– Cadê sua bicicleta?
– É uma longa história, Dona Amora.
– A magrela ficou avariada?
– Ah! Amassou o aro dianteiro, mas ainda bem que não cheguei a atropelar ninguém…
– E essa ralada na perna?
– Não é nada, vou pra casa tomar um banho e logo me recupero!
– Mas não vai mesmo. Entra aqui, vou pedir para o Arlindo segurar um pouco o atendimento.
Cuido de você, faço um curativo rapidinho e ainda te ofereço um copo dos grandes de suco de pitaia.
– É mesmo, a senhora me prometeu este suco há semanas!
– Eu sei que estou em dívida com você, mas não precisa cobrar assim na cara dura.
– Ahahaha… desculpe!
– Bobo, venha, enquanto cuido desse ferimento, quero saber direitinho o que aconteceu.
Dona Amora grita para o marido, que está no caixa em um momento de diversão, jogando paciência.
– O que foi, Amora? Que gritaria é essa? Angelo! Tudo bem? O que foi isso na sua canela? Se envolveu em algum acidente? Bateu a cabeça? Posso levá-lo ao médico se for algo urgente.
– Calma, seu Arlindo! Muito obrigado pela preocupação, mas estou bem, nada grave.
– Eu te chamei pra você cuidar do atendimento, enquanto faço um curativo na perna desse menino.
– E o suco de pitaia… rsrsrs…
– Ah! Também vou querer suco de pitaia, querida!
– Claro, amor! Vou fazer suco suficiente para todos nós.
– Por isso é minha Amora… doce demais… o grito é aquele azedinho que equilibra o sabor.
– Ahahaha… temos aqui um galanteador!
– Ah! Angelo, nisso você tem razão, meu marido é elegante e carinhoso até pra me criticar… por isso, amo!
Dona Amora dá um selinho em Seu Arlindo e puxa Angelo pelo braço quitanda adentro, abrindo a porta que dá acesso à casa propriamente dita.
– Sente-se! Vou pegar a caixa de primeiros socorros e não adianta fazer essa cara de que não é nada. Um ferimento é sempre perigoso, é a porta de entrada para doenças, já dizia minha mãe. Tem que cuidar!
Ele fica ali olhando os detalhes da cozinha até que avista um bolo descansando na pia, coberto com um pano de prato bordado... pelo cheiro deve ser de cenoura com calda de chocolate.
– Viu minhas cortininhas novas? O Arlindo que instalou ontem… são tão lindas! Você não acha?
– Muito lindas, gostei! Eu não me canso de dizer que essa sua cozinha é muito aconchegante, sempre que venho aqui me sinto abraçado.
– Que coisa linda de se dizer, Angelo! Obrigada! Fico feliz em proporcionar sensações tão boas pra você, querido.
– E esse bolo…
– É ele mesmo, o bolo de cenoura que você adora.
– E eu vou poder…
– …comer um pedaço enorme? Claro que vai! Quando assei, pensei em você. Nada mais agradável do que uma pessoa ficar empolgada com algo que a gente prepara! Mas primeiro vou fazer seu curativo. Deixa ver essa ralada violenta. E essa meia, vai ter que colocar de molho, hein?
– Ah! Pode deixar, quando chegar em casa, faço isso.
Dona Amora começa a passar a gaze embebida em antisséptico, Angelo se contorce de dor.
– Pra quem disse que não era nada, tá sofrendo bem, hein, querido!
– Ai… tá ardendo.
– Pois é, por isso quis cuidar de você. Raladas devem ser tratadas.
– Vou precisar… ai… de um belo pedaço de bolo.
– E o suco de pitaia?
– Sim, mas esse bolo com um cafezinho ia ser o máximo!
– Está bem, depois de fazer o curativo, vou preparar um belo café da tarde pra nós três.
– Não quero atrapalhar.
– Que bobagem, nós adoramos tomar café da tarde e quando temos pessoas queridas por companhia tudo fica mais gostoso.
Curativo feito, caixa de primeiros socorros guardada, Dona Amora coloca a água para ferver, porque, pra ela, café tem que ser coado. Angelo continua sentado, mas com cara de quem está envergonhado por não ajudar.
– Fique aí mesmo. Daqui a pouco o curativo faz efeito e você vai poder me ajudar a lavar a louça.
– Ai… acho que ainda vai doer além do café da tarde.
– Ahahaha… sei. Vou pegar o queijo e a manteiga na geladeira, enquanto isso, coloque esses guardanapos ao lado de cada xícara.
– Pode deixar.
Depois de tudo pronto, Dona Amora chama o marido. Seu Arlindo baixa a porta da quitanda com o simpático recadinho para os clientes: Pausa para o café, voltaremos em breve! :)

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