quarta-feira, 27 de maio de 2026

Não abandone seu poeta

A inversão de valores é explorada de forma altamente criativa pelo escritor português Afonso Cruz em "Vamos comprar um poeta". Preciso dizer que quando vi alguém, que não lembro quem, falando desta obra na internet, o que mais me chamou a atenção foi o título, que logo entrou para minha (cada vez maior) lista de leituras imprescindíveis! Aliás, benditas feiras que, por vezes, nos possibilitam comprar os livros que queremos com descontos vantajosos!

Com linguagem leve e certeira, o autor consegue prender a atenção do leitor desde as primeiras páginas. Em uma sociedade dominada pelo materialismo, onde tudo é contabilizado e negociado, a filha adolescente pede aos pais um poeta como se pedisse um animal de estimação. Na loja, o pai se certifica sobre o modelo que escolheram e o vendedor responde que o índice de subversão dele está abaixo dos 2%, mas alerta que é necessário que seja um pouco subversivo para manter a qualidade poética. O vendedor aconselhou ainda que para entretê-lo bastava comprar cadernos com folhas brancas, canetas e alguns livros! Adorei!

Além de provocar reflexões sobre o valor da poesia e da arte, a história, narrada pela adolescente, é permeada pelo humor. As características dos membros da família são um caso à parte: o pai vive tentando administrar os poucos cabelos que tem; o irmão descrito como "exponencialmente parvo", apaixona-se com facilidade e vive em "constante bancarrota emocional"; a mãe, cansada, sempre calçando pantufas gastas, recusa a compra de um artista, porque faz "muita porcaria", inclusive, uma conhecida passava horas limpando a "sujidade que ele fazia com as tintas", por isso acredita que um poeta seria menos trabalhoso. Já a narradora é a mais próxima do poeta e em determinado momento até se pergunta: "estarei a ficar poética?".

Ah! Como não adorar personagens tão bem construídos e uma narrativa inspiradora sobre a importância da cultura para o desenvolvimento humano em um mundo extremamente consumista! Aliás, vale o alerta: não abandone seu poeta numa praça qualquer! Viva a imaginação e o talento de Cruz! Salve a Literatura em língua portuguesa! :)

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