quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Uma cruel sala de espera

– Ah! Eu não aguento olhar pela janela e ver cada vez mais uma construção colada na outra... casas tão bonitas são demolidas dando lugar a essas caixas de sapato que insistem em chamar de prédio. Acho que já  falei sobre isso...

– Calma, amor! Realmente é de lascar... seria tão bom se, pelo menos, a construção não ocupasse o terreno todo e sobrasse um espacinho, sei lá, pra uma árvore, um arbusto ou um gramado que fosse... seria tão mais saudável pra cidade!

– E, assim, nossa querida metrópole vai perdendo sua memória arquitetônica e isso deixa um vazio na gente, daqui a pouco não vai ter mais nenhum quintal de caquinho, jardins com roseira, terraços aconchegantes... é triste! Mas, mudando de assunto, qual HQ você tava lendo aí tão quietinha?

– Ah! É "A Sala de Espera da Europa", da quadrinista holandesa Aimée de Jongh. É um relato sensível sobre a situação dos refugiados, em 2017, na ilha grega de Lesbos.

– Sei qual é... e aí, gostou?

– Adorei! Os temas são pesados, mas a delicadeza da arte torna a leitura fluida, nos aproxima daquelas pessoas sofridas que aguardam a autorização pra entrar na Europa... e nos faz refletir!

– É importante, sempre que possível, jogar os holofotes sobre o tema "refugiados" para que o mundo e, principalmente, os países mais ricos se mobilizem mais a respeito. Hoje, milhares de cidadãos de várias regiões fogem de todo tipo de conflito. Inclusive, potências mundiais continuam gastando montanhas de dinheiro com armamento e guerra infinitas... lamentável! 

– Concordo plenamente! Sem estragar sua leitura, querido, só quero destacar dois momentos da HQ que me sensibilizaram: o primeiro, quando crianças bem pequenas começam a seguir a quadrinista e a guia diz pra ela evitar muita aproximação, dar colo, por exemplo, porque os pequenos têm transtornos de apego reativo... é de chorar ver as mãozinhas levantadas, mas ela explica que isso evita que eles acabem com uma visão distorcida do mundo real, quando saírem de lá.

– Que difícil deve ter sido evitar os bracinhos de uma criança... 

– Mas é como a guia disse, é algo que deve ser levado em conta para o próprio bem dos pequenos.

– E o segundo momento que você queria contar?

– Ah! Ela conheceu um casal e sua casa/contêiner, o homem que trabalhava como barbeiro no acampamento contou sua história e que ainda aguardava a permissão para seguir para Atenas, com perspectiva de ir para outro país europeu. Aí o carinho... a quadrinista resolve desenhar o casal e o homem retribui com um desenho dela... Confesso que fiquei com lágrimas nos olhos!

– Definitivamente, o mundo precisa de mais amor! 

– Quer saber o que ele desenhou, querido? 

– Não! Quero ler!

– Ahahahah... tá bom! Aguardarei suas impressões!

– Pode deixar! Mas agora, vem cá, minha leitora preferida! Vamos tomar um café abraçados na varanda?

– Vamos! Ah, amor, que bom que temos um ao outro! :)

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