– Eu sei que vocês gostam desses carros cheios de ostentação, espaçosos, que chamam a atenção onde quer que se vá, mas continuo com a minha opinião: são encantadores, no entanto, qual a graça se vão ficar guardados 99% do tempo em garagens todas monitoradas por câmeras, cães de guarda e seguranças?
– Mas papai, onde o senhor queria que a gente guardasse esses tesouros? Na calçada, em frente ao seu predinho simples, ao lado do metrô e da padaria da esquina?
– Não seja esnobe, querida!
– Seu Bernardo, já sabemos sua opinião sobre tudo isso, mas gostaríamos que o senhor participasse desse momento de conquista de nosso primogênito, só isso! Queria que o senhor se divertisse com a gente!
– Meu genro, não se desespere... peço desculpas a todos. É que toda a vez que vejo carros antigos bem conservados como esse, lembro do meu...
– ... "Bolinha Azul"! Sabemos disso, meu velho, não fique assim... um dia ainda vamos tê-lo conosco de novo e vamos fazer piquenique no parque todos os domingos de manhã!
– Ah! Minha velha, Suzaninha! Só você mesmo pra me entender... você acha que estou sendo intransigente?
– Querido, só acho que deveríamos nos alegrar, afinal, nosso neto está começando uma bela coleção de automóveis antigos... você foi um dos seus maiores incentivadores, sempre levando-o a feiras de colecionadores! Dê ao menos um sorriso!
– Parabéns, meu neto, por iniciar sua coleção... desculpe seu avô, não queria ofendê-lo... o modelo é realmente lindo.
– Vô Bê, não se preocupe, não estou chateado, sei bem do seu amor por esse famoso "Bolinha Azul"!
– Tudo resolvido! Agora, vamos voltar pra casa, porque um lanche reforçado nos aguarda!
Seu Bernardo dá um suspiro contrariado. Ultimamente, não gosta muito de ficar longe de seu refúgio, adora passar as tardes lendo romances com Dona Suzana, porém, como já criou uma leve polêmica, aceita de bom grado ir à casa da filha.
Por mais que o clima tenha pesado durante o passeio de Ferrari, Seu Bernardo e família adoram um café da tarde e assim que veem a mesa posta repleta de pãezinhos, bolachinhas, geleias, manteiga, queijos e outras guloseimas, esquecem qualquer rusga. Com a presença dos dois netos mais novos, as conversas se tornam ainda mais animadas e as risadas preenchem o ambiente.
– Filha, adorei o café, estava tudo uma delícia, mas sua mãe e eu precisamos ir pra casa descansar!
– Nem pensar... depois do jantar, vamos cantar parabéns pro senhor, papai! Fiz o seu bolo preferido! Ou o senhor estava achando que o passeio era suficiente? Precisamos e adoramos comemorar seu aniversário!
– Ah! Imagina, filha! O passeio foi suficiente pra eu quase acabar com o dia da família... eu e minha boca grande... ahahaha...
– Não fale assim, olha a alegria de seu neto por ter te levado a esse passeio de carro novo!
– Por isso, não queria ter dado essas minhas opiniões inúteis...
– Para com isso, vovô! Vamos conversar, quero saber qual sua avaliação sobre alguns modelos que estive pensando... pai, vem cá também!
– Já tô pronto! Também quero saber o parecer de meu sogro sobre nossas ideias para as próximas aquisições!
– Vem, mamãe! Quero te mostrar umas toalhas e panos de prato que comprei...
– Ah, filha, quero ver tudo!
As duas saem da sala, enquanto Seu Bernardo, o genro e os netos se empolgam com o bate-papo sobre o mundo dos automóveis antigos. De repente, a conversa é interrompida por um estranho grito de Dona Suzana.
– O que foi? O que aconteceu com minha Suzaninha?
– Calma, vô! Já imagino...
– Não se preocupe, o grito foi de satisfação, meu sogro!
– Que tipo de toalha, pano de prato ou seja lá o que for que minha filha mostrou pra mãe soltar um grito desse!? Agora fiquei curioso!
– Vamos ver, vovô!
Quando os netos e o genro abrem a porta da cozinha que dá acesso à garagem principal da casa, Seu Bernardo não consegue conter as lágrimas.
– Mas esse é meu querido "Bolinha Azul"? É ele mesmo, meu neto?
– Sim, vovô! Ele voltou para o senhor, é seu presente de aniversário!
– Como assim? Suzaninha, você sabia disso?
– Não, também fui surpreendida. Você não ouviu meu estabanado grito de alegria!?
– Mas como vocês conseguiram? Eu tive de vender meu Romi-Isetta e nunca mais tive contato com o dono, até tentei...
– Seu neto foi implacável, Seu Bê! Ele passou um ano procurando, lembra quando ele pediu pra ver as fotos do seu carro?
– Meu neto amado! Deve ter sido caro... como conseguiu achar meu "Bolinha Azul"?
– Simples, vovô! Fui atrás das pistas, conhecendo gente de tudo que é canto nas feiras que o senhor me apresentou quando eu era criança... estou realizado, comprar de volta esse carro é o que eu mais queria fazer.
– Mas como vou te pagar?
– Com seu sorriso!
– Me dá um abraço, meu neto! Nem sei o que dizer...
– Seus olhos já estão me dizendo, te amo Vô Bê! Agora, pegue sua garota e vá passear!
– Cadê a chave? Vamos, querida!
– Nada de passeio longo, casalzinho! Voltem logo pra gente cantar parabéns e comer o bolo! :)
* A foto que ilustra esta automobilística crônica é de minha autoria. O registro foi feito, há quase 10 anos, quando me deparei com essa coisinha lindinha sorrindo pra mim... rsrsrs... Pois é, assim como meu personagem, sou encantada por esse doce carrinho! ❤️

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