quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Uma escritora que merece reconhecimento

Única mulher entre os idealizadores da Academia Brasileira de Letras (ABL), Júlia Lopes de Almeida não foi escolhida para ocupar uma das cadeiras quando da oficialização da instituição, simplesmente, por ser mulher. Os intelectuais não aceitaram sua inclusão, pois se inspiraram na Académie Française de Lettres, onde não havia a presença feminina. Então, no lugar de Júlia, quem ocupou a cadeira número 3 foi seu marido, o poeta português Filinto de Almeida. Uma enorme injustiça!

Como mulher, que adora ler e escrever, fico indignada com essa falta de respeito. No início do século XX, ela era considerada a escritora mais importante do Brasil. Pioneira na luta pelos direitos das mulheres, defendia o voto e a educação formal, combateu a escravidão, a violência sexual e condenava a supremacia masculina. Enfim, uma grande escritora e uma cidadã consciente que, certamente, merece muito mais reconhecimento.

Pela primeira vez, tive a oportunidade de ler sua obra, adorei a forma como Júlia conduz as tramas, constrói os personagens e torna a leitura fluida. Além de retratar a sociedade brasileira no século XIX e início do século XX, faz uma crítica contundente à elite, enfocando machismo, preconceito e desigualdade social.

Em "A Falência", a escritora nos conta a história do português Francisco Teodoro, um comerciante que enriquece por meio do café e é casado com Camila, uma moça de origem humilde que aceita se casar em troca de ascensão social. O casal vive confortavelmente, com quatro filhos e uma sobrinha. Camila é mantém um relacionamento extra-conjugal com o medico Gervásio. Ao longo da trama, a falência que atinge a família não é apenas financeira, mas também moral. 

Gosto da maneira como a autora nos mostra o lado humano dos personagens, como quando Teodoro fica olhando as filhas gêmeas de seis anos dormindo... uma cena que mostra a ternura enorme de um homem simples que enriquece depois de uma vida dedicada ao trabalho, mas que pela ambição desmedida se arrisca em investimentos nada seguros e perde tudo. Por outro lado, viúva e novamente sem recursos financeiros, Camila precisa reaprender a viver de forma simples e consegue se reerguer trabalhando, apoiada pelas filhas e pela sobrinha, sem depender de um provedor, aí a autora apresenta uma saída inovadora para os romances da época.

Em "A Intrusa", Argemiro, um advogado viúvo, certo dia, resolve colocar um anúncio no jornal para contratar uma governanta. A ideia é que a funcionária cuidaria não só da casa, mas também da educação de sua filha, Maria da Glória, uma menina mimada, que mora com os avós maternos em uma chácara. O detalhe é que Argemiro tinha uma condição bizarra: que a governante jamais falasse diretamente com ele e evitasse circular pelos cômodos quando o patrão estivesse em casa.

Alice, a contratada, rapidamente se adapta às exigências e desempenha suas tarefas de maneira eficiente, muito carinhosa com a menina e nos cuidados com tudo o que diz respeito ao patrão. Os dias vão passando e Argemiro passa a adorar o ambiente de limpeza e organização de sua casa e a mudança de comportamento da filha.

Adorei, especialmente, um trecho em que um dos personagens fala sobre os romances e o ato de escrever: "Bem dizem os romancistas que os romances se fazem por si. Criada a personagem, posta no meio em que terá de agir, ela caminhará por seus pés até o ponto final do último capítulo. Acontece, por isso, que o autor tem, às vezes, verdadeiras surpresas, como se todos os atos dos seus heróis não fossem obra sua! Concebida a ideia fundamental do livro, está criado o sopro de vida que o animará. A dificuldade está toda no primeiro impulso!" Concordo plenamente! Viva Júlia Lopes de Almeida! Viva as escritoras, que nos abriram as portas, e sua preciosa contribuição à Literatura Brasileira! :)

* Ah! Já que estamos em tempo de eleições, valorize seu voto e celebre a importância de exercer esse direito!

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