sábado, 24 de janeiro de 2026

Sempé e dois Patricks

Que adoro o traço delicado e sensível de Jean-Jacques Sempé não é novidade, estou sempre tentando garimpar as obras desse grande ilustrador, cartunista e um dos pioneiros do romance gráfico francês. Em minha constante procura, curiosamente, encontrei dois livros ilustrados por ele, cujos escritores chamam-se Patrick: "Filomena Firmeza", do também francês Patrick Modiano; e "A história do senhor Sommer", do escritor alemão Patrick Süskind. Duas belas narrativas enriquecidas pela arte irretocável de Sempé!

"Filomena Firmeza" é um respiro para esquecermos as sandices que acontecem mundo afora. O livro conta a história de Filomena que, adulta, relembra a infância com seu pai em Paris. A rotina de trabalho do pai era um mistério para a filha, mas nada que atrapalhasse a relação profunda, leve e, muitas vezes, divertida. É claro que ao ler um enredo sobre infância, acabamos por lembrar das nossas próprias experiências, mas é preciso ressaltar também como a força do texto e a genialidade da arte se complementam e ajudam a nos colocar na Paris sempre tão bem retratada por Sempé e, nesse caso, tão bem contada por Modiano!

Adoro o trecho em que a protagonista conta que tirar os óculos para dançar não a atrapalha em nada... ao que o pai responde: "Vai acontecer com você como aconteceu comigo quando eu era jovem... Quando você estiver sem óculos, os outros vão enxergar em seu olhar uma espécie de névoa e de doçura... A isso se dá o nome de charme..." Ah! Que meigo!


Outra curiosidade entre as obras é que, em "A história do senhor Sommer", o tema também são as lembraças da infância. Ilustrado pelo delicado traço de Sempé, o texto de Süskind aborda temas corriqueiros, mas profundos e instigantes. O narrador já adulto nos conta experiências boas e outras nem tanto, de maneira leve e divertida, mas sempre instigando o leitor a refletir sobre suas próprias lembranças e como lidamos com os obstáculos que enfrentamos ao longo da vida.

Subir em árvores, aprender a andar de bicicleta, o primeiro amor, estudar piano com uma professora altamente exigente são algumas das passagens que o protagonista narra com bastante humor e toques de ironia, mas a cereja do bolo (sempre quis usar essa expressão... rsrsrs) são as aparições da figura misteriosa, conhecido como senhor Sommer, um andarilho que ninguém sabe de onde veio e por que anda dia e noite a passos vigorosos pelas redondezas portando apenas um cajado e uma mochila. A misteriosa figura chama a atenção do menino e acaba fazendo o pequeno refletir sobre o que o destino reserva para cada um.

  Sempé/Modiano                   Sempé/Süskind

Ah! Histórias que nos brindam com doces ilustrações de Jean-Jacques Sempé são sempre prazerosas. Aplausos às belas parcerias! Viva os escritores! Viva os ilustradores! :)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Um certo falso beato

"A relíquia", de Eça de Queirós, conta a história de Teodorico Raposo, um rapaz habituado a aventuras e amores, que precisa fingir-se religioso para sua tia, D. Patrocínio das Neves.

O leitor acompanha as lembranças do protagonista desde quando perde os pais na infância e passa a morar com a tia rica, severa e, absolutamente, beata; passando por aventuras amorosas; até a viagem à Jerusalém, que provoca uma mudança em sua postura.

Sempre tentando agradar à tia, ele leva uma vida dupla se envolvendo em uma série de situações bizarras, divertidas e até emocionantes, mas sempre pensando em se tornar o herdeiro da fortuna de D. Patrocínio.

Sem contar detalhes, o que posso dizer é que o escritor português, mais uma vez, mostra todo seu talento criativo ao retratar/criticar a sociedade portuguesa da época e colocar em discussão a veracidade dos mitos religiosos.

Certamente, o que mais me surpreendeu foi quando Teodorico volta da viagem certo que vai abafar com a "relíquia" sagrada que dará à sua devota tia... confesso que ri alto da situação e da desfaçatez do protagonista!

Ah! A leitura é envolvente, nos faz refletir sobre a falta de limites da hipocrisia humana e sobre o fato de que colocar a mão na consciência, muitas vezes, pode mudar o rumo de uma vida, ainda que nosso Teodorico seja levemente incorrigível! Salve a genialidade do grande Eça de Queirós! Viva a Literatura clássica que tanto nos inspira! :)

sábado, 17 de janeiro de 2026

Celebrando a Cidade Luz

"Paris é uma festa", de Ernest Hemingway, é especialmente encantador por apresentar as experiências de um escritor em início de carreira e por ter como cenário Paris dos anos 1920!

Nada mais agradável para quem, como eu, gosta de escrever e já teve o prazer de visitar a adorável Cidade Luz do que ler uma narrativa leve, irônica, amorosa sobre a agitada vida na capital francesa, seus escritores e artistas, as pessoas comuns, seus cafés, suas charmosas ruas, enfim, uma festa a cada página... ops... a cada esquina!

Já no primeiro capítulo, Hemingway me conquista quando fala sobre um "bom café" que conhecia na Place Saint-Michel. "Era um café agradável, quente, limpo e acolhedor. Pendurei minha velha capa no cabide para secar, coloquei meu surrado e desbotado chapéu de feltro na prateleira que ficava por cima dos bancos e pedi um café au lait. O garçom trouxe-o e eu tirei do bolso do paletó o caderno de notas, um lápis, e comecei a escrever." Ah! Esse trecho é identificação imediata! Sempre gostei de ir às cafeterias com meus bloquinhos e já escrevi algumas crônicas, contos e trechos de livros nesse ambiente! Adoro... é inspirador!

Naquele tempo, ele não tinha dinheiro para comprar livros, mas os alugava na Shakespeare and Company, biblioteca e livraria de Sylvia Beach, figura cordial e amável, que deixou Hemingway pagar pelo empréstimo dos livros quando tivesse dinheiro. Generosidade é tudo! E assim ele conseguia ler com frequência, alías, necessidade básica de qualquer autor!

Na luta para ser um bom escritor e, ao mesmo tempo, ser fiel a si próprio, Hemingway narra a dificuldade financeira pontuada pela sensibilidade, crueza e ironia. Em dias em que, pela falta de dinheiro, era difícil até se alimentar, o autor nos envolve em uma narrativa rica e emocionante pelas ruas da cidade. "Se você não se alimentasse bem em Paris, tinha sempre uma fome mortal, pois todas as padarias exibiam coisas maravilhosas em suas vitrinas, e muitas pessoas comiam ao ar livre, em mesas na calçada, de modo que por toda parte se via comida ou se sentia o seu cheiro."

Outra situação com a qual me identifiquei bastante... rsrsrs... é quando ele reclama que está escrevendo concentrado, com a inspiração nível alto, e chega alguém para atrapalhar... "Era nesses momentos que um intruso poderia estragar tudo... Lá se ia embora a minha sorte, e o melhor era fechar o caderno. Nada pior do que isso." Pois é, também já me sentei em um café para escrever sozinha no meu canto e tive o desprazer de ser achada por esse tipo de ser humano... é de lascar! Também concordo com Hem (é tanta identificação que já tô íntima do colega... rsrsrs...) quando ele diz: "A única coisa capaz de nos estragar o dia eram pessoas, mas, se se pudesse evitar encontros, os dias não tinham limites. As pessoas eram sempre limitadoras da felicidade, exceto aquelas poucas que eram tão boas quanto a própria primavera." Assino embaixo!

Ah! O livro é uma festa! Poderia ficar aqui falando por parágrafos e mais parágrafos sobre a relação de amor e companheirismo dele com a esposa, Hadley; os vários amigos anônimos e famosos com quem viveu inúmeras situações, como o talentoso e perturbado escritor Scott Fitzgerald... mas preferi ressaltar os momentos em que Hem inspirou e até incentivou a Gi escritora e sua necessidade básica de escrever histórias! Viva Paris! Salve Hemingway! :)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Frutas temperamentais

– Precisamos falar sobre bananas!

– Você diz as frutas?

– Claro! Você pensou que seria sobre o quê?

– Sei lá! Tô aqui concentrado calculando se o armarinho que compramos vai caber no...

– ... alto lá! Nós compramos, não! Você comprou! Eu disse que tinha que medir antes.

– Tá bom, armário que eu comprei! Mas você não pode negar que se encantou quando nos deparamos com ele na loja!

– Erro meu! Devia ter disfarçado o encantamento...

– Ahahaha! Agora, chega de cálculos! Sobre o que precisamos conversar?

– Sobre a pressa que as queridas bananas têm de amadurecer de uma hora pra outra... parece coisa de superpoder!

– Ahahaha! Desculpe pela risada, sei que o tema é sensível... mas a rapidez com que elas amadurecem realmente é digna do Flash!

– Ahahaha... bobo! Isso não é pra rir. Lembra o que aconteceu na semana passada? Compramos meia dúzia amarelinhas bem firmes, mas bastou uma noite na fruteira pra ficarem moles, quase podres!

– Sim... fiquei chateado porque elas acabaram com meu café da manhã... estavam pra lá de Bagdá!

– Porém, como não me dou por vencida, esta semana, lancei mão de outra estratégia: comprei meia dúzia amarela, mas ainda durinhas, e meia dúzia absolutamente verde! E mais do que isso, enquanto arrumava na fruteira, pedi encarecidamente para que não inventassem de amadurecer todas juntas!

– Bem que tive a impressão de ouvir você implorando alguma coisa na cozinha... ahahaha...

– Ria, insensível! As bananas precisam ser estudadas... sinceramente, elas parecem rir da cara da gente, podem estar verdes feito o Hulk... 

– Ahahaha... pra continuar no tema super-heróis... você é incrível, amor!

– Engraçadinho... como eu ia dizendo, elas podem estar verdes feito o Hulk na gôndola do supermercado ou na feira, basta chegar em casa e, em poucas horas, amolecem como marias-moles! Desaforadas!

– Ahahaha... o que eu digo agora?

– Não precisa dizer nada, querido! Apenas compartilhe de minha indignação!

– Compartilho inteiramente! Às vezes, dá vontade de parar de comprar bananas... dar um tempo, mas é que quando ela tá molinha você faz um bolo tão gostoso!

– Obrigada! Sinceramente, prefiro a opção de dar um tempo, porque toda hora fazer bolo de banana está ficando inviável!

– Ah! A gente congela!

– Acho que deve ser mais fácil conseguir uma licença pra vender na rua do que arrumar lugar no freezer pra quantidade de bolo que tenho feito! A gente não come mais a fruta in natura, só em forma de bolo...

– Calma, amor!

– Por acaso, quando foi a última vez que você comeu uma banana, querido?

– É verdade, nem lembro mais...

– Tô falando! Outro que me irrita é o abacate!

– Esse é difícil... a gente compra maduro e quando corta, é só machucado!

– E se quiser companhia, compre um abacate bem verde, duro mesmo... ele vai ficar na sua fruteira intacto por décadas!

– E, muitas vezes, pulando etapas... de verde direto pra podre!

– Ainda assim, continuo achando as bananas mais atrevidas!

– Ahahaha... imagina se tivessem olhos!

– Na minha imaginação, elas têm olhos, daqueles que julgam a gente...ahahaha...

– Ahahaha... olhos blasé... 

Falando assim parece que a gente tá exagerando, mas acho que até nossa fruteira tá ficando traumatizada!

– Ahahaha... será que vamos ter que conversar com ela, querida?

– Ah! Você que converse com a fruteira, já cansei de conversar com as bananas sem resultado!

Acho que a gente precisa viajar um pouco, espairecer... vamos pesquisar destinos inusitados?

– Uau! Já esqueci as frutas!

– Ahahaha... não fale assim, precisamos delas!

– Tô brincando, você sabe que amo bananas, abacates e afins.

– A única coisa que sei é que a gente se ama! O resto é salada de fruta...

– Que poético! :)

sábado, 10 de janeiro de 2026

Memórias peregrinas

Em "Doze contos peregrinos", Gabriel García Márquez nos apresenta histórias de latino-americanos na Europa, sempre saudosos da terra natal e vivendo experiências em que o corriqueiro e o fantástico se misturam.

Já disse em postagens anteriores que gosto muito da forma como o autor nos envolve em seus enredos profundos, mas confesso que, no caso dessa obra, o que mais gostei foi o prólogo, talvez porque me arrisco a escrever e tomei suas palavras como ensinamentos de um mestre!

Durante anos, Gabo anotou temas que iam lhe ocorrendo sem decidir o que fazer com eles... até que um dia ficou claro que suas anotações não resultariam em um romance, mas em uma coleção de contos curtos, "baseados em fatos jornalísticos mas redimidos de sua condição mortal pelas astúcias da poesia."

Vencendo as incertezas, os contos, finalmente, foram reescritos. "A escrita tornou-se então fluida, e tanto que às vezes me sentia escrevendo pelo puro prazer de narrar, que é talvez o estado humano que mais se parece à levitação"... Ah! Concordo muito!

Adoro este trecho que mostra bem o tempero do querido Gabo... rsrsrs: "Sempre acreditei que toda versão de um conto é melhor que a anterior. Como saber então qual deve ser a última? É um segredo do ofício que não obedece às leis da inteligência mas à magia dos instintos, como a cozinheira que sabe quando a sopa está no ponto."

Entre os contos propriamente ditos, destaco três: "Me alugo para sonhar", que tem a marca do mestre do realismo fantástico; "Só vim telefonar", que deixa o leitor completamente impotente com a situação e, ao mesmo tempo, curioso pelo desfecho;  e "O rastro do teu sangue na neve", que começa como uma viagem de lua de mel que tinha tudo para ser perfeita, mas que por um detalhe resulta na angústia da espera e da falta de notícias!

A experiência de ler o autor colombiano é sempre marcante... personagens humanos e surpreendentes, ora pela simplicidade, ora pelo extraordinário! Viva Gabo! Viva os contos, esses pequenos notáveis da Literatura! :)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Seguindo em frente

Em "Travessia", de Rapha Pinheiro, acompanhamos a saga de um explorador no deserto de um planeta alienígena. Como a HQ é uma narrativa visual, a falta da fala dos personagens torna a experiência bastante subjetiva. A trajetória do protagonista, que se interessa por obeliscos que erradiam uma luz rosa, é intrigante! Inclusive, as anotações que ele faz numa língua desconhecida não aliviam em nada a tarefa do leitor... rsrsrs...

Com cores fortes, a arte nos ajuda a entender a jornada do explorador, mesmo sem sabermos exatamente para onde vai ou o que o motiva a seguir em frente, determinado e atraído pelos obeliscos. Como leitora, o que mais me marcou foi a sensação de urgência do protagonista em caminhar quase sem parada pelos silêncios do deserto. Ah! Comprei na CCXP 25, meu exemplar tem autógrafo do autor... oba! Viva as HQs sem fala, seus mistérios e encantos! :)

sábado, 3 de janeiro de 2026

Um alto funcionário sem noção

"Uma história desagradável", de Fiódor Dostoiévski,  é uma viagem pela falta de noção de Ivan Ilitch Pralínski, um alto funcionário que de repente começa a refletir sobre a importância de todos serem tratados com mais humanidade e resolve levar isso às últimas consequências... rsrsrs... entra de penetra na festa de casamento de Pseldonímov, um de seus mais humildes subordinados, com a intenção de conquistar a todos... afinal, "... a humanidade tudo salva e tudo constrói...". Para Pralínski, tratar os subordinados com mais humanidade poderia "servir de pedra angular para as futuras reformas...".

Raciocinando de modo desconexo, os pensamentos de Pralínski o levam a achar que sua visita surpresa, no meio da festa, será um acontecimento positivo que levará à aproximação dele com os humildes convidados. Entre seus devaneios, o trecho que destaco mostra bem como ele parece fora de órbita... rsrsrs... "Bem, é claro que me farão sentar com os convidados mais importantes, com algum conselheiro titular ou parente, um capitão aposentado de nariz vermelho... Aquelas figuras que Gógol descrevia tão bem. Então, é claro, serei apresentado à noiva, vou tecer-lhe um elogio, animarei os convidados. Pedirei que não se acanhem, que se alegrem e continuem a dançar, fazer piadas, darei risada, em uma palavra: serei gentil e agradável." Mas o fato é que, a partir do momento em que Pralínsk entra na casa do subordinado, um constrangimento geral se faz presente e as situações mais bizarras acontecem.

Para além da habilidade incontestável do autor ao entregar ao leitor profundidade, crítica social e política, a narrativa fluida ainda nos brinda com personagens bem construídos e pitadas de humor na medida certa! Adorei e sigo querendo ler toda sua obra! Salve Dostoiévski ! Viva a Literatura! :)