sábado, 11 de julho de 2026

Elementar, meu caro leitor!

Outro dia, vi umas edições bonitinhas da obra de Sir Arthur Conan Doyle, num preço legal... resolvi comprar. É a primeira vez que leio Sherlock Holmes. Adorei! É uma leitura leve e instigante, a gente fica até tentando resolver os enigmas antes do detetive mais simpático e elegante da Londres do final do século XIX.

A forma como Holmes esmiúça e decifra cada caso é seu toque genial. E o assistente, o  carismático Dr. John Watson, é o amigo leal que está sempre lá pra contribuir, ainda que, muitas vezes, só com sua presença. Aqui abro um parêntese: em tempos de relacionamentos por meio de telas, é bom lembrarmos o quanto a presença física nos faz especiais, afinal, o ser humano é um ser social por natureza, já dizia o filósofo grego Aristóteles! Que tal deixarmos um pouco de lado as telas para encontros mais olho no olho? Fecho o parêntese.

Voltando à obra de Doyle, li três coletâneas de contos: "Um Escândalo na Boêmia e outras aventuras"; "A Liga dos Cabeças Vermelhas e outras aventuras" e "O Roubo da Coroa de Berilos e outras aventuras". Confesso que o que mais gostei foram os casos que não envolvem crimes, mas acontecimentos dos mais bizarros... rsrsrs... as observações detalhadas e as conclusões surpreendentes de Holmes aumentam a vontade de ler o próximo conto! 

Outro destaque é a narração feita por Watson que, como testemunha das aventuras de Sherlock Holmes, nos brinda com uma visão humana, tornando as histórias acessíveis, é como se ele traduzisse a "doideira" genial do amigo em algo mais palpável para os leitores. Claro que agora fiquei ainda mais curiosa para ler os quatro romances... quem sabe, em breve, volto a falar sobre Sherlock... rsrsrs... Viva a mente criativa de Arthur Conan Doyle! :)   


* A foto e o chá são de minha autoria... rsrsrs... afinal, nada mais apropriado do que saborear a tradicional bebida acompanhada de um clássico da literatura britânica!

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Encantos do futebol

– Vamos comentar um pouco sobre a Copa do Mundo 2026?

– Alguma razão especial, depois do vexame?

– Nada a ver com o vexame. Nem esperava nada dessa turma mesmo... quero falar sobre o que tem me encantado na Copa... 

– Ah! Vamos comentar! Gosto de Copas do Mundo porque elas sempre trazem momentos marcantes. 

– Que bom... então, vamos lá... eu começo com uma que sempre gosto de ver: as torcidas todas misturadas nas arquibancadas dos estádios! Claro que sempre tem aquele mar de torcedores juntos...

– ... remando bem pra caramba... rsrsrs...

– Pois é... remaram, acima de tudo, com vontade, com habilidade!

– Parabéns aos vikings... mas deixemos esse capítulo pra lá.

– Certo, excluindo lembranças desagradáveis em... três... dois... um! Agora, diga alguma coisa que está te encantando, amor!

– Tô gostando por ser a Copa de lendas que estão se despedindo, mas ainda com o mesmo comprometimento, mesma alegria de menino ao chutar uma bola e ao comemorar um gol... tipo o argentino Lionel Messi que tá disputando a artilharia; o croata Luka Modric; o goleirão alemão Manuel Neuer... ah... falando em goleiro, o mexicano Ochoa, que jogou poucos minutos, mas lançou uma bola que resultou em um belo gol!

– A briga pela artilharia tá muito legal: Messi com oito gols, o francês Kylian Mbappé e o norueguês Erling Haaland com sete cada, o inglês Harry Kane com seis! Os caras estão implacáveis... muito bom ver atacantes tão efetivos! O que mais, querido?

– Também gostei de algumas seleções pela garra: Inglaterra, Bélgica e mesmo as desclassificadas do Paraguai, Canadá e México, que caíram lutando.

– Ah! Nem vem... a que mais me encanta é a Seleção Francesa... eles são demais! No ataque tem uma cacetada de jogadores de alto nível que estão entregando tudo: Mbappé, Dembélé, Doué, Olise, Thuram, Barcola...

– Chega! Já entendi que temos uma torcedora "Les Bleus"!

– Allez les Bleus!

– Creio que tá faltando alguém na lista de encantos dessa Copa...

Foto: Charlotte Wilson/Getty Images

– Ah! O mais marcante: Cristiano Ronaldo! Participou de seis Copas, marcou gols nas seis, é um atleta com a maiúsculo... gente muito boa, tenho o maior respeito por ele! 

– Concordo que ele é uma lenda... pena que a Seleção Portuguesa...

– ... nem me fale, aquele bando de moleque boicotou o CR7, ninguém cruzava pra ele. As poucas vezes que ele teve a bola marcou gol, mas fazer o quê... o meio campo português tá de parabéns, reunião de insensatos!

– Calma, querida! Não fique nervosa, durante todo o jogo das oitavas só ouvi você gritando: toca a bola pro Cristiano!

– Pois é... mas como dizia Mário Quintana: "Todos esses aí que estão atravancando meu caminho, eles passarão, eu passarinho". Viva CR7!

– Temos aqui uma torcedora franco-Cristianoronaldina... ahahaha...

– Ahahaha... e aí temos um torcedor de La Scaloneta!  

– Ahahaha... oficialmente, La Albiceleste! Mas calma que ainda tem outras seleções fortes por aí, vamos ficar atentos com La Roja, The Three Lions, Diables Rouges, Lios de l'Atlas, Vikins e Schweizer Nati.

– As quartas de final vão ser eletrizantes, querido!

– E o melhor de tudo é assistir todos os jogos agarradinho com a melhor torcedora das galáxias!

– Ah... adoro nossa arquibancada particular, meu torcedor preferido! E viva quem joga futebol com amor, garra... e SIUUU! :)

sábado, 4 de julho de 2026

Um clássico anti-herói

Uma leitura inquietante e, por vezes, avassaladora, assim é "Diário do Subsolo", do admirável Fiódor Dostoiévski. O narrador/protagonista, que se apresenta logo no início como um sujeito maldoso e repulsivo, é um clássico exemplo de anti-herói.

O ex-funcionário público resolve escrever um diário que transborda de situações pesadas e angustiantes, principalmente, pela maneira torta com que ele tenta resolver seus dilemas. Como quando decide que vai ao encontro de colegas de escola que o maltratavam e, mesmo assim, impõe sua presença e protagoniza cenas pra lá de constrangedoras. É um ser revoltado, amargo, que deixa o leitor em alerta máximo e bastante incomodado com suas memórias e sua forma de encarar a vida. O que mais me impressionou foi o tratamento desumano ao qual ele submeteu a desavisada Lisa (leiam pra saber mais sobre ela). 

O narrador, realmente, tem rompantes de crueldade absoluta, mesmo assim, sua consciência, muitas vezes, coloca um gosto amargo em sua boca. E aí é que está a genialidade de Dostoiévski, que como sempre nos mostra a complexidade da mente humana, mesclando tensão e perversidade... tudo temperado com ironia, em um texto fluido, ainda que denso, nos proporcionando uma leitura reflexiva e necessária! Viva a Literatura Clássica! :)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Pensamentos desenfreados

Parece brincadeira, mas quando Clotilde decide que o melhor a fazer é deitar cedo pra relaxar e ter uma noite de sono um pouco mais longa, basta colocar a cabeça no travesseiro para surgirem vários pensamentos aleatórios. Do nada, ela lembra que comprou uma escarola que precisa ser refogada, que o brócolis tá muito caro e, antes que murche na geladeira, seria muito bom comê-lo com macarrão. Tudo bem... vira para o lado, afofa o travesseiro, respira fundo, puxa a coberta e quando parece que vai dormir... tem um flash do cesto transbordando de roupas pra passar e, imediatamente, lembra de duas blusas que precisam sair do guarda-roupa direto pra máquina de lavar... sem condições, pra dizer o mínimo, estão com cheiro de armário!

Esgotada, ela fecha os olhos, tenta se acalmar... e logo vem a lembrança assustadora dos vidros das janelas da sala! Já passou da hora de limpá-los, mas não é preguiça, é dor nas costas. Dá um suspiro... estica as pernas e... ah... esqueceu de tirar a carne do congelador.... tudo bem, deixa pra lá. Ouve o caminhão do lixo passando... misericórdia, não separou os recicláveis! Agora só na semana que vem... paciência.

E, assim como veio, o turbilhão de pensamentos parece cessar gradativamente. Curiosa, antes de se aconchegar com o cobertor, olha o relógio! O que? Meia-noite e meia? Como isso pode ter acontecido? Clotilde se deitou antes das dez! Precisava tanto dormir... relaxar... e, afinal, pega no sono! Melhor assim, amanhã ela resolve tudo, mesmo que com belas olheiras de panda! :)

sábado, 27 de junho de 2026

Perspicácia animal

Sabe quando você precisa de um filme leve, divertido e com a participação de atores adoráveis como Hugh Jackson e Emma Thompson? Pois é, num desses dias chuvosos, resolvi fazer isso por mim... assisti "As Ovelhas Detetives" (The Sheep Detectives), no Prime Video.

Baseado no romance "Three Bags Full: A Sheep Detective Story", de Leonie Swann, o longa tem roteiro de Craig Mazin, direção de Kyle Balda e conta com carismáticas ovelhas, animadas em CGI.

Na trama, George (Hugh Jackman) é um pastor que vive em um trailer, na Vila de Denbrook, no interior da Inglaterra, que todas as noites costuma ler romances policiais para suas ovelhas, sem imaginar que elas entendem tudo. A rotina no campo parece calma até que George aparece morto, um choque para seu rebanho e um mistério que agita a vila. Tim Derry (Nicholas Braun) é o único policial da cidade. Mesmo bastante atrapalhado, com a ajuda das ovelhas mais que espertas, lideradas por Lily e Mimoso, acaba por desvendar o crime... não sei se fiquei tão encantada pelas imagens, mas pra mim foi uma surpresa... ahahaha... olha o que fazem simpáticas ovelhas!

Estava aberta para me divertir e logo de início George me conquistou... na primeira cena, ele aparece escrevendo uma carta... adoro! Depois conferimos um pouco de seu cotidiano cuidando e até propondo brincadeiras para o rebanho. As cenas em que as ovelhas discutem, tentando desvendar os crimes dos livros, são muito divertidas. Sem falar do cordeirinho que nasceu no inverno e é rejeitado pelo rebanho... coisa mais bonitinha, dá vontade de pegar no colo e abraçar... rsrsrs... E da presença marcante e sóbria de Tião, o carneiro que foi resgatado por George, mas que está sempre solitário com seus pensamentos.

Vale conferir os créditos finais com belas ilustrações, ao som de "I'm Gonna Be (500 Miles)", da banda escocesa The Proclaimers! Além de todo entretenimento de qualidade, o filme aborda temas sensíveis como afeto, perda, pertencimento, empatia, coragem... enfim, é uma bela pedida pra quem gosta de diversão com reflexão! Viva o cinema e sua enorme capacidade de nos fazer pensar! :)

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Uma contundente e irônica crítica social

Em "Casa de Pensão", a veia cronista de Aluísio Azevedo nos brinda com uma narrativa rica sobre a sociedade do final do século XIX e, principalmente, a desigualdade social, que ainda hoje é uma ferida aberta no País. A obra conta a história de Amâncio de Vasconcelos, um jovem maranhense, filho de um comerciante rico, que chega ao Rio de Janeiro para estudar Medicina e se hospeda na casa de Luís Campos, que se torna uma espécie de seu tutor na Corte, e de sua esposa Hortênsia.

Um lar respeitoso parece ser a estadia perfeita para um estudante, mas Amâncio tem outros planos, não suporta ser controlado, e, com o tempo, percebe que o melhor a fazer é se mudar para onde possa ter mais liberdade e menos responsabilidade, já que "imaginara inúmeras felicidades" no Rio de Janeiro, porém não faz ideia das desventuras que enfrentará.

A convite de João Coqueiro, um rapaz que mal conhece, ele vai morar na pensão de Madame Brizard. Por trás da simpatia, o casal, na realidade, pretende que Amélia, irmã do tal Coqueiro, se envolva e quiçá case com o estudante abastado que, embora libertino, se mostra ingênuo ao cair em várias armadilhas.

A casa de pensão é como um dos personagens, a maestria com que o autor detalha seus cômodos, seus hóspedes e a rotina envolta em degradação e ironia nos coloca dentro da trama e, por vezes, até desejamos alertar Amâncio sobre o que ocorre ao seu redor e que ele, safo como pensa que é, nem percebe... como quando Lúcia, uma das moradoras (leiam pra saber mais sobre ela... rsrsrs), previne o estudante: "estás na aldeia e não vês as casas"!

Uma curiosidade é que a inspiração do autor para desenvolver o romance veio de um caso real, o Caso Capistrano, que ganhou as manchetes dos jornais, em 1876, no Rio de Janeiro. Observação do cotidiano é sempre enriquecedora para quem escreve... as histórias vivem por aí, basta ter os olhos bem abertos! Viva o talento incontestável de Aluísio Azevedo! Viva a Literatura Brasileira! :)

sábado, 20 de junho de 2026

Bate-estaca, pássaros e um mar de prédios


– Bate-estaca! Quem inventou isso não tem amor ao próximo!

– Ahahaha... desculpe a gargalhada... concordo inteiramente! 

– Por mais que se tente abstrair, o barulho desse equipamento azucrinante domina o pensamento e chega um momento em que você só quer que e o expediente dos caras termine.

– O problema é que essa sensação de urgência pelo silêncio acontece desde cedo, mas como é que se faz pra enfrentar as marteladas o dia inteiro?

– Já tentei de tudo: meditação, yoga, alongamento, passar roupas, limpar os vidros das janelas, fazer palavras cruzadas, falar em voz alta os elementos químicos da tabela periódica e as capitais dos países mundo afora, mas tenho falhado miseravelmente!

– Ontem, tentei me concentrar num livro, mas parece que, ao invés de falar, os personagens martelavam minhas ideias...

– Ahahaha... agora eu que peço desculpas pelas gargalhadas.

– Tudo bem, amor! Sinceramente, acho que estamos histéricos!

– Como não ficar assim? Quando, finalmente, todos os planetas se alinharam e conseguimos tirar férias ao mesmo tempo, imaginando as manhãs e as tardes de calmaria... o que ganhamos?

– Dias inteiros com essa trilha sonora de filme de terror!

– Mudando de assunto, mas ainda como consequência da quantidade de prédios enormes e caixotes sufocantes que estão sendo erguidos por todos os lados... essa construção desenfreada é que prejudica o planeta. Eu tava olhando na janela e vi uma revoada de passarinhos... que tristeza... eles quase não têm árvores onde pousar, se alimentar, dormir...

– Então, adoro acordar com o canto dos pássaros... é um alívio, uma alegria! Mas do jeito que destruíram as casas e os quintais arborizados pelo bairro pra levantar esse mar de prédios, os vestígios de Natureza estão cada vez mais escassos... menos árvores e mais concreto.

– Haja paciência com esse tipo de coisa... fico pensando, se nossas férias já estão taciturnas, imagina o futuro do planeta!

– Por favor, não vamos falar em futuro do planeta... vamos ao parque... pelo menos lá a gente consegue esquecer um pouco essas sandices todas.

– Desculpe pelo estresse em plenas férias!

– Imagina, querida, nosso estresse foi patrocinado pelo implacável bate-estaca... vem cá, minha irritadinha!

– Só se você me levar longe desse caos urbano...

– "Vamos fugir, pra outro lugar, baby... vamos fugir..."

– "Pra onde quer que você vá, que você me carregue"... ahahaha...

– Ahahaha... sempre! :)


* A foto é de minha autoria, mas a revoada de passarinhos é resultado de uma ediçãozinha básica. Já os versos de "Vamos fugir" (Gilberto Gil e Liminha) são a necessária pitada de poesia.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

A relevância do beijo

Em "O beijo não vem da boca", Ignácio de Loyola Brandão nos apresenta Breno, um escritor que, após se separar, vai morar em Berlim ainda dividida pelo muro! Ao longo da narrativa, o protagonista revê sua vida, seus amores, suas dores, enquanto procura se adaptar à cidade alemã, sem perder de vista o Brasil, que tenta voltar à democracia.

As cartas são o meio que encontrou de manter contato com o país e de desabafar com os amigos. Por meio da correspondência com Ana, sua amiga da juventude, começa a entender o mundo à sua volta, tentando se reencontrar e até mesmo redescobrir o amor.

O autor usa o humor em várias situações, inclusive para mostrar as fragilidades de Breno e a sagacidade de Ana. Além disso, detalha a capital alemã, suas paisagens, arquitetura, cotidiano e isso sempre nos aproxima da história que é contada e de seus personagens... e Loyola faz isso com maestria, ainda que, muitas vezes, nos dê uma vontade desmedida de espancar o protagonista... rsrsrs... Por outro lado, há muita ternura e emoção ao longo das páginas... afinal "não são lindos os happy ends? A vida deveria ter somente happy ends, nem que para isso a gente se arrebentasse pelo caminho".

Confesso que a leitura não foi fluida, até porque o próprio personagem principal narra suas angústias de forma nada linear e, às vezes, irritante... é egoísta e, ao mesmo tempo, inseguro, tem medo de críticas aos seus livros (mas isso é seu lado mais humano... rsrsrs... totalmente compreensível). Pra mim, foi uma bela experiência de leitura e me instigou a ler mais o autor, quem sabe nas próximas feiras de livros tenha a oportunidade de adquirir sua trilogia de romances distópicos! Viva a Literatura Brasileira! Viva o humor e a perspicácia de Ignácio de Loyola Brandão! :)

sábado, 13 de junho de 2026

Primeira visita

Ah! Visitei o Museu do Futebol! Nada pensado, mas coincidiu de ser na semana de abertura da Copa do Mundo 2026. Fiquei encantada com as imagens, informações históricas e detalhes, mas pra conferir tudo uma visita só não basta! 

Na exposição principal, adorei a "Sala Pelé", as várias fotos dele em ação são fascinantes... pra quem, como eu, não o viu jogar, é uma forma de conhecer um pouco da magia do Rei! Sem contar com o registro dele com o manto sagrado do meu querido Saaaaaaantoooooos! E falando em emoção, uma das experiências mais empolgantes é a chamada "Sala da Exaltação". Telões enormes projetam imagens de várias torcidas com seus gritos de guerra em meio às pilastras de sustentação do Pacaembu... é de arrepiar! A vontade é estar na arquibancada cantando junto!

As cinco conquistas da Seleção Brasileira são contadas com os respectivos contextos de cada época. Tentei me atentar mais às de 1958, 1962 e 1970, porque assisti o tetra e o penta... rsrsrs... Mas o que mais procurei foram as fotos dos jogadores e seus uniformes que, aliás, pude conferir também na exposição temporária "Amarelinha"!  Camisas de craques de várias gerações, todas com as marcas do tempo e da luta que enfrentaram em campo... Adorei!

Sempre me interessei por curiosidades, itens raros e tudo que envolve o universo do futebol e, para isso, o Museu é um prato cheio! Destaco três (foto ao lado) que me chamaram a atenção e despertaram lembranças afetivas! Primeiro, alguns cards do querido "Futebol Cards da Ping Pong", tive o do Nilton Batata, atacante do "glorioso alvinegro praiano"... rsrsrs... Adorei lembrar que me divertia com o grande e saudoso Jô Soares, no programa "Viva o Gordo", e seu Zé da Galera, que ligava do orelhão para o também grande e saudoso Telê Santana, implorando para o técnico da Seleção Brasileira (1982 e 1986): "Bota ponta, Telê"! Ah! A Seleção de 82! Pra mim, a melhor que vi, tudo bem que não ganhou, mas encantou e muito! A capa icônica do "Jornal da Tarde" revela bem o que sentimos naquele dia! Mas no futebol é assim mesmo, por isso, é tão inspirador!

Pois é, comentei alguns pontos que marcaram esta minha primeira visita, mas certamente vou querer ir outras vezes e com mais calma. Só não podia deixar de dar uma olhadinha e registrar o campo do Pacaembu, onde tive a sorte de assistir a um jogo do Santos, única vez que fui a um estádio! Ah! O dia ensolarado tornou a visão ainda mais arrebatadora! Tomara que em breve o querido Paca volte a ser palco de jogos importantes à altura de sua história. Viva o futebol... e bola na rede! :)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Sabor outonal

– É preciso esclarecer que o céu de outono não é a única beleza da estação, além de suas tardes suaves e iluminadas!

– Continue, querida...

– Não faça essa cara de quem não sabe do que estou falando.

– Percebeu? Pois é, minha cara é realmente a de quem não sabe do que está falando, amor!

– Não seja tosco!

– Nossa, que delicada!

– Não mude de assunto, querido!

– Mas eu nem sei que assunto é esse? Com sua leve estupidez, fiquei meio perdido... recomece o diálogo, ó ser impaciente!

– Ahahaha... que raiva... tive que rir! Ser impaciente... até parece... ahahaha... tá bom, não precisa me fuzilar com esses doces olhos...

– Ah! Esse "doces olhos" me desmontou...

– Sou assim, te desmonto com uma simples tacada... ahahaha...

– Fala logo, minha certeira preferida!

– Ahahaha... tá bom... como eu ia dizendo... o outono não me encanta só pelo lindo céu azul e suas tardes suaves e iluminadas... tem uma fruta da época que é de lascar de boa... 

– CAQUI! Concordo, mas por que não me disse que o assunto era alimento?

– Porque, pra mim, outono é sinônimo de caqui... pensei que pra você também seria óbvio falar da estação e lembrar da fruta mais saborosa das galáxias!

– Desculpa, amor, pensei que você ia sugerir um passeio, mas aí fiquei com aquela cara que mais te irrita... ahahaha...

– Ahahaha... o que mais me irrita é me fazer rir quando tô irritada...

– Ahahaha... só piora, por favor, volte ao assunto, prometo me esforçar pra não te fazer rir.

– Não tem mais assunto... eu queria que quando falasse de outono você lembrasse de nossa fruta mais querida.

– Uma de nossas frutas mais queridas você quer dizer.

– Caqui é a nossa fruta MAIS QUERIDA DO OUTONO, ora bolas! 

– Calma, o que os vizinhos vão pensar dessa gritaria!?

– Uma conversa que poderia ter sido tão doce... mas você parece que tirou o dia pra me irritar.

– Quem sabe você tenha começado muito poética, amor... da próxima vez, seja mais direta.

– Pode deixar, vou ser mais direta: vou pra cozinha agora saborear um caqui maravilhoso! E você? Nem tente vir atrás de mim!

– Até parece que vou ficar aqui! E que fique claro, não vou atrás de você, vamos lado a lado, compartilhando tudo, como sempre!

– Sim! Compartilhando tudo, como sempre! Que romântico, amor!

– "Talvez eu seja o último romântico dos litorais desse Oceano Atlântico..."

– "Me dá um beijo, então, aperta a minha mão. Tolice é viver a vida assim sem aventura..."

– Ahahaha... vamos nos aventurar na cozinha comendo caqui, querida!

– Ahahaha... vamos de mãos dadas, amor! E viva Antônio Cícero, Lulu Santos e Sérgio Souza*! :)


* Compositores da bela canção "O Último Romântico".

sábado, 6 de junho de 2026

Uma bela e atribulada viagem

Depois de ler um livro extremamente denso, adoro me refugiar em leituras mais leves só pra dar aquela relaxada básica. Por isso, depois de um clássico de Dostoiévski, nada melhor que mergulhar no mundo das HQs. Desta vez, tive o prazer de reler "Uma volta pela Gália com Asterix". 
Ah! René Goscinny e Albert Uderzo... como vocês são geniais! O mais legal de reler as histórias é que, além de me divertir, acabo me emocionando ao lembrar que a Gi pequena adorava esses gauleses cativantes!


Com a arte impecável de Uderzo e o texto ágil e bem-humorado de Goscinny, a aventura instiga a vontade da leitora aqui de viajar pelas cidades e conferir se as especialidades apontadas são tradicionais ainda hoje! Cadê meu passaporte? Ahahaha...

O desafio de Asterix e Obelix é viajar por todas as regiões da Gália (território que compreendia a França atual, Bélgica, Países Baixos, grande parte da Suíça, parte da Itália e parte da Alemanha) e trazer os acepipes para, na volta, oferecerem um banquete... então, eles visitam, por exemplo, Lutécia (antigo nome romano de Paris... ulalá!), onde compram o famoso presunto; em Cambrai, as "mentirinhas" (balas de menta); em Toulouse, salsichas; em Bourdeaux, ostras e vinho branco; entre outras. Tudo isso, claro, tendo que driblar os romanos, mas nada que a eficiência dos dois não resolva... rsrsrs...

Adoro as HQs franco-belgas clássicas! Colecionar os títulos dessa série inspiradora é embarcar na imaginação! Viva o talento dos queridos Goscinny e Uderzo! Viva a Nona Arte! :)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Os labirintos da mente humana

Já postei sobre Fiódor Dostoiévski, inclusive sobre seu livro de estreia "Gente Pobre", do qual gostei muito... finalmente, depois de um longo e tenebroso inverno, li sua obra-prima: "Crime e castigo"! A narrativa densa sobre os labirintos da mente humana nos apresenta o jovem Raskólnikov "esmagado pela pobreza", que não consegue mais pagar os estudos nem o quarto que aluga e vive em constante insegurança, tendo que empenhar seus poucos pertences para conseguir alguns trocados, vivendo do dinheiro enviado pela a mãe e pela irmã, que moram no interior.

Mesmo atormentado, ele continua em Petersburgo, vestindo farrapos e isolado do convívio social, considerando-se mais inteligente do que qualquer um e quase não tolerando interações. Está sempre taciturno, refletindo sobre injustiças, moral, valores... adora Napoleão e acredita que nem todos os crimes devem ser punidos, porque alguns deles podem levar a um bem maior para a sociedade... pensamento sombrio esse, hein?

A partir de todas as dificuldades que enfrenta quando tem que deixar a faculdade e perde os alunos particulares, o jovem resolve cometer um crime que, em sua visão "napoleônica" vai livrar o mundo de uma pessoa deplorável: a velha viúva, a qual empenha seus pertences a juros escorchantes.

A desigualdade social e a forma vil como o pobre é desprezado nos grandes centros urbanos são temas constantes na obra do autor e nos deixa aquele gosto amargo, afinal, infelizmente, em pleno no Século XXI, continuamos vivendo os mesmos dilemas. Mas o que mais impressiona na narrativa é a magistral habilidade de criar personagens humanos... ainda que Raskólnikov seja um assassino cruel, tem seus momentos de puro altruísmo, como quando ajuda outras pessoas tão ou mais pobres que ele, por exemplo, doando todo o dinheiro enviado pela mãe para ajudar no enterro de um pai de família, de quem presencia o atropelamento.

A facilidade que Dostoiévski tem de detalhar não só as emoções como os cenários nos dá a sensação de estarmos acompanhando toda a jornada do protagonista e demais personagens in loco, porém, neste caso, o melhor a fazer é ficarmos olhando bem de longe... rsrsrs... Brincadeiras à parte, adoro quando o escritor lança mão do bom-humor em algumas conversas entre o protagonista e seu amigo, Razumíkhim; e ao descrever as características fisicas e trajes de outros personagens; são momentos que ajudam a aliviar a constante tensão.

Acompanhamos um homem dividido que, por um lado, acredita que seu crime era necessário, mas, ao mesmo tempo, sofre com a consciência pesada e luta por redenção. Enfim, cada livro do autor é uma aula de escrita e aumenta a vontade de ler toda sua obra! Viva a Literatura Clássica! Salve a genialidade de Dostoiévski! :)

sábado, 30 de maio de 2026

Revisitando um filme aconchegante

Decidi ir ao streaming escolher um filme, queria mergulhar em uma história que me fizesse esquecer um pouco minhas preocupações e as mazelas do mundo... Juro que queria alguma coisa nova, mas depois de rolar a tela e cansar de ver milhares de opções, me deparei com "Questão de tempo" (About time, 2013), com roteiro e direção de Richard Curtis, um diretor que sabe me conquistar com bom-humor, emoção e romance desde sempre... ou desde os adoráveis "Quatro casamentos e um funeral" (1994) e "Um lugar chamado Notting Hill" (1999)!
 

Ah! Eu estava precisando de um filme aconchegante como esse, que assisti no cinema, tive o DVD e é sempre uma inspiração só! Os personagens são muito bem construídos, absolutamente humanos e cheios de sutilezas!

Tudo começa quando Tim (Domhnall Gleeson) completa 21 anos e seu pai (Bill Nighy) conta a ele que os homens da família podem viajar no tempo e mudar o passado... e, então, ele conhece Mary (Rachel McAdams) e descobre que ela é a mulher da sua vida... a partir daí, várias situações se desenrolam até que ele a conquista. A sequência de cenas de Tim e Mary no metrô é encantadora e a do casamento na chuva é hilária. Ah! Adoro a trilha sonora!

Gosto das cenas iniciais em que é apresentada a família de Tim e suas tradições de tomar chá na praia, seja inverno ou verão, e realizar sessões de cinema ao ar livre, inclusive em dias chuvosos... as partidas de tênis de mesa entre o pai e o filho. A mãe (Lindsay Duncan) meio blasé, o adorável e excêntrico Tio D (Richard Cordery) e a irmã Kit Kat (Lydia Wilson) protagonizam cenas divertidas, assim como quando os pais de Mary conhecem Tim!

A relação que eles constroem é de uma delicadeza tão leve e bem-humorada que nos conquista completamente. Não vou contar detalhes pra que quem, por ventura, ainda não assistiu tenha suas próprias experiências com esse roteiro brilhante, desse cineasta igualmente brilhante! Adoro comédias britânicas! O filme nos convida a refletir sobre a importância de enfrentarmos os dias com um sorriso no rosto, lançando mão da gentileza pra facilitar a vida e conquistarmos momentos inesquecíveis! Viva o cinema! :) 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Não abandone seu poeta

A inversão de valores é explorada de forma altamente criativa pelo escritor português Afonso Cruz em "Vamos comprar um poeta". Preciso dizer que quando vi alguém, que não lembro quem, falando desta obra na internet, o que mais me chamou a atenção foi o título, que logo entrou para minha (cada vez maior) lista de leituras imprescindíveis! Aliás, benditas feiras que, por vezes, nos possibilitam comprar os livros que queremos com descontos vantajosos!

Com linguagem leve e certeira, o autor consegue prender a atenção do leitor desde as primeiras páginas. Em uma sociedade dominada pelo materialismo, onde tudo é contabilizado e negociado, a filha adolescente pede aos pais um poeta como se pedisse um animal de estimação. Na loja, o pai se certifica sobre o modelo que escolheram e o vendedor responde que o índice de subversão dele está abaixo dos 2%, mas alerta que é necessário que seja um pouco subversivo para manter a qualidade poética. O vendedor aconselhou ainda que para entretê-lo bastava comprar cadernos com folhas brancas, canetas e alguns livros! Adorei!

Além de provocar reflexões sobre o valor da poesia e da arte, a história, narrada pela adolescente, é permeada pelo humor. As características dos membros da família são um caso à parte: o pai vive tentando administrar os poucos cabelos que tem; o irmão descrito como "exponencialmente parvo", apaixona-se com facilidade e vive em "constante bancarrota emocional"; a mãe, cansada, sempre calçando pantufas gastas, recusa a compra de um artista, porque faz "muita porcaria", inclusive, uma conhecida passava horas limpando a "sujidade que ele fazia com as tintas", por isso acredita que um poeta seria menos trabalhoso. Já a narradora é a mais próxima do poeta e em determinado momento até se pergunta: "estarei a ficar poética?".

Ah! Como não adorar personagens tão bem construídos e uma narrativa inspiradora sobre a importância da cultura para o desenvolvimento humano em um mundo extremamente consumista! Aliás, vale o alerta: não abandone seu poeta numa praça qualquer! Viva a imaginação e o talento de Cruz! Salve a Literatura em língua portuguesa! :)

sábado, 23 de maio de 2026

Aquela vontade de comer um docinho


– Cadê você, amor?

– Tô aqui na sala... relaxando. Por quê?

– Tá tão quietinha.

– Tô olhando a garoa no vidro da janela.

– Que poética!

– E você? Tá fazendo o quê sozinho na cozinha, menino travesso?

– Ahahaha... adorei o travesso! Tava pensando...

– Pensando em quê?

– Sabe aquela vontade de comer um docinho?

– Sei...

– Nossa, que insensível!

– Por que insensível?

– Tô aqui externando minha vontade de saborear uma guloseima e você me vem com esse azedume!

– Desculpe, querido! Achei que era só um comentário daqueles de elevador, do tipo: esse calor tá de amargar!

– Ahahaha... tive que rir... faz tempo que não ouço "calor de amargar". No entanto, quero registrar que meu comentário foi muito mais profundo que uma conversa de elevador, querida!

– Tá bom, então, vamos dissertar sobre essa sua vontade...

– Não exagera! Tava só comentando e queria compartilhar.

– Já entendi, amor! Vamos começar de novo... pergunte!

– Sabe aquela vontade de comer um docinho?

– Te conheço, quando fala assim é porque já tem uma ideia formada. Qual docinho?

– Ah! Pensei num...

– Por favor, não vai me dizer que quer que eu faça crème brûlée ou, sei lá, alfajor... justo hoje que tiramos o dia pra descansar?

– Claro que não! Não sou requintado como você, pensei em algo bem mais simples.

– Devia gostar de ter ao seu lado alguém que está sempre pronta a aprender receitas variadas. Tá me chamando de fresca?

– Calma, amor! O fato é que você tem o paladar refinado...

– Para com isso! Não tenho culpa de gostar de doces de todos os tipos e nacionalidades.

– Tô falando... já lançou um "nacionalidades" e não quer que eu chame de requintada... ahahaha...

– Só disse que gosto de vários tipos de doces... do fino e delicado marzipan ao simpático e tradicional gibi, o doce de amendoim mais gostoso do Universo!

– Opa, não tá mais aqui quem falou! Eu ia dizer que tava querendo algo acessível como um pé de moleque.

– Ah! Pé de moleque? Que coisa mais sem glamour... ahahaha...

– Nesse momento, um pé de moleque já me satisfaria... e muito!

– Não precisa ficar chateado, tava te provocando.

– Bastava abrir o pote...

– Você venceu! Chega de admirar a garoa, mas que fique claro: não vou querer só o pé, quero inteiro! Vem cá, meu moleque! :)


* A foto que ilustra essa adocicada crônica é de minha autoria, assim como o marzipan em formato de coraçãozinho. Já o gibi, comprei no mercado, fotografei e depois saboreei, claro... rsrsrs...

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Sonhos, desejos e desafios

Em "As Meninas", Lygia Fagundes Telles nos apresenta três universitárias, Lorena, Lia e Ana Clara que, durante o sombrio período da ditadura militar, convivem em um pensionato de freiras, sonham, cada uma a sua maneira, e enfrentam o início da vida adulta.

Com uma linguagem fluida, lançando mão do encantador e desafiador fluxo de consciência, Lygia nos brinda com uma narrativa que alterna as vozes e pensamentos das três protagonistas, tornando a leitura ágil e extremamente cativante.

A autora domina a arte de criar personagens profundamente humanas, dosando os momentos de aflição e desespero com tiradas de humor dignas dos mais fervorosos aplausos. Confesso que quando concluí a leitura, fiquei meio sem ação... queria saber mais do futuro das protagonistas, por outro lado, adoro quando o autor encerra a conversa e deixa que o leitor imagine e tire suas próprias conclusões. Aliás, essa é uma das funções da Literatura, nos fazer refletir!

Gosto de como cada uma delas nos desperta um sentimento diferente: Ana Clara é daquelas amigas inconsequentes que é preciso dar colo e, ao mesmo tempo, encher de broncas; Lia e sua combatividade nos convida a lutar contra os desmandos de uma época de repressão; e Lorena, a mais sonhadora e sensível que, mesmo sendo descendente de uma família paulista quatrocentona, está sempre pronta para ajudar as amigas, sua visão mais leve e bem-humorada da vida faz a diferença.

Adoro as observações de Lorena em vários momentos, como quando fica indignada com a frase inicial do livro de Lia que diz: "Em dezembro, a cidade cheira a pêssego"... Ah, adorei! Um pouco de poesia não faz mal, Lorena, deixa a menina escrever o que quiser... rsrsrs; ou quando ela empresta um delicado lenço para Lia e fica imaginando que a amiga será capaz de limpar os sapatos com ele... e aconselha: "Mas não se importe não, seja lenço. Solto-o no espaço. Abriu-se leve como um paraquedas que Lião apanha impaciente". A genialidade da autora retratando, nos mínimos detalhes, toda e qualquer situação nos prende tanto a atenção que ficamos envolvidos pela trama, aguardando onde isso tudo vai dar! Viva o talento e a sensibilidade de Lygia Fagundes Telles! Salve a Literatura Brasileira! :)

sábado, 16 de maio de 2026

Patrimônio cultural ameaçado

Esta semana, lamentavelmente, o Anexo do Espaço Petrobrás de Cinema e o Café Fellini foram fechados por ordem judicial. A direção do cinema afirmou, em comunicado oficial, que está tomando medidas legais cabíveis para reverter a situação.

O valor histórico e cultural do imóvel, um casarão da década de 1930, é inegável, além disso, o local integra área enquadrada como Zona Especial de Preservação Cultural - Área de Proteção Cultural (ZEPEC-APC). Ou seja, é um patrimônio cultural e afetivo da cidade e, portanto, deve ser preservado. 

É inaceitável que tradicionais endereços tenham que dar lugar a empreendimentos residenciais, como se a cidade já não tivesse sendo desfigurada por torres e mais torres de apartamentos que a cada dia apagam sua memória, pobre metrópole!

Quem me conhece sabe que adoro cinemas de rua e cafés! Tenho inúmeras lembranças do Espaço de Cinema da Rua Augusta, frequento desde sempre... Em meados dos anos 1990, lembro de uma sessão lotada do filme "O Balconista" (direção de Kevin Smith), uma comédia hilariante, cinema independente em P&B, uma doideira tão empolgante que quando começaram a subir os créditos aplaudimos de pé! Longas inesquecíveis, como "Cortina de Fumaça" (direção de Paul Auster e Wayne Wang), filme que já abordei aqui no blog em 2024, incrível e muito inspirador.

Fotos: Divulgação/@cinecafefellini

Já no Anexo, adorava assistir cinema europeu... ah... as produções italianas e francesas! Em 2018, assisti a comédia francesa "Assim é a vida" (direção de Eric Toledano e Olivier Nakache), sobre uma turbulenta festa de casamento realizada em um palácio do século XVII, roteiro brilhante e humor digno de aplausos. Lembro que ri até com a senhora que estava ao meu lado, isso é que é filme bom... a gente compartilha as risadas com desconhecidos sem qualquer pudor... rsrsrs... Mas isso também se dá porque o ambiente é agradável e o público se entende. Cinema de qualidade! No Café Fellini que sempre me cativou pelo nome, gostava de escolher uma mesa num cantinho do salão e outras vezes ao ar livre... natureza é sempre um bálsamo... pra saborear um cappuccino e uma adorável fatia de torta doce.

Ah! Ir ao cinema, pra mim, sempre foi aconchego... ir ao Espaço da Augusta e passar no Café antes da sessão é passeio completo, alimenta o corpo e a alma! Os dias em que vou ao cinema são sempre inspiradores e rendem boas recordações. Por isso, resolvi escrever sobre esse tradicional e querido cinema de rua... cada vez que eu atravessava aquela porta no número 1470 da Augusta, saía mais inspirada, querendo realizar sonhos! Torço para que o Anexo (salas e café) reabra para que eu possa conhecer novas histórias e para que a cidade mantenha seus centros culturais! Cinema de rua e cafés são amor! Viva o patrimônio cultural de São Paulo! :)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Romance social

Em seu primeiro romance, publicado em 1846, Fiódor Dostoiévski já mostrava sua maneira profundamente humana de retratar a dura realidade.

"Gente pobre" é de uma tristeza e, ao mesmo tempo, de uma beleza tão sutil proporcionada pelas pequenas alegrias cotidianas, que cativam o leitor, tornando-o íntimo dos personagens. 

O autor nos brinda com a chamada narrativa epistolar, partindo da troca de cartas entre o funcionário público Makar Diévuchkin e sua vizinha Varvara Alieksiêievna, uma jovem órfã.

Na correspondência, os dois contam os desafios da vida difícil que enfrentam, mas Makar consegue ter uma visão que beira ao otimismo, um olhar doce que torna a pobreza menos amarga. Alguns trechos são encantadores, como quando ele descreve seu quarto e fala da satisfação de ter o seu "cantinho" ou quando envia junto à carta presentes para Varvara com carinho paternal. 

Dostoiévski sabe como poucos nos apresentar o universo que cada um traz consigo, seus afetos e valores, de forma global e atemporal, tanto que esses dois personagens com suas dores e alegrias poderiam viver em qualquer país em desenvolvimento, como o nosso ainda sofrido e desigual Brasil.

Durante a leitura, lembrei da canção "Gente humilde" (melodia de Aníbal Augusto Sardinha, conhecido como Garoto, com letra de Vinícius de Moraes e uma pitada de Chico Buarque) que fala de quem "vai em frente, sem nem ter com quem contar". Aplausos à Música Popular Brasileira! Viva a sensibilidade de Dostoiévski! :)

sábado, 9 de maio de 2026

Angústias futebolísticas

– "Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol"...

– Por que esta angústia toda?

– Ah! Só tô cantando, amor.

– Te conheço, que cara é essa?

– Tava lembrando daquela cachorrinha que a gente viu sozinha, olhando pros donos lá longe e, então, essa canção linda do Belchior me veio à cabeça.

– Ficou tristinha?

– Não com a cachorrinha, até porque os donos estavam só fazendo uma foto poética. Ela ali paradinha, com aquela carinha séria... devia estar pensando: venham logo, humanos, me peguem no colo e me levem pra casa, cansei de ser modelo fotográfico! 

– Ahahaha... só você, amor, pra imaginar o que a cadelinha tava pensando, mas o que te despertou a imagem dela sozinha?

– Sei lá, um sentimento de desamparo, tal qual um goleiro que toma um frango...

– Ahahaha... quando nosso time segue firme lá na parte debaixo da tabela, qualquer coisa nos remete a esse momento de tensão.

– Pois é... eu devia ter olhado a cadelinha e achado bonitinha, perguntado o nome dela, mas só me veio essa sensação e aí lembrei do raio do meu time... é de lascar!

– Não se preocupe que estamos no mesmo barco...

– Furado!

– Ah! Logo meu clube sobe na tabela e você vai ter a alegria de me ver feliz, já o seu... tá difícil! 

– E o que te faz pensar que vou ficar alegre com vitórias de seu clube?

– Não ponha palavras na minha boca... eu disse que você ficará alegre por mim e não... ah... você entendeu!

– Ahahaha... ficou nervoso? Você que começou querendo falar mal do meu time, isso não se faz!

– Tá bom, então, vamos parar com essa discussão sem sentido... que cachorrinha mais irritante!

– Não seja troglodita, ela é lindinha e não tem culpa de ter desencadeado em mim um pensamento musical futebolístico! 

– Ahahaha... eu tava brincando, boba! Adoro cachorro!

– Melhor assim!

– Agora, chega dessa cara de zona de rebaixamento!

– Ahahaha... que raiva... tive que rir!

– Ah... vem cá, minha torcedora angustiada! :)


* A doce cadelinha da foto é a Lady, que nem sabe que eu tenho essa foto dela... rsrsrs...

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Saudade de rebobinar uma fita

– E aí, amor? Escolheu o filme que vamos assistir hoje à noite?

– Sem pressão, querido!

– Nossa! Só perguntei porque já faz duas horas que você tá com o tablet no colo com uma cara de desamparo... ahahaha... 

– Isso, alopra mesmo! Eu sei lá, fico olhando esse monte de opção, misericórdia! É pior que escolher sabor de pizza... ahahaha... 

– Ahahaha... palhacinha! Só aviso que, desta vez, não vou escolher o filme! Sem chance, nas últimas semanas sobrou pra mim, agora é com você, minha indecisa amada!

– Você se salvou pela "amada", porque eu já ia te responder à altura.

– Pois, então, me responda com delicadeza!

– Responder o quê, meu curioso amado?

– Quer dizer que você ainda não escolheu o filme? Mas nem opções pra apresentar?

– Ah! Desculpe, mas filme pra mim tem que ser muito especial, não quero assistir qualquer coisa!

– Tudo bem, também gosto de filme de qualidade, mas como a gente paga essa bagaça de streaming temos de encontrar alguma coisa que seja passável pra, pelo menos, a gente se divertir!

– Sinceramente, você sabe o que me divertia? Ir à locadora de vídeo e ficar olhando as fitas de VHS nas prateleiras; receber indicação dos melhores filmes, inclusive, de clássicos antigos; ir correndo pra garantir o filme do momento pra evitar ter que ficar na fila de espera; sair com uma sacola cheia de alegria pra passar o fim de semana assistindo no sofá de casa, torcendo pro videocassete não mastigar nenhuma fita... 

– ... e, lógico, torcendo pra não esquecer de rebobinar todas pra não levar multa na hora de devolver... ahahaha... belas lembranças!

– Ah! Ir à locadora era um evento! A gente saía de casa animada, descobria filmes ótimos só de ouvir as conversas nos corredores! Adorava admirar aquelas prateleiras cheias de histórias, interpretadas por atores e atrizes de quem a gente era fã.. Pegar a caixinha que a gente queria tanto era a glória!

– Tá nostálgica, amor?

– Fiquei assim depois de permanecer, como você disse, duas horas olhando pra fria tela do streaming, lotada de filmes enfileirados... como é que se acha uma coisa legal pra assistir? 

– Impossível que não tenha nenhum que te chamou a atenção!

– Claro que tem... encontrei alguns que adoro e já vi no cinema. Queria encontrar algo novo, mas tenho até medo tamanha a quantidade de coisas estranhas que tenho visto... 

– Ahahaha... Adoro esse discurso de quem tá perdida...  

– Engraçadinho! Então, escolhe você...

– Ah... eu disse que não ia escolher, mas dá esse tablet aqui!

– Não seja ríspido!

– Ahahaha... Já que tá difícil arriscar algo novo, vamos escolher um que vale muito a pena rever: "Peggy Sue - Seu Passado a Espera"!

– Ah! Que amor! 

– Sabia que você ia gostar! 

– Vem, vamos assistir!

– Nem pensar. Agora, vamos pra cozinha ... a sessão de cinema é só depois do jantar!

– Que homem sensível, prendado, charmoso...

– Não comece... vamos cozinhar! 

– Sim, senhor!

– Gosto assim, obediente, educada, delicada...

– Não seja ridículo!

– E doce... que nem jiló... ahahaha...

– Olha quem fala... limãozinho azedo.

– Também te amo! :)

sábado, 2 de maio de 2026

Foto-cartum

Esta semana, fui me encantar com a exposição "Cartunistas", no Centro Cultural Fiesp. É sempre um prazer caminhar pela querida Avenida Paulista e respirar cultura!

Idealizada pelo fotógrafo Paulo Vitale, com curadoria de Eder Chiodeto, a mostra é um belo e inspirado encontro entre a fotografia e o cartum! 

São 144 cartunistas renomados performando diante da câmera fotográfica de Vitale, que em um clique nos brinda com sutilezas da personalidade e da arte dos fotografados. Adorei esse instigante mergulho no mundo dos cartuns e hqs, que tanto me inspiram! 

Confesso que passei duas vezes admirando cada uma das fotografias para conferir melhor os detalhes e os artistas, como o saudoso Ziraldo com seu autorretrato, e Maurício de Sousa, desenhando o querido Horácio, seu alter ego. 

Cartunistas que desde sempre seguem nos ajudando a entender a porra toda por meio de sua obra crítica, perspicaz e divertida, como Angeli em dose tripla e a poderosa Laerte. 


O cartunista e quadrinista Orlandeli, com um pequeno Daruma na cabeça, é outro nome admirável, suas fascinantes HQs nos apresentam arte, narrativa e personagens sensíveis que, invariavelmente, nos provocam reflexões sobre as coisas da vida.

Ah! Nada como a Cultura em suas mais variadas expressões para nos ajudar a enfrentar as mazelas do mundo. Cartuns são libertários, satirizam e questionam o cotidiano, a política, a sociedade e, por isso, merecem respeito e reconhecimento. Viva o cartunista brasileiro! :)

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Rabiscos pueris


– Ah! Que beleza!

– O que é uma beleza, amor? Você tá nessa janela há um tempão.

– Primeiro, fiquei aqui só disfarçando até que você colocasse a mesa pro almoço...

– Ah! Sacanagem... 
 
– Não seja engraçadinho... ontem fiz tudo, hoje é seu dia!

– Calma, querida! Como combinamos há séculos, hoje eu faço a comida e ponho a mesa, mas lembre-se que a louça é sua!

– Sei bem minhas responsabilidades... hoje é dia de louça retinindo!

– Você está insinuando que não lavo bem a louça?

– Insinuando não, amor, tô afirmando que lavo com mais afinco, por isso, o resultado é melhor... rsrsrs...

– Tá saliente, hein? Deixa de ser metida e, por favor, me conta logo o que te encantou tanto lá fora.

– Ué... não era você que tava faminto?

– Ainda tô, mas como diz a canção: "a gente não quer só comida".

– Uau... como tá inspirado, amor!

– Você me inspira, querida! Mostra logo essas fotos!

– Ahahaha... elegância passou longe.

– Ahahaha... desculpe... a fome, às vezes, me tira do prumo.

– Só tava querendo fazer uma foto aleatória, fiquei admirando o céu e eis que, de repente, vi uma nuvem igual àquelas que a gente desenha quando criança... quase chorei.

– Que meiga! Na infância, eu adorava desenhar o sol, as nuvens e os pássaros... minhas obras de arte sempre envolviam o firmamento!

– Ahahaha... obras de arte... firmamento, que poético, amor!

– E por que tá rindo? 

– Ah! achei divertido.

– Não precisa humilhar...

– Não exagera, bobinho! Voltando às nuvens... fiquei tão impactada que resolvi fazer umas fotos. Depois, quem sabe, pegamos papel, lápis de cor e...

– ... passamos a tarde mais nostálgica dos últimos tempos? Quero! Vamos fazer rabiscos pueris!

– Ahahaha... vou adorar. 

– Chega de crueldade e mostra logo essas fotos.

– Não prefere almoçar antes, amor?

– Nem pense em não me mostrar agora!

– Ô rapaz apressado... tá bom. Olha essa... fala a verdade! 

– Ah! É igualzinha às que eu desenhava.

– As minhas, provavelmente, eram mais lindas.

– Audácia! Quero ver quando a gente começar a rabiscar.

– Só que antes você tem que almoçar direitinho, comer verdura e legumes, como um menino obediente... ahahaha... e aí terá direito à sobremesa e à recreação!

– Ahahaha... pode deixar, vou fazer um prato de pedreiro e até dispenso a sobremesa pra ir desenhar mais rápido...

– Não existe a possibilidade de dispensar a sobremesa, sem pudim, nada de nuvens infantis!

– Ahahaha... então, vem almoçar, minha doce formiguinha! :)


* A foto que inspirou essa pueril crônica foi feita assim que vi essa nuvem... ela, realmente, me lembrou das que desenhava na infância.

sábado, 25 de abril de 2026

Desvios de rota

Animado para aproveitar a tarde ensolarada, Angelo confere os pneus da bicicleta. De férias no trabalho e na faculdade, ele está radiante, pois, finalmente, terá dias de calma e diversão. Com um enorme sorriso no rosto, sobe na magrela, mas logo na primeira esquina, precisa estrear os freios, quando uma pata e seis patinhos, em fila indiana, aparecem do nada atravessando a rua. Ainda bem que Angelo estava de bicicleta e conseguiu desviar da família de penas, caso dirigisse um ônibus ou até um Fusquinha, poderia ter acontecido uma tragédia. Foi tudo tão rápido que só deu tempo de desviar de uma caminhonete que vinha no sentido contrário e se estatelar no gramado da praça, tirando uma fina das aves. 

Respirando fundo, Angelo se levanta e ao som de seus gemidos e de quá-quás furiosos, ele tenta se aproximar da pata, mas quase leva uma bicada. Sem graça, ele empurra a bicicleta avariada de volta ao conserto. Na oficina mecânica, ele tem uma notícia nada animadora, o aro dianteiro da bicicleta está amassado e precisa ser trocado, fazer o quê... ele autoriza o serviço. Fazendo caretas cada vez que sente dor nas canelas raladas, ele passa em frente à quintanda da Dona Amora e Seu Arlindo, pensando em ir o mais rápido possível pra casa... chega de desvios de rota.

– Cadê sua bicicleta?

– É uma longa história, Dona Amora.

– A magrela ficou avariada?

– Ah! Amassou o aro dianteiro, mas ainda bem que não cheguei a atropelar ninguém…

– E essa ralada na perna?

– Não é nada, vou pra casa tomar um banho e logo me recupero!

– Mas não vai mesmo. Entra aqui, vou pedir para o Arlindo segurar um pouco o atendimento.

Cuido de você, faço um curativo rapidinho e ainda te ofereço um copo dos grandes de suco de pitaia.

– É mesmo, a senhora me prometeu este suco há semanas!

– Eu sei que estou em dívida com você, mas não precisa cobrar assim na cara dura.

– Ahahaha… desculpe!

– Bobo, venha, enquanto cuido desse ferimento, quero saber direitinho o que aconteceu.

Dona Amora grita para o marido, que está no caixa em um momento de diversão, jogando paciência. 

– O que foi, Amora? Que gritaria é essa? Angelo! Tudo bem? O que foi isso na sua canela? Se envolveu em algum acidente? Bateu a cabeça? Posso levá-lo ao médico se for algo urgente.

– Calma, seu Arlindo! Muito obrigado pela preocupação, mas estou bem, nada grave.

– Eu te chamei pra você cuidar do atendimento, enquanto faço um curativo na perna desse menino.

– E o suco de pitaia… rsrsrs…

– Ah! Também vou querer suco de pitaia, querida!

– Claro, amor! Vou fazer suco suficiente para todos nós.

– Por isso é minha Amora… doce demais… o grito é aquele azedinho que equilibra o sabor.

– Ahahaha… temos aqui um galanteador!

– Ah! Angelo, nisso você tem razão, meu marido é elegante e carinhoso até pra me criticar… por isso, amo!

Dona Amora dá um selinho em Seu Arlindo e puxa Angelo pelo braço quitanda adentro, abrindo a porta que dá acesso à casa propriamente dita.

– Sente-se! Vou pegar a caixa de primeiros socorros e não adianta fazer essa cara de que não é nada. Um ferimento é sempre perigoso, é a porta de entrada para doenças, já dizia minha mãe. Tem que cuidar!

Ele fica ali olhando os detalhes da cozinha até que avista um bolo descansando na pia, coberto com um pano de prato bordado... pelo cheiro deve ser de cenoura com calda de chocolate.

– Viu minhas cortininhas novas? O Arlindo que instalou ontem… são tão lindas! Você não acha?

– Muito lindas, gostei! Eu não me canso de dizer que essa sua cozinha é muito aconchegante, sempre que venho aqui me sinto abraçado.

– Que coisa linda de se dizer, Angelo! Obrigada! Fico feliz em proporcionar sensações tão boas pra você, querido.

– E esse bolo…

– É ele mesmo, o bolo de cenoura que você adora.

– E eu vou poder…

– …comer um pedaço enorme? Claro que vai! Quando assei, pensei em você. Nada mais agradável do que uma pessoa ficar empolgada com algo que a gente prepara! Mas primeiro vou fazer seu curativo. Deixa ver essa ralada violenta. E essa meia, vai ter que colocar de molho, hein?

– Ah! Pode deixar, quando chegar em casa, faço isso.

Dona Amora começa a passar a gaze embebida em antisséptico, Angelo se contorce de dor.

– Pra quem disse que não era nada, tá sofrendo bem, hein, querido!

– Ai… tá ardendo.

– Pois é, por isso quis cuidar de você. Raladas devem ser tratadas.

– Vou precisar… ai… de um belo pedaço de bolo.

– E o suco de pitaia?

– Sim, mas esse bolo com um cafezinho ia ser o máximo!

– Está bem, depois de fazer o curativo, vou preparar um belo café da tarde pra nós três.

– Não quero atrapalhar.

– Que bobagem, nós adoramos tomar café da tarde e quando temos pessoas queridas por companhia tudo fica mais gostoso.

Curativo feito, caixa de primeiros socorros guardada, Dona Amora coloca a água para ferver, porque, pra ela, café tem que ser coado. Angelo continua sentado, mas com cara de quem está envergonhado por não ajudar.

– Fique aí mesmo. Daqui a pouco o curativo faz efeito e você vai poder me ajudar a lavar a louça.

– Ai… acho que ainda vai doer além do café da tarde.

– Ahahaha… sei. Vou pegar o queijo e a manteiga na geladeira, enquanto isso, coloque esses guardanapos ao lado de cada xícara.

– Pode deixar.

Depois de tudo pronto, Dona Amora chama o marido. Seu Arlindo baixa a porta da quitanda com o simpático recadinho para os clientes: Pausa para o café, voltaremos em breve! :)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

São tantas emoções...

Esta é a história de um casal que vive em uma casinha de vila, daquelas que tem terraço com 
floreiras, mesinha pro café e cadeiras de balanço, lugar ideal pra dar um tempo, pra relaxar e conversar, coisa, aliás, que Dona Lavínia do Seu Nuno e Seu Nuno da Dona Lavínia adoram fazer desde sempre.

Ele é engenheiro aposentado, gosta de cozinhar arroz, feijão e misturas variadas pra dar mais energia e alegrar os dias. Muito ativo, Nuno adora fazer caminhada logo cedo pra acordar e no final da tarde pra dormir melhor. E funciona, pois ele continua cheio de disposição.

Bióloga aposentada, ela gosta de passar o tempo inventado sobremesas inusitadas, resolvendo palavras cruzadas e fazendo toalhinhas de crochê e blusinhas de tricô que doa para o orfanato do bairro. Lavínia gosta de se sentir útil, mas sem deixar de curtir seu lar e seu querido.

O casal vive muito bem na sua casinha amarela, em um dos cantinhos mais remotos da pequena vila. E mesmo a saudade que sentem por conta das raras visitas que recebem dos filhos, que aos poucos deixaram de aparecer até mesmo em datas comemorativas ou para um simples abraço nos pais, eles se divertem e, acima de tudo, adoram seu refúgio.

Embora a tristeza, às vezes, tente tomar conta do ambiente, sempre lembram que essa história começou com os dois e que eles continuam ali, dividindo as lágrimas e os sorrisos, com o mesmo brilho nos olhos que conquistou um ao outro. E como consideram feriados prolongados importantes para temperar a vida, decidiram que, este ano, nada vai tirar o encanto de saírem um pouco da rotina.

– Nem a falta dos meninos? Tem certeza que você não vai ficar tristinho?

– Claro que não, querida! Imagina, tenho a melhor companhia do mundo há décadas!

– E põe décadas nisso… ahahaha...

– Pois nem senti esse tempo todo passar.

– Ah! Isso porque você não pariu três vezes...

– Que bom que está animada, tá tirando sarro de mim a cada segundo!

– Aprendi com você!

Os dois se abraçam, sentados diante da televisão e, como sempre costumam fazer, ficam, por longos minutos, só ouvindo a respiração um do outro, até que a panela de pressão começa a fazer um barulho assustador.

– O que é isso, No?

– Calma, Lav! Vou ver, mas deve ser só o pino da panela de pressão querendo entupir…

– E você fala isso com essa calma?

– Claro, pressão é com a panela…

– Engraçadinho, cuidado! Não me diga que você tá cozinhando grão bico de novo nessa bendita panela! Quer explodir a casa?

– Não seja exagerada. Você não vem comigo?

– Eu não!

– E aquele negócio de “na alegria e na tristeza”?

– Ahahaha… o contrato não dizia nada sobre acompanhá-lo nas sandices!

– Ahahaha… como você é cruel!

Nuno faz uma careta e vai chinelando pra cozinha. Depois de alguns minutos, Lavínia ouve um grito lancinante, típico de filme de terror, e levanta assustada, mas não consegue se mexer. O silêncio que se segue é estarrecedor. 

Com muito esforço, ela tenta vencer o nervosismo e começa a andar lentamente, já com lágrimas nos olhos. Quando chega à cozinha, ela se supreende com uma cena inusitada: Nuno está com a panela aberta olhando maravilhado e a cozinha, limpinha, sem nenhum sinal de acidente.

– Por que você tá com essa cara?

– Lembra daquela receita de puchero que sempre entupia o pino e eu tinha que continuar na panela convencional por várias horas? Pois é… consegui!

– E por que o grito de terror?

– Pra dar mais emoção e te trazer pra cá… ahahaha…

– Não acredito! Você sempre arruma um jeito de me atrair, hein?

– São anos de experiência e, pelo jeito, de total êxito!

– Bobo… mas o cheiro tá maravilhoso!

– Como tudo que faço, Lav!

– Como diria Herbert Vianna, “se eu não te amasse tanto assim…”

– Talvez me enchesse de porrada, né? Ahahaha…

– Ahahaha… mais ou menos por aí, meu poeta! :)