não saber andar de magrela, mas minha mãe e meu pai sabiam! Lembro de uma história de minha saudosa mãe, que quando era novinha, foi andar de bicicleta, de vestido, toda faceira e elegante, caiu e se ralou toda... coisa de moça destemida... até levou uma bronca da minha avó, por conta da cicatriz na canela, que eu pude comprovar... rsrsrs... Do meu saudoso pai, tenho uma foto dele indo trabalhar... mó charme em duas rodas!


Talvez a bicicleta me dê a sensação de aconchego e, ao mesmo tempo, de liberdade! Sempre imaginava como seria agradável sentir o vento no rosto deslizando por aí! Pra compensar, nas histórias que crio, vez ou outra, tem um personagem que ama andar de bicicleta... rsrsrs... por isso, enquanto escrevo, aproveito e pego carona... é revigorante! Minha imaginação sempre me levou e continua me levando pra tudo que é lado, inclusive pra lá do Atlântico. Já pensou andar de bicicleta pelas ruas de Amsterdã? Eu já... ahahaha! Sonhar é bom, recomendo, além de inspirar, ajuda a enfrentar a realidade brutal e nada sensível!


* Esta delicada crônica em duas rodas é uma homenagem à minha mãe e meu pai, que fariam aniversário nesta semana ❤️ ❤️

* Fotografei esses belos modelos na exposição "Memória Viva, histórias que atravessam gerações - Edição Bicicletas".

quarta-feira, 8 de abril de 2026

O incontestável fascínio da Natureza

– É incrível a facilidade que o ser humano tem de arrumar conflitos por poder! É triste ver tiranos descompensados causando o terror, querendo acabar com uma civilização!

– Já te falei pra não ler o noticiário antes do café da manhã! Tá cada dia mais indigesto... 

– Eu sei, amor! Mas é grave demais pra não pensar! Além disso, vivemos com notícias pipocando na nossa cara mesmo sem a gente querer!

– Internet do caramba!

– Enquanto uns ficam indo encher o saco da Lua... essas missões da Nasa me irritam... tem tanta coisa pra resolver na Terra: guerra pra todo lado, desigualdade social, fome, desmatamento, aquecimento global...

– Por favor, não são nem sete horas da manhã... desse jeito, vou ter de ir pra cama deitar em posição fetal pra ver se me acalmo!

– Não tente me fazer rir, estou estressada, preocupada!

– Desculpe, só quis amenizar um pouco o clima...

– Não é hora de amenizar... os países parecem anestesiados diante das sandices de dois sem noção! Como diz a canção: "é preciso estar atento e forte"!

– Concordo, mas, infelizmente, o interesse econômico é o que move essa engrenagem horrorosa... Por poder, pelo petróleo, os caras colocam a vida do planeta em risco... não estamos falando sobre tiros de metralhadora em campos de batalha, mas sobre mísseis de longo alcance e dos modernos drones, que como toda invenção, vira arma de guerra!

– Esse é meu amor... consciente e a favor da vida e de nosso querido planeta azul!

– Já disse que concordo com você, minha ativista preferida, só não queria que a gente iniciasse o dia com esses assuntos pesados... mas é o que temos pra hoje...

– Agora eu que peço desculpas, amor! Então, vamos tomar nosso café calmamente, como sempre...

– Passe o croissant... ahahaha... calma, me dá um pãozinho amanhecido mesmo... 

– Ah! Peraí que vou te surpreender!

– Uau! Vou aguardar...

– AMOR, VEM AQUI!

– Que grito desesperado é esse? Tô indo...

– Vem aqui na janela... olha que lindo, amor! Um arco-íris!

– Ah! Que demais! Quer fazer uma foto?

– Não, vamos ficar aqui só admirando!

– Ah... o incontestável fascínio da Natureza! Isso é o que temos de mais precioso!

– Precioso é admirar um arco-íris na sua companhia, amor!

– Aí é a perfeição... vem cá que abraçado é melhor!

– Adoro! :)


* A foto que ilustra esta reflexiva crônica foi feita ontem pela manhã... adoro registrar as belezas da Natureza!

sábado, 4 de abril de 2026

A adorável Torre

Outro dia, procurando um filme no qual pudesse mergulhar pra esquecer um pouco as mazelas do mundo, me deparei com "Eiffel", sobre a construção do monumento que mais admiro: a Torre, símbolo de Paris, cidade que tive o prazer de conhecer em 2015! A coincidência é que assisti poucos dias após o monumento completar 137 anos (31 de março). Pra quem, como eu, adora a capital francesa e o maior ícone da engenharia mundial, certamente, era a escolha perfeita para uma singela e caseira sessão de cinema!
O longa, que tem a direção de Martin Bourboulon, conta a história do engenheiro francês Gustave Eiffel, que participou da construção de várias pontes ferroviárias, como a de Bourdeaux, e que depois de projetar a estrutura metálica interna da Estátua da Liberdade (presente da França para os Estados Unidos), foi convidado pelo governo francês a construir uma obra monumental que representasse a grandeza da França, para a Exposição Universal de 1889, quando, então, ele apresentou o projeto da encantadora Torre, que levaria seu nome e se tornaria um dos monumentos mais visitados do mundo!

Além do tema central ter me conquistado, gostei muito do trabalho impecável do ator Roman Duris interpretando Eiffel e da atriz Emma Mackey, como Adrienne Bourgès. Os dois vivem um romance, que mesmo ficcional, funciona como um tempero a mais ao enredo! Destaco ainda a fotografia e a reconstrução da época, que nos transportam imediatamente à "Cidade Luz"! 

Claro que até gostaria de ver mais detalhes da biografia e da trajetória profissional de Gustave Eiffel, mas pra isso podemos pesquisar (até fiz isso depois de assistir ao filme... rsrsrs). Ah! Se você se interessa pela Torre e por um bom romance, recomendo! Adorei! :)


* As fotos que ilustram esse texto são dois dos inúmeros registros que fiz durante a viagem... rsrsrs... Fiquei impressionada com a beleza da construção, não subi para ver a famosa vista da cidade, mas da próxima vez espero ter esse prazer! Foi muito divertido e inspirador caminhar pelas belas ruas de Paris!

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Uma bela surpresa

Sentado no banco da praça, todos os dias no mesmo horário, ele pensa no que aconteceu ao longo das 24 horas anteriores… e sempre tem alguma coisa que desencadeia uma série de pensamentos que o levam ao passado. Não, ele não é nostálgico, nem gosta de perder tempo na vida, mas, às vezes, as situações se repetem… e nem sempre as atitudes tomadas são as mesmas… enfim… é um encadeamento de pensamentos tão intenso que para voltar a admirar o lindo céu ensolarado costuma levar alguns minutos.

Sua mania de sentar nesse banco todos os dias… ah… nem sei se isso é mania ou é sua hora de prazer, todos têm a sua e se não têm, procurem. É muito bom pensar em pessoas queridas, em momentos bons. Afinal, todos os dias temos momentos bons, basta abrirmos a mente!

Ainda que a paisagem, a luz do Sol, as árvores e tudo à sua volta sejam encantadores... hoje, inexplicavelmente, ele começa a prestar atenção no banco, pois é… o companheiro onde descansa o corpo, enquanto sua alma viaja pelos pensamentos. E fica mais impressionado ainda por nunca ter reparado nas inscrições que marcam o assento do querido banco.

Há tantos anos ele fazia aquele verdadeiro ritual de contemplar a natureza sentado ali que aquele cantinho parecia ser só seu e de suas lembranças, mas pelo jeito parece ser de outras pessoas também. Ao mesmo tempo em que se incomoda com os rabiscos sujando seu assento preferido, fica curioso para ler o que dizem.

Várias datas e letras entrelaçadas, algumas dentro de corações… que bonito! Certamente, são as iniciais de casais apaixonados! Neste momento, uma brisa balança os galhos da árvore e algumas flores minúsculas começam a se espalhar pela grama. Ele olha para cima admirando a chuva de florzinhas douradas e acaba esquecendo por uns instantes dos rabiscos.

Revoadas de passarinhos e o canto de um sabiá laranjeira ao longe deixam tudo ainda mais mágico... pelo menos, aos olhos dele, que troca qualquer coisa para estar ali perto da Natureza e de coisas belas, como a joaninha que pousa em seu joelho por um instante.

Distraído, ele coloca a mão no banco, sente as ranhuras e se pergunta como puderam machucar assim a madeira de seu companheiro de reflexões! De repente, ele olha para um coração, delicadamente esculpido, que quase se esconde num cantinho, e um arrepio percorre todo seu corpo. Incrédulo, ele lê seu nome junto ao da esposa. Ah! Então ela nos gravou na memória da praça? Mas como nunca me contou? Quando será que fez isso? Ele se concentra, irrita-se em não ter ido ao oftalmologista para trocar os óculos, mas eis que seus olhos se enchem de lágrimas… a data esculpida na madeira é a mesma em que eles se conheceram há exatos 60 anos!

– Meu amigo, eu nem imaginava que você fosse tão antigo! Ahahaha… estou surpreso!

– Por que surpreso, meu bem?

– Você estava aí há muito tempo, querida?

– Não, cheguei agora, mas a tempo de ouvir sua exclamação!

– Desculpe, mas estou impressionado de você nunca ter me contado que esculpiu nossos nomes dentro de um lindo coraçãozinho… e no meu banco preferido!

– Todos temos nossos segredos… por acaso, você me conta todas as lembranças que têm durante suas reflexões diárias aqui na praça?

– Nada demais, reflexões de um velho que ama sua esposa e que adoraria saber que todos os dias senta em cima de nossa história!

– Ah, querido! Na verdade, adoro saber que o banco que escolhi marcar nosso encontro de almas foi o mesmo que escolheu para pensar na vida…

– Garota esperta, escolheu o cantinho mais bonito da praça e o banco mais paciente e bom ouvinte que conheço! Talvez ele seja assim porque sabe que faz parte de nossa história…

– Sim! Você também foi um garoto esperto em escolher este belo banco! Mas agora vamos para casa, acabei de assar a torta… 

– Aquela que eu adoro?

– Exatamente! :)


*A foto que ilustra esta delicada crônica é de minha autoria e foi feita em uma visita que fiz à cidade de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Um banco... um pássaro... em uma bela e inspiradora praça!

quinta-feira, 26 de março de 2026

Uma ilha e seus segredos

Gabriel García Márquez é sempre encantador! Ler "Em agosto nos vemos" é um prazer não só pela escrita inspiradora, mas pelos personagens profundamente humanos, vivenciando o amor e suas desventuras.

O romance narra a história de Ana Magdalena Bach, uma mulher de 46 anos que, uma vez por ano, visita o túmulo de sua mãe em uma ilha caribenha. As visitas, que antes eram apenas para levar flores em memória da mãe, mudam completamente quando ela conhece um homem com quem passa a noite. O encontro desperta desejos talvez adormecidos pela rotina de seu casamento e, a partir daí, ela passa a considerar as visitas à ilha como novas oportunidades de viver tórridas experiências cada vez com um amante diferente. 

A obra póstuma, ainda que não tenha tido a aprovação final do autor, traz o estilo inconfundível, a maestria narrativa... o cotidiano visto pela lente poética de Gabo! O que mais gosto é a forma como o autor nos coloca nos cenários, detalhando cada objeto, a maneira como nos apresenta seus personagens, características físicas, como se vestem, seus sentimentos, pensamentos, desejos, medos... é incrível como, ao longo das páginas, vamos nos familiarizando com a protagonista e seus segredos.

A riqueza de detalhes torna a leitura tão envolvente que passamos a esperar a chegada de um novo agosto só para acompanharmos Ana Magdalena Bach à ilha caribenha, quem sabe, em busca de amor, carinho, prazer... e tudo que temos direito... rsrsrs... Viva Gabo! Viva a Literatura da América Latina! :)

terça-feira, 24 de março de 2026

Uma delicada e reflexiva animação

Quando vi o cartaz de "A pequena Amélie", achei que a animação era o que precisava no momento: a doçura, a ingenuidade e a magia das descobertas infantis! Isso porque acredito que a cada recomeço, precisamos buscar a criança dentro de nós para nos encorajar e nos ajudar a trilhar novos caminhos!

A ida ao cinema foi uma experiência bastante relaxante, primeira sessão da tarde, poucas pessoas, mas algumas bem interessantes. Amigas de longa data, duas senhoras me chamaram a atenção, muito animadas e, ao mesmo tempo, discretas... ainda no café do cinema, descobri que também iam assistir a menininha do cartaz... Adorei! Como todos que gostam de escrever e veem personagens em todos os lugares, fiquei observando discretamente as senhorinhas. Além delas, alguns senhorzinhos. Todos curiosos para conhecer Amélie!

A animação franco-belga usa cores vivas para mostrar a fascinante história de uma menina de três anos, que descobre, entre alegrias e conquistas, perdas e frustrações, o sentido da vida! Inclusive, o uso das cores não só apresenta a beleza das paisagens orientais, mas também retrata as sutilezas emocionais da protagonista. Filha de diplomatas belgas, Amélie nasce no Japão e passa seus primeiros anos em silêncio, como se observasse o mundo, numa espécie de estado vegetativo. A partir do momento em que ela desperta para a vida, embarcamos numa viajem encantadora de descobertas que nos fazem refletir e até lembrar de nossa própria infância!

Duas cenas me conquistaram: a primeira, quando a avó paterna apresenta à pequena o chocolate belga... uau... que sensação adorável... até senti o sabor... rsrsrs;  a segunda, quando a menina descobre a alegria que é tomar chuva... Ah! A Gi pequenininha adorou! Lembrei que meu pai costumava me levar no quintal pra perder o medo da chuva, minha mãe que tinha pavor de trovões e relâmpagos gostava da ideia da filha ser mais corajosa! Saudade... boas lembranças! É isso, Amélie nos faz reencontrar nossa criança! Salve todas as forma de arte! Viva a animação e o cinema! :)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Forte, sem perder a ternura

Ilustração: Hiro Kawahara
Ser forte não nos isenta da necessidade de colo de vez em quando. Tenho tentado passar pelos obstáculos e rasteiras com serenidade. Pra isso, rir de mim mesma é uma das formas que encontro de enfrentar os percalços. O sorriso sempre nos leva longe, ainda que nosso olhar, por vezes, revele uma pontinha de tristeza.

E "cada vez que o mundo diz não", sigo em frente, tentando "manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo". Tudo é uma questão de equilíbrio.

Tá difícil? Sim, só eu sei o quanto, aliás, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", por isso, concentro-me em realizar sonhos, fazendo tudo com amor e seguindo minha intuição.

Escrever me salva, me faz sonhar e encontrar caminhos. Afinal, é preciso caminhar... um passo de cada vez, com calma e direção! Viva nossos grandes Guilherme Arantes, Walter Franco e Caetano Veloso, que sempre me inspiram e temperam minha humilde crônica com seus belos versos! :)


* Agradeço ao querido Hiro Kawahara (@hirokawahara) pela doce ilustração, sua arte é sempre inspiradora! Obrigada pela gentileza e admirável talento!

sábado, 31 de janeiro de 2026

Uma bela homenagem

Como fã de René Goscinny e Jean-Jacques Sempé, nem tentei resistir a essa delicadeza intitulada "O Pequeno Nicolau: o que a gente está esperando para ser feliz?". Trata-se de uma bela homenagem de Anne Goscinny, com adaptação gráfica de Fabrice Ascione, aos criadores do querido menininho que adora brincar e se aventurar com seus colegas de escola!

No livro, o próprio Nicolau conta como Goscinny e Sempé se conheceram, como foi sua criação, a amizade entre seus autores... em suas palavras "a mais bela de todas as minhas aventuras". Com muita sensibilidade, a obra mostra a beleza da infância e sua capacidade de encontrar a felicidade nas pequenas coisas, nas relações humanas e nos momentos mais corriqueiros da vida.

Sempre de maneira leve e divertida, a narrativa nos apresenta os desafios pessoais e profissionais enfrentados por esses dois ícones dos quadrinhos franceses que encantaram o mundo com sua arte!
A leitura me instigou a ler a coleção inteira de "O Pequeno Nicolau" e todos os quadrinhos e livros assinados pelos dois! Aplausos às parcerias entre talentosos escritores e ilustradores, que nos divertem e nos emocionam! Viva Goscinny-Sempé! :)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Primeiros passos de Saramago

Livros de José Saramago sempre me atraem, mas a história que envolve "Claraboia" me instigou ainda mais à leitura. Escrito no início da década de 1950, o original foi enviado para uma editora e acabou engavetado, sem qualquer retorno ao jovem autor. Mais tarde, em 1980, quando já era um escritor consagrado, a mesma editora entrou em contato para publicar o livro, o autor recusou e deixou claro que não gostaria de vê-lo editado em vida. 

Publicada em 2011, a obra é uma janela aberta pelo narrador para nos apresentar a rotina dos moradores de um pequeno prédio, em Lisboa, durante a primavera de 1952. Logo abrindo o primeiro capítulo, conhecemos Silvestre, o sábio sapateiro, e sua esposa Mariana, que mesmo depois de trinta anos de casados "amavam-se ternamente". São meus personagens preferidos pela leveza e postura, como diz o autor, "duas crianças, sem tirar nem pôr". E também pela profundidade das reflexões sobre a vida entre Silvestre e Abel, o jovem que aluga um quarto no apartamento do casal! Altas conversas, diálogos de mestre!

Admiro a genialidade de Samarago ao criar narrativas profundas, personagens bem construídos e, ao mesmo tempo, nos proporcionar momentos divertidos... bom-humor é tudo... rsrsrs... Como quando Anselmo, Rosália e a filha Maria Cláudia ouvem no rádio "o soluçar plangente e lastimoso do fado mais desabaladamente lancinante que jamais cantaram gargantas portuguesas"... pra completar, o autor comenta: "outro fado assim, e de três criaturas de saúde normal restariam três neuróticos"... ahahaha... adoro!

O autor detalha tão bem as características físicas e psicológicas dos personagens e seus desafios cotidianos que dá a impressão de conhecermos intimamente os moradores do prédio e até nos sentimos um deles!

"Claraboia" mostra um Saramago florescendo lindamente para a Literatura, com personagens cativantes e, acima de tudo, humanos, marca presente em toda sua obra. Ah! Já disse que o escritor português é um dos meus prediletos, ler seus livros é aconchego! Só pra registrar: ganhei este exemplar de presente de Natal do meu irmão Gerson e... adorei! Viva a literatura lusófona! Viva Saramago! :)

sábado, 24 de janeiro de 2026

Sempé e dois Patricks

Que adoro o traço delicado e sensível de Jean-Jacques Sempé não é novidade, estou sempre tentando garimpar as obras desse grande ilustrador, cartunista e um dos pioneiros do romance gráfico francês. Em minha constante procura, curiosamente, encontrei dois livros ilustrados por ele, cujos escritores chamam-se Patrick: "Filomena Firmeza", do também francês Patrick Modiano; e "A história do senhor Sommer", do escritor alemão Patrick Süskind. Duas belas narrativas enriquecidas pela arte irretocável de Sempé!

"Filomena Firmeza" é um respiro para esquecermos as sandices que acontecem mundo afora. O livro conta a história de Filomena que, adulta, relembra a infância com seu pai em Paris. A rotina de trabalho do pai era um mistério para a filha, mas nada que atrapalhasse a relação profunda, leve e, muitas vezes, divertida. É claro que ao ler um enredo sobre infância, acabamos por lembrar das nossas próprias experiências, mas é preciso ressaltar também como a força do texto e a genialidade da arte se complementam e ajudam a nos colocar na Paris sempre tão bem retratada por Sempé e, nesse caso, tão bem contada por Modiano!

Adoro o trecho em que a protagonista conta que tirar os óculos para dançar não a atrapalha em nada... ao que o pai responde: "Vai acontecer com você como aconteceu comigo quando eu era jovem... Quando você estiver sem óculos, os outros vão enxergar em seu olhar uma espécie de névoa e de doçura... A isso se dá o nome de charme..." Ah! Que meigo!


Outra curiosidade entre as obras é que, em "A história do senhor Sommer", o tema também são as lembraças da infância. Ilustrado pelo delicado traço de Sempé, o texto de Süskind aborda temas corriqueiros, mas profundos e instigantes. O narrador já adulto nos conta experiências boas e outras nem tanto, de maneira leve e divertida, mas sempre instigando o leitor a refletir sobre suas próprias lembranças e como lidamos com os obstáculos que enfrentamos ao longo da vida.

Subir em árvores, aprender a andar de bicicleta, o primeiro amor, estudar piano com uma professora altamente exigente são algumas das passagens que o protagonista narra com bastante humor e toques de ironia, mas a cereja do bolo (sempre quis usar essa expressão... rsrsrs) são as aparições da figura misteriosa, conhecido como senhor Sommer, um andarilho que ninguém sabe de onde veio e por que anda dia e noite a passos vigorosos pelas redondezas portando apenas um cajado e uma mochila. A misteriosa figura chama a atenção do menino e acaba fazendo o pequeno refletir sobre o que o destino reserva para cada um.

  Sempé/Modiano                   Sempé/Süskind

Ah! Histórias que nos brindam com doces ilustrações de Jean-Jacques Sempé são sempre prazerosas. Aplausos às belas parcerias! Viva os escritores! Viva os ilustradores! :)