sábado, 29 de agosto de 2026

Passa a bola, Lola!

Ilustração: Kleverson Mariano

Aos três anos de idade, as perninhas curtas e levemente desajeitadas de Lola já adoravam chutar uma bola. Como assim, menina? Ela não podia ver os irmãos jogando futebol que esquecia as bonecas! Mas assim pequena? Claro que ainda era considerada café-com-leite do time, vai ver por isso gosta tanto da bebida.

– Passa a bola, Lola! Este era o pedido que mais se ouvia quando ela invadia a pelada dos irmãos mais velhos. Ícaro, de 10, e Ítalo, de 8 anos, passavam as férias jogando futebol num pequeno campinho gramado no quintal dos fundos cedido pela mãe para que suas roseiras se livrassem das boladas certeiras.

Como é fato conhecido, até pouco tempo atrás, as mulheres não tinham vez quando o assunto era futebol. Entender do esporte, tudo bem, mas jogar? Driblar? Fazer golaços? Sem chance, fora de cogitação! Por isso, Iolanda, ou melhor, a centroavante Lola, passou parte da infância jogando só com os irmãos.

Aos poucos, o pai, que era meio reticente em apoiar a filha em um mundo tão masculino quanto o do futebol, começou a perceber que ela tinha mais do que jeito pra coisa… e, então, quando a menina completou seis anos, deu de presente um uniforme completo com direito à chuteira profissional e resolveu que era hora de matriculá-la em uma escolinha, afinal, praticar esportes é, antes de tudo, muito saudável.

Lola ficou radiante, sua mãe nunca viu seu sorriso tão iluminado como quando recebeu o uniforme e foi pra escolinha de futebol, nem quando ganhou uma boneca do seu tamanho, seu maior sonho de infância! Ainda assim, a boneca seguiu sendo sua companheira e herdando os uniformes antigos da garotinha.

Durante todos os anos em que esteve na escolinha, o pai fazia questão de levar e buscar a filha, adorava as conversas no carro sobre o treino, as jogadas ensaiadas e seus gols. Até que um dia, o olheiro de um time grande foi assistir um jogo aleatório, sem qualquer aviso.

Na ocasião, Lola foi a única criança convidada a fazer um teste na peneira do tal clube. Emocionado e meio reticente, o pai aceitou, mas disse que precisava conversar com a esposa antes de qualquer coisa. O olheiro deixou seu cartão e marcou o teste para a semana seguinte. Lola não deu uma palavra no caminho da escolinha à casa.

A mãe, mesmo assustada com a possibilidade de sua filha se machucar num jogo de contato por vezes tão violento, apoiou Lola e, então, a família toda acompanhou-a no teste. Os irmãos, embora meio constrangidos por nunca terem sido chamados para peneiras, no fundo não se importaram, afinal, ela era a mais talentosa dos três. Resultado: a pequena foi aceita e passou a integrar o clube nas categorias de base. Festa no gramado dos fundos do quintal, abram alas para a nova centroavante!

Dez anos depois, Lola estreou como profissional na partida final do Campeonato Paulista de Futebol! Na arquibancada, pai, mãe e irmãos se desmancharam de orgulho ao assistirem ao primeiro gol da sua querida café-com-leite. Torcendo a plenos pulmões, Ícaro e Ítalo ostentavam, durante o jogo, um cartaz enorme com a frase que mais gritavam no campinho da família, mas com uma modificação bastante significativa: PASSA A BOLA PRA LOLA! :)


* Escrevi esta doce e futebolística crônica para um concurso, mas não fui escolhida... faz parte... então, resolvi postar em meu querido blog, afinal, minha centroavante merece ser conhecida!

** Assim que vi a ilustração do Kleverson (@kleverson_mariano) no Instagram, reconheci minha Lola... rsrsrs... Por isso, pedi autorização para publicar aqui e ele, gentilmente, autorizou! Mais uma vez, obrigada pela parceria e parabéns por sua arte! 

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