quarta-feira, 22 de abril de 2026

São tantas emoções...

Esta é a história de um casal que vive em uma casinha de vila, daquelas que tem terraço com 
floreiras, mesinha pro café e cadeiras de balanço, lugar ideal pra dar um tempo, pra relaxar e conversar, coisa, aliás, que Dona Lavínia do Seu Nuno e Seu Nuno da Dona Lavínia adoram fazer desde sempre.

Ele é engenheiro aposentado, gosta de cozinhar arroz, feijão e misturas variadas pra dar mais energia e alegrar os dias. Muito ativo, Nuno adora fazer caminhada logo cedo pra acordar e no final da tarde pra dormir melhor. E funciona, pois ele continua cheio de disposição.

Bióloga aposentada, ela gosta de passar o tempo inventado sobremesas inusitadas, resolvendo palavras cruzadas e fazendo toalhinhas de crochê e blusinhas de tricô que doa para o orfanato do bairro. Lavínia gosta de se sentir útil, mas sem deixar de curtir seu lar e seu querido.

O casal vive muito bem na sua casinha amarela, em um dos cantinhos mais remotos da pequena vila. E mesmo a saudade que sentem por conta das raras visitas que recebem dos filhos, que aos poucos deixaram de aparecer até mesmo em datas comemorativas ou para um simples abraço nos pais, eles se divertem e, acima de tudo, adoram seu refúgio.

Embora a tristeza, às vezes, tente tomar conta do ambiente, sempre lembram que essa história começou com os dois e que eles continuam ali, dividindo as lágrimas e os sorrisos, com o mesmo brilho nos olhos que conquistou um ao outro. E como consideram feriados prolongados importantes para temperar a vida, decidiram que, este ano, nada vai tirar o encanto de saírem um pouco da rotina.

– Nem a falta dos meninos? Tem certeza que você não vai ficar tristinho?

– Claro que não, querida! Imagina, tenho a melhor companhia do mundo há décadas!

– E põe décadas nisso… ahahaha...

– Pois nem senti esse tempo todo passar.

– Ah! Isso porque você não pariu três vezes...

– Que bom que está animada, tá tirando sarro de mim a cada segundo!

– Aprendi com você!

Os dois se abraçam, sentados diante da televisão e, como sempre costumam fazer, ficam, por longos minutos, só ouvindo a respiração um do outro, até que a panela de pressão começa a fazer um barulho assustador.

– O que é isso, No?

– Calma, Lav! Vou ver, mas deve ser só o pino da panela de pressão querendo entupir…

– E você fala isso com essa calma?

– Claro, pressão é com a panela…

– Engraçadinho, cuidado! Não me diga que você tá cozinhando grão bico de novo nessa bendita panela! Quer explodir a casa?

– Não seja exagerada. Você não vem comigo?

– Eu não!

– E aquele negócio de “na alegria e na tristeza”?

– Ahahaha… o contrato não dizia nada sobre acompanhá-lo nas sandices!

– Ahahaha… como você é cruel!

Nuno faz uma careta e vai chinelando pra cozinha. Depois de alguns minutos, Lavínia ouve um grito lancinante, típico de filme de terror, e levanta assustada, mas não consegue se mexer. O silêncio que se segue é estarrecedor. 

Com muito esforço, ela tenta vencer o nervosismo e começa a andar lentamente, já com lágrimas nos olhos. Quando chega à cozinha, ela se supreende com uma cena inusitada: Nuno está com a panela aberta olhando maravilhado e a cozinha, limpinha, sem nenhum sinal de acidente.

– Por que você tá com essa cara?

– Lembra daquela receita de puchero que sempre entupia o pino e eu tinha que continuar na panela convencional por várias horas? Pois é… consegui!

– E por que o grito de terror?

– Pra dar mais emoção e te trazer pra cá… ahahaha…

– Não acredito! Você sempre arruma um jeito de me atrair, hein?

– São anos de experiência e, pelo jeito, de total êxito!

– Bobo… mas o cheiro tá maravilhoso!

– Como tudo que faço, Lav!

– Como diria Herbert Vianna, “se eu não te amasse tanto assim…”

– Talvez me enchesse de porrada, né? Ahahaha…

– Ahahaha… mais ou menos por aí, meu poeta! :)

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