– Bate-estaca! Quem inventou isso não tem amor ao próximo!
– Ahahaha... desculpe a gargalhada... concordo inteiramente!
– Por mais que se tente abstrair, o barulho desse equipamento azucrinante domina o pensamento e chega um momento em que você só quer que e o expediente dos caras termine.
– O problema é que essa sensação de urgência pelo silêncio acontece desde cedo, mas como é que se faz pra enfrentar as marteladas o dia inteiro?
– Já tentei de tudo: meditação, yoga, alongamento, passar roupas, limpar os vidros das janelas, fazer palavras cruzadas, falar em voz alta os elementos químicos da tabela periódica e as capitais dos países mundo afora, mas tenho falhado miseravelmente!
– Ontem, tentei me concentrar num livro, mas parece que, ao invés de falar, os personagens martelavam minhas ideias...
– Ahahaha... agora eu que peço desculpas pelas gargalhadas.
– Tudo bem, amor! Sinceramente, acho que estamos histéricos!
– Como não ficar assim? Quando, finalmente, todos os planetas se alinharam e conseguimos tirar férias ao mesmo tempo, imaginando as manhãs e as tardes de calmaria... o que ganhamos?
– Dias inteiros com essa trilha sonora de filme de terror!
– Mudando de assunto, mas ainda como consequência da quantidade de prédios enormes e caixotes sufocantes que estão sendo erguidos por todos os lados... essa construção desenfreada é que prejudica o planeta. Eu tava olhando na janela e vi uma revoada de passarinhos... que tristeza... eles quase não têm árvores onde pousar, se alimentar, dormir...
– Então, adoro acordar com o canto dos pássaros... é um alívio, uma alegria! Mas do jeito que destruíram as casas e os quintais arborizados pelo bairro pra levantar esse mar de prédios, os vestígios de Natureza estão cada vez mais escassos... menos árvores e mais concreto.
– Haja paciência com esse tipo de coisa... fico pensando, se nossas férias já estão taciturnas, imagina o futuro do planeta!
– Por favor, não vamos falar em futuro do planeta... vamos ao parque... pelo menos lá a gente consegue esquecer um pouco essas sandices todas.
– Desculpe pelo estresse em plenas férias!
– Imagina, querida, nosso estresse foi patrocinado pelo implacável bate-estaca... vem cá, minha irritadinha!
– Só se você me levar longe desse caos urbano...
– "Vamos fugir, pra outro lugar, baby... vamos fugir..."
– "Pra onde quer que você vá, que você me carregue"... ahahaha...
– Ahahaha... sempre! :)
* A foto é de minha autoria, mas a revoada de passarinhos é resultado de uma ediçãozinha básica. Já os versos de "Vamos fugir" (Gilberto Gil e Liminha) são a necessária pitada de poesia.

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