quarta-feira, 22 de julho de 2026

A calma simpática dos jabutis

– Outro dia tava observando a gente andando pela calçada rumo à padaria...

– Tava fazendo um estudo antropológico, amor?

– Não exatamente, apenas fazendo uma observação leiga.

– Qual sua conclusão?

– Não fique contente... minha conclusão é levemente incômoda!

– Não me diga!

– Pensei que tava curioso.

– Engraçadinha! Fala logo, minha observadora social!

– Ahahaha... adorei meu novo cargo! 

– Continuo aguardando seu parecer.

– Calma, vou fazer um simples comentário... de uma sensação que me veio à cabeça enquanto vi nosso reflexo nas vitrines daquela loja de departamentos, no quarteirão anterior à padaria!  

– Tá enrolando muito... e olha que eu sou o mais paciente do casal!

– Dois erros: não estou enrolando e você não é o mais paciente do casal pelo simples fato de eu não ostentar um traço sequer de paciência em meu ser!

– Ahahaha... agora você foi assertiva em sua colocação... prossiga!

– Como eu ia dizendo, olhando pra nós dois, quem vê de fora é capaz de achar que somos completamente sedentários.

– Não entendi, não somos sedentários, pelo menos, não completamente!

– Ahahaha... pois é, acho que vamos ter de rever os treinos na academia ou ao menos aumentar a intensidade das caminhadas.

– O que você viu nesse reflexo? Será que descobriu o multiverso?

– Bobo! Vi a gente se arrastando como se fôssemos um casal de jabutis indo atrás de um naco de banana ou uma folha de acelga!

– Ahahaha... exagerada! Mas não acho que estávamos nos arrastando tanto assim... se bem que parecer com um casal de jabutis é até simpático... são tão tranquilos, dóceis!

– Concordo, mas achei que estávamos até meio corcundas...

– Também gosto do Corcunda de Notre Dame... no fundo é um romântico e só queria a Esmeralda pra ele... acho justo!

– Então, assunto encerrado, não tenho mais como argumentar!

– O importante é manter o bom-humor! Não posso fazer nada se tem dias em que minha coluna adora doer a cada passo que dou... por isso, sou uma mistura de jabuti, pela calma, e corcunda pra tentar aliviar a tensão... ahahaha... 

– Se está satisfeito, ótimo! Não gostei de me ver arrrastando os chinelos e praticamente encurvada em público!

– Exagerada! Nem tinha ninguém na rua, domingo às sete da manhã, só mesmo o casal de jabutis corcundas aqui pra ir à padaria!

– Ahahaha... que raiva! Não quero rir, queria ficar chateada...

– Você é a única pessoa no mundo que quer ficar chateada. Deixa pra lá, aquelas vitrines confundem a visão, são muitos reflexos ao mesmo tempo, parece uma sala de espelhos...

– Depois eu é que sou exagerada!

– E nervosa... e impaciente!

– Mais algum adjetivo para me definir, querido?

– Por hora é isso mesmo... ahahaha...

– Você ainda quer a torta de frango que me pediu ontem à noite?

– Ah! Não... você não é vingativa.

– Talvez um pouco sentida...

– Amor... você tá querendo confete?

– Prefiro chocolate granulado!

– Ahahaha... essa é minha garota.

– A conversa tá boa, mas tenho que ir pra cozinha...

– Nem pensar... agora quero você aqui do meu lado! Tava pensando em comer um naco de banana ou uma folha de acelga junto da jabutizinha mais linda das galáxias!

– Como não tenho a calma de um jabuti, vou assar a torta!

– Você tá dispensando seu jabuti de coluna torta?

– Ahahaha... parece nome da espécie: jabuti-de-coluna-torta!

– Ahahaha... gostou? Adoro sua risada! 

– E eu adoro sua habilidade em me fazer rir!

– Deixa a torta, o jabuti e o corcunda pra lá e vem cá rir comigo, minha querida quelônia!

– Mas você não queria a torta?

– Prefiro passar a manhã, tranquilamente, em sua companhia.

– Ah! Assim você me quebra as pernas!

– Nada de violência! Aqui é só amor! :)


* A foto é de minha autoria... os inspiradores jabutis vivem na casa dos meus queridos Betão (irmão) e Nivia (cunhada)... ❤️

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