segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Simplicidade saborosa

– Nesta época do ano, as pessoas ficam tão enlouquecidas pra fazer milhões de pratos salgados e doces pra servir na ceia, a impressão que dá é que se não fizerem receitas elaboradas com mil acompanhamentos, o Ano Novo vai ser aquém das expectativas!

– Concordo! Sempre achei que as festas de fim de ano geram uma leve histeria coletiva!

– Pois é, aí compra-se dois ou três tipos de carnes pra assar, maionese, farofa, arroz com passas... ahahaha...

– Ahahaha... nem vem... deixa as passas no panetone que fica tudo ótimo!

– Fica tudo ótimo desde que role um chocotone também!

– Claro! Ambos não podem faltar em nossa humilde ceia.

– E, sinceramente, somos fáceis de agradar... tô mentindo?

– Claro que não! Num churrasco, por exemplo, me contento com uma linguicinha fatiada! E pra você pão com vinagrete é um deleite... confere?

– Opa! Adoro comer pão com vinagrete enquanto aguardo as carnes, o problema é que, às vezes, elas demoram tanto a ficar prontas que quando me servem não cabe mais nada... ahahaha...

– Ahahaha... não exagera, você sempre guarda um espaço pra uma carninha ou, pelo menos, pro queijo coalho ou muçarela de búfala!

– Realmente, para algumas coisas a gente arruma espaço!

– Ahahaha... menina esperta!

– Mas voltando ao cardápio do Réveillon, esse ano, resolvi que vamos investir em uma ceia frugal... vamos passar sozinhos, então, acho que podemos inovar!

– Frugal? Devo me preocupar com isso?

– Bobo... vamos fazer opções saborosas, mas sem exagero.

– Já fez a lista pra gente ir ao supermercado?

– Já fiz as compras! Está tudo na geladeira e no freezer, basta irmos pra cozinha e prepararmos os pratos!

– Quando você foi às compras? De madrugada, enquanto eu dormia?

– Lembra quando você resolveu ir cortar o cabelo e passou a tarde toda enfiado no salão do seu amigo? Pois é, resolvi adiantar nossa agenda!

– E por acaso você trouxe tudo que eu gosto?

– Como o panetone, sua cerveja predileta e uma lata de pêssegos em calda? 

– Legal, mas tem outras coisas que gosto, será que lembrou?

– Azeitonas verdes sem caroço e amendoim com aquela casquinha... 

– Nossa, sou tão previsível assim?

– Essas são coisinhas que você gosta o ano inteiro...

– Você quer dizer que quando vou com você no mercado só pego as coisas que gosto como uma criança mimada?

– Eu diria criança grande, que adora ter acepipes pra beliscar a hora que quiser quando está de folga do trabalho!

– Quem ouve vai pensar que não ajudo em nada... não esqueça que tem vários pratos que eu que cozinho, principalmente os assados... sem contar que corto tomate e cebola para o vinagrete, do jeito que você gosta, em quadradinhos.

– Não entendo sua irritação, achei que você ia adorar que já fui ao mercado, assim a gente fica mais tempo na cozinha, preparando juntos o cardápio!

– Fiquei meio chocado, achei que gostasse de ir ao mercado comigo... mas não ter que sair agora na correria e aproveitar pra ficar mais tempo com você na cozinha... adoro!

– Então, agora, só falta você preparar nosso café com leite pra acompanhar um certo lanchinho...

– Ah! Você fez?

– Pãozinho francês cortado em fatias finas...

– ... com um pedaço de queijo, salpicado de orégano...

– ... esse mesmo, já levei ao forno, deve estar quase pronto!

– Viu como somos fáceis de agradar?

– Gostamos do simples...

– E a simplicidade torna a vida mais saborosa!

– Como você pode ser tão amável, mesmo sendo um ogro?

– Como você pode ser tão ogra, mesmo sendo um doce? :)


* A foto que ilustra esta crônica foi feita por mim, assim que o lanchinho saiu do forno... rsrsrs...

sábado, 21 de dezembro de 2024

Desabafo nostálgico


– Modéstia à parte, olha que coisa mais linda essa foto!

– Parabéns, minha fotógrafa!

– Isso é sincero ou contém ironia?

– Claro que é sincero, já te elogiei inúmeras vezes... por que a surpresa?

– Sei lá... às vezes te mostro uma foto e você nem olha direito...

– Injusta você, hein? Sempre admirei suas habilidades fotográficas!

– É verdade, é que eu não esperava uma reação tão efusiva quando mostrei a visão da janela com a serra ao fundo, poderosa, mostrando quem manda nessa bagaça desse mundo!

– Exagerada! 

– Como exagerada? Por acaso, você não acha que a natureza é quem manda nessa porra toda?

– Calma, amor! Claro que concordo... mas vamos mudar de assunto? Que tal um cineminha pra alegrar nossa tarde?

– Boa ideia...

– Assim você relaxa... 

– Depende... 

– Lembre-se que hoje você é quem escolhe o filme!

– É mesmo!

– Então que cara é essa? 

– Lembrei de uma coisa que me irrita...

– Só de uma? Pois eu lembro de várias coisas que te irritam... ahahaha 

– Engraçadinho! 

– Desculpa, amor, mas é que você me dá subsídios pra te aloprar... fazer o quê?

– Ah! Você vai continuar me ironizando?

– Não, prometo!

– Como estou magnânima hoje e sem a menor disposição pra discutir, vou me trocar para irmos ao bendito cinema!

– Não sem antes me dizer por que você fez aquela cara de irritação quando te convidei para um cineminha!

– Ah! É que tem coisas que me irritam...

– Agora acredito, coisas que te irritam, no plural... uma só, não tava acreditando muito...

– Vou pegar minha bolsa, nem vou me trocar mais...

– Tá bom, vamos suados mesmo...

– Ahahaha... bobo!

– Então, fala o que te aflige...

– Tá bom... o fato é que tenho saudade de quando ia ao cinema e tinha fila na bilheteria... de ouvir as conversas aleatórias e montar uma colcha de retalhos com as histórias. Quando chegava ao guichê, escolhia a poltrona e comprava o ingresso, importante dizer que fazíamos tudo isso interagindo com o atendente sempre solícito. Depois, a fila da pipoca e, em seguida, a fila pra entrar na sala de exibição... e mais trechos de conversas aqui e ali. Hoje, a gente chega na bilheteria, que até tem um atendente, mas desanimado e só pra apontar a bendita tela de autoatendimento. Que chatice! Sem nenhum glamour, você dá alguns cliques, paga, seja pelo cartão ou pelo famigerado pix, e a maquininha expele um tíquete frágil que será levemente rasgado pela moça que fica na porta da sala controlando a entrada... lamentável! Gosto da sutileza das relações humanas, da conversa com os atendentes. Incrível como tudo está cada dia mais mecanizado, não há interação e o mais triste é que as pessoas nem querem interagir mesmo, preferem ficar corcundas com os olhos pregados na tela do celular e de fones de ouvido, enquanto aguardam a sessão, ignorando o mundo à sua volta. Isso me entristece.

– Concordo com tudo que você falou, amor! Mas não fique assim chateada, admirar o mundo à nossa volta é pra poucos!

– Ainda bem que você me entende, amor! E ainda bem que a gente sabe admirar o que importa.

– Então vamos fazer uma coisa... em vez do cinema, vamos ficar aqui admirando a bela paisagem da sua foto!

– Ah! Mas você queria ir ao cinema e eu fiquei só desabafando...

– Ouvir seus desabafos é meu programa preferido!

– Também te amo! :)


* A foto que ilustra esta crônica foi feita da janela do consultório de minha médica preferida... 😉

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Ainda precisamos muito falar sobre isso...

Saí do cinema impactada pela beleza triste de "Ainda estou aqui". Por mais que se tenha acompanhado entrevistas sobre o filme e sua trajetória pelo mundo, não há como não se emocionar com o sofrimento da família de Rubens Paiva, torturado e morto nos porões da ditadura militar, que assolou o Brasil e deve sempre ser lembrada para jamais se repetir.

O início do filme me conquistou pela alegria da família Paiva em cenas cheias de carinho e diversão. Fiquei tão envolvida com a história que quando os caras da repressão levaram Rubens para dar um "depoimento", senti uma angústia tão grande como se ele fosse da minha família. Queria muito que as cenas alegres continuassem por mais alguns minutos. Confesso que fui às lágrimas. 

A partir daí, Eunice mostra toda sua força tentando reencontrar o marido, enfrentando inúmeros problemas e sempre protegendo os filhos. Uma das cenas que me chamou a atenção foi a da foto na praia, em que todos aparecem sorrindo, inclusive Rubens, e só Eunice está tensa observando os tanques militares passando a toda velocidade pela orla, como se ela tivesse tido um pressentimento. Aliás, o cartaz do filme é um recorte dessa foto.

Fernanda Torres brilha no papel de uma Eunice forte e, ao mesmo tempo, contida, que nos faz querer ajudá-la na busca pelo marido desaparecido. A interpretação serena e impecável de Selton Mello como Rubens nos brindou com momentos leves e emocionantes do pai divertido e do marido, extremamente, amoroso e companheiro.

A direção de Walter Salles, sempre competente e muito sensível, e a fotografia que nos transporta para a década de 1970, com suas cores e particularidades, são dignas de aplausos! O elenco todo está muito afinado, mas é preciso destacar o trabalho delicado e profundo de Fernanda Montenegro, que com apenas um doce olhar nos arrebata e novamente nos leva às lágrimas. 

É emocionante, mas não vou contar mais detalhes, porque é preciso que cada um assista para sentir e refletir sobre como essa e tantas outras famílias brasileiras sofreram durante aqueles anos. É, absolutamente, necessário! Assistam o filme, leiam o livro! Viva a liberdade de expressão! Viva o cinema brasileiro! :)

sábado, 14 de dezembro de 2024

Sem palavras...

Adoro textos, mas a silenciosa HQ "Um oceano de amor", dos franceses Wilfrid Lupano (roteirista) e Grégory Panaccione (quadrinista) me conquistou por ser singela, divertida e, ao mesmo tempo, reflexiva! Sem balões ou legendas, a narrativa gráfica conta a saga de um casal que vive em uma cidadezinha na Bretanha (França). Ele é um pescador experiente, que certo dia, tem o barco abalroado por um enorme navio pesqueiro e não volta para casa. Ela é uma dona de casa, que desesperada, resolve sair em busca do marido desaparecido.


A partir daí, somos brindados por momentos divertidos e inusitados quando a esposa, depois de ir a uma cartomante, resolve se arriscar em uma viagem de navio com destino a uma certa ilha, onde pensa encontrar o marido. Enquanto isso, o pescador enfrenta vários desafios tentando voltar para casa, tendo por companhia apenas uma esperta gaivota! 

Se por um lado, a HQ traz uma mensagem agradável de amor relacionado à luta do casal para se reencontrar; por outro, ela escancara os problemas provocados por uma sociedade consumista que fere os mares despejando montanhas de lixo em suas águas! 


Encantadoras, envolventes e vibrantes, as ilustrações nos fazem navegar ao longo das páginas, nos divertindo e emocionando, nos mostrando a delicada e sincera relação entre o casal, o respeito do pescador pelo oceano e, acima de tudo, renovando a certeza de que o amor continua sendo a melhor rota que podemos escolher para seguir pela vida!

Viva a sensibilidade de Lupano e Panaccione! :)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Rabiscos e lembranças

Claire adora desenhar! Seus rabiscos são muito elogiados pela família e amigos. Desde muito pequena, quando sua mãozinha nem conseguia segurar direito o lápis, ela já riscada papel, bonecas, paredes, provocando admiração de muitos e rendendo algumas bronquinhas de sua mãe, que mesmo adorando seu talento precoce, não aguentava mais limpar suas obras de arte pela casa toda... rsrsrs...

Obras de arte sim, afinal, desenhistas, ilustradores e os grande pintores, certamente, não começaram usando materiais caros, seja telas ou papel, antes de desenvolverem suas técnicas e serem respeitados como artistas! Por isso, desde de seus primeiros sóis, luas, estrelas, nuvens, árvores e flores, ela sempre acreditou que podia melhorar e nem ligava quando alguém menos sensível dizia que era coisa de criança, que quando crescesse passava... que falta de tato!

Hoje, Claire é uma quadrinista reconhecida que, mesmo em sua rotina agitada, continua sendo aquela menininha criativa que fechava os olhinhos pra se concentrar e imaginar o próximo desenho. Ainda que cercada por tablet, computador e mesa digitalizadora, ela prefere usar papel, lápis, caneta pra desenvolver suas ideias. De vez em quando, lembra do estojinho cor-de-rosa com o qual vivia agarrada, onde guardava canetinhas, lápis de cor, borracha, apontador e seus sonhos mais secretos.

Engraçado que sou da escrita, mas Claire me fez lembrar da Gi que adorava desenhar com os irmãos... cada um fazia um rabisco no papel desafiando o outro a desenhar o que viesse à cabeça a partir daquele traço que sempre tinha uma curva a mais só pra dar trabalho, irmãos são assim... rsrsrs... bastava um pedaço de papel e canetas de cores diferentes pra saber se quem desenhou depois soube aproveitar o traço original... e o resultado? Muitas risadas e diversão garantida! Brincar é saudável... experimentem! :)

* A doce ilustração que me inspirou a escrever essa delicada crônica com pitadas de lembranças da minha infância é do querido Hiro Kawahara (@hirokawahara). Mais uma vez, obrigada pela gentileza e parabéns por sua arte... ❤️

sábado, 7 de dezembro de 2024

Aconteceu em Lisboa

Descobri o livro num post que indicava títulos literários que foram adaptados para HQs. Mesmo que a adaptação para os quadrinhos tenha me chamado muito a atenção, corri primeiro para ler o livro, porque normalmente prefiro conferir a obra original antes de qualquer adaptação, seja HQ, filme, série e etc. Assim, conheci "afirma Pereira - um testemunho", do saudoso escritor italiano Antonio Tabucci, um apaixonado por Portugal e respeitado crítico e tradutor de Fernando Pessoa, tendo sido responsável pela edição italiana do poeta! 

Com uma maneira agradável e, ao mesmo tempo, profunda de escrever, o autor nos conta a história de Pereira, um solitário viúvo de meia-idade, jornalista responsável pela editoria de Cultura de um jornal modesto na Lisboa de 1938, em plena ditadura salazarista, em uma Europa assombrada também pela guerra civil espanhola e a ascensão do nazismo na Alemanha. 

Adorei a nota que abre o livro, em que o autor conta quando um português chamado Pereira lhe visitou em uma certa noite: "Naquela época não tinha traços definidos, era algo vago, fugidio e indistinto, mas já tinha vontade de ser protagonista de um livro. Era apenas um personagem à procura de um autor". Fui arrebatada logo de cara, até porque acredito muito que os personagens estão por aí querendo nos contar suas histórias, por isso, estou sempre atenta... rsrsrs...   

O que poderia ser uma obra sisuda e pesada mostra-se em vários momentos divertidos de Pereira em meio a limonadas, omeletes, conversas com o retrato da esposa falecida e nos impagáveis encontros com seu amigo padre. Quando conhece um rapaz, que contrata para trabalhar como estagiário, o jornalista começa a questionar seus próprios valores e posicionamentos. 




A HQ é de uma sensibilidade ímpar, o quadrinista francês Pierre-Henry Gomont soube extrair os pontos principais do livro e com seus traços leves e cheios de personalidade nos aproxima do pacato protagonista. 

Mesmo assim, insisto que ler o livro antes torna a HQ ainda mais bonita e fluida, tão necessária quanto a obra do italiano.

 
Ao ler a narrativa de Tabucci, nos sentimos em Lisboa, mesmo sem nunca ter estado lá. Quando lemos a HQ, podemos visualizar tudo o que imaginamos nas páginas do livro. 

Vale muito a pena prestigiar o autor italiano e o quadrinista francês que contam, magistralmente, um pouco da história de Portugal! 

É um belo encontro entre a Literatura e a História em Quadrinhos! :)

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Tijoladas nada edificantes

Naquela manhã, ela resolveu ler o jornal impresso, como todos os dias, e, em seguida, foi para o computador dar uma olhada nas redes sociais, um mau hábito que, muitas vezes, acaba com seu bom humor.

– Genial! Mas que merda!

Nesse momento, ele chega com um pratinho de pães de queijo saídos do forno, e fica observando a cena, intrigado.

– Peraí... o que você está lendo? É genial ou é uma merda?

– A tirinha é genial! Mas o que me fez lembrar é uma merda! Dá pra entender?

– Prefiro que me explique melhor...

Quando coloca o pratinho de pães de queijo na escrivaninha, ela se prepara para pegar um, mas ele a impede.

– Não senhora! Primeiro vai me explicar essa coisa genial que te lembra sei lá o quê...

Ela faz uma careta, respira fundo e desiste de saborear um pão de queijo ainda quente.

– Vamos fazer o seguinte, leia a tirinha da Laerte e depois discutiremos!

– Agora me senti numa sala de aula... leia o enunciado... ahahaha...

Ele se aproxima da tela do computador e, em segundos, começa a dar risada.

– Ahahaha... a Laerte é genial... aposto que você lembrou mais algumas tijoladas iguais a essas que nos deixam sem ação quando mais precisamos de apoio.

– Exatamente! São várias situações em que essas expressões só servem pra acabar de lascar quem já tá lascado. Esses "simples assim", "quem viver verá" e "vida que segue" podem ser altamente prejudiciais à saúde!

– São cruéis...

– Sabe uma que me lembrei e que é prima-irmã dessas da tirinha? Quando você reclama de alguma situação no trabalho ou na vida, sei lá, e a criatura tasca um "ninguém disse que seria fácil"!

–  Putaquepariu... desculpe, leitor, mas o palavrão foi inevitável. Já vivi essa situação e me irrita até hoje! Lamentável... eu lá quero saber se alguém disse que não seria fácil? Que se lasque! Se não pode ajudar, me deixa reclamar e pronto... uma hora eu resolvo!

– Ahahaha... pois é... e quando uma pessoa diz, por exemplo, que considera algo inconveniente, mas que deve fazer e o interlocutor lança mão de um "faz parte"! Normalmente, o mundo todo sabe que tal coisa faz parte, mas e daí? Qual a utilidade de falar essa groselha?

– Lembrei uma que é moda no mundo corporativo, nos livros de autoajuda, entre influenciadores digitais e nas redes sociais em geral: "você tem que sair da sua zona de conforto"! Ahahaha, que ódio! Qual o problema da gente viver assim, desde que sem sacanear ninguém? Eu lá quero ficar me desafiando o tempo todo, sai fora! É tão difícil conquistar alguma coisa nesse país e os caras ainda ficam atormentando a gente! Acabei de lembrar de outra: "você deve pensar fora da caixa"! Contentem-se com quem pensa, seja dentro ou fora da bendita caixa! Bando de caga-regra! 

– Agora estou melhor! Obrigada por compartilhar de minha indignação com esse monte de frase feita que não edifica porra nenhuma!

Ele pisca pra ela e estende o prato de pão de queijo!


* Viva Laerte e todos os cartunistas que nos inspiram, nos divertem e nos fazem refletir! :)

sábado, 30 de novembro de 2024

Nos tempos do Rei Artur

A HQ "O Cavaleiro do Dragão" me chamou a atenção por ser o resultado de uma descoberta histórica feita pelo medievalista italiano Emanuele Arioli, que reconstituiu por meio de uma série de manuscritos da Idade Média, as aventuras do misterioso cavaleiro da Távola Redonda, uma parte desconhecida da lenda do Rei Artur, perdida há setecentos anos. A história, que se passa no século V, em uma Grã-Bretanha devastada pela guerra, nos apresenta o herói Sivar, que descobre que é filho de uma poderosa feiticeira. 

Decidido a ir atrás de suas origens, o cavaleiro acaba se envolvendo na busca pelo Santo Graal, enfrentando muitos desafios e se deparando com antigos cultos e tradições místicas. As pitadas de humor, que dão leveza e amenizam os momentos de tensão, ficam por conta do esperto Didan e do gigante ingênuo Golian, que se tornam companheiros do protagonista.

Faltou falar do dragão do cavaleiro... rsrsrs... ah... mas não vou dar mais detalhes da aventura, aqui, a ideia é, simplesmente, indicar livros e HQs que valham a pena, é instigá-los a ler e ter suas próprias experiências!  

Tenho que destacar as belas ilustrações do italiano Emiliano Tanzillo, que, com suas cores fortes, dão um toque todo especial à obra.

Pra quem, como eu, gosta da lenda do Rei Artur, esta HQ é uma ótima opção de leitura! :)

sábado, 23 de novembro de 2024

Pudim de pão

– Quer um pedaço de pudim de pão?

Silêncio. Nenhuma resposta e a paciência dela se esgotando.

– Vou perguntar mais uma vez, só que vou subir o tom de voz... QUER UM PEDAÇO DE PUDIM DE PÃO?

Mas o que é isso? Você sempre me desconcentrando...

– Sem problemas, vou voltar pra cozinha e me servir sozinha!

– Não! Depois de me provocar com pedaços de alegria como as fatias de seu pudim de pão, vai me deixar aqui chupando o dedo?

– Que eu saiba você estava concentrado jogando videogame, mas se preferir pode chupar o dedo... você tem 10 opções nas mãos... e se o alongamento estiver em dia, tem mais 10 nos pés... fique à vontade!

– Como você é cruel, hein!?

– Vamos fazer o seguinte... vou sair e quando eu retornar, você, por favor, me receba com júbilo nesse sagrado recinto.

– Com o quê?

– Ah... esquece! Só me receba com animação!

Ela sai, fecha a porta devagar, fica no corredor durante cinco minutos, contados no relógio, e abre a porta novamente com os olhos brilhando.

– Oi... tudo bem? Aceita um pedaço de pudim de pão?

Com um enorme sorriso no rosto e modulando a voz como em um filme musical, ele aceita o pedaço do acepipe.

– Claro! Adoraria saborear uma fatia de alegria com você, querida!

– Que ótimo! Já coloquei a mesa para nosso lanche rápido.

– Ah! Mas precisa ser na mesa? Pensei que ia... está bem... vamos à mesa... só espere...

Ela olha com desaprovação, como se estivesse lidando com um aluno irresponsável que precisasse tomar advertência.

– ... está bem! Já estou indo, o que eu estava fazendo não tem a menor importância diante de estar em sua companhia saboreando seu pudim de pão!

– Então, vamos!

Ele olha para a tela do videogame com um ar de quem está perdendo algo precioso. Enquanto ela o espera no corredor irritada, mas se esforçando para manter o rosto sóbrio.

– Ah! Só mais uma coisa, querido, não leve o celular para nosso lanche furtivo!

– Lanche o quê?

– Está na hora de parar um pouco com o videogame e quem sabe...

– ... ler um pouco! Não seja injusta, adoro ler, só que...

– ... só que, ultimamente, quando tem um minuto de folga, já mergulha nesses jogos do cacete!

– Ué? Quando acabou a necessidade de usarmos palavras bonitas como as saídas dos romances do século 19?

– Quando você me fez perder a paciência mais uma vez, querido!

Ele a abraça rindo e os dois seguem para a sala de jantar.

– Também te amo! :)


* A ilustração é da querida parceira @alikailustra ❤️

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Dedicação e amizade

A HQ "Céleste e Proust", da quadrinista francesa Chloé Cruchaudet, narra a história de Céleste Albaret, governanta, secretária e, acima de tudo, amiga e confidente do escritor Marcel Proust, que foi decisiva enquanto o autor escrevia sua obra-prima "Em busca do Tempo Perdido". Paciente e sempre disposta a ajudar, Céleste era de uma dedicação à toda prova ao ícone da literatura mundial, chegando a ser, muitas vezes, sua fonte de inspiração. Mesmo assim, a relação dos dois têm momentos de tensão, pela personalidade complexa Proust.      

Sempre elegante e solícita, Céleste conquista a confiança do escritor! Em um dos muitos momentos singelos da HQ, já idosa, ela lembra de certa vez, depois de se verem às voltas com inúmeros papeizinhos com as correções de sua obra, Proust, já com a saúde bastante fragilizada e quase sem forças para escrever, entrega um bilhete à sua governanta, que diz:: "Obrigado, Céleste, você está linda hoje!" Uma bela relação de amizade, que marcou ambos profundamente.

A narrativa é encantadora! Além de Céleste e Proust, tenho que registrar dois personagens importantes para a protagonista: Odilon, seu marido, e Marie, sua irmã, presenças marcantes ao longo de toda a história! 
Mas o que mais me encanta nesta HQ é a arte em aquarela... de uma beleza arrebatadora! Cada página é uma obra de arte, as cores e a sutileza do traço ao retratar os cenários de Paris são dignas de aplausos! Inclusive, até despertou aquela vontade adormecida de voltar à cidade luz e aproveitar suas ruas cheias de poesia! :)

sábado, 16 de novembro de 2024

Delicadezas

O aroma de cidreira se espalha pelos ambientes da casa. Ela entra na sala de leitura, trazendo uma bandeja com duas xícaras de chá fumegantes e um prato de bolo, cortado em quadradinhos. Pé ante pé, ela deposita a bandeja, delicadamente, no aparador, senta-se na poltrona cor de caramelo, cruza as pernas e fica ali por alguns segundos. 

De repente, ela quebra o silêncio dando um leve pigarro. Ele não levanta os olhos do livro, mas um sorriso se abre em seu rosto.

– Por favor, faça uma pausa, o chá vai esfriar... não se preocupe, em seguida, deixo você novamente com seus estudos!

– Claro! Prefere ir à sala de jantar para saborearmos o chá da tarde mais confortavelmente?

– Não quero atrapalhá-lo. Lembre-se que prometeu me levar à apresentação de música clássica amanhã! 

– Vai ser ótimo! Vou terminar minha pesquisa sem falta! E, amanhã, adoraria que usasse aquele vestido pérola...

– Você adora aquele vestido!

– Na verdade, adoro você com aquele vestido!

– Assim me faz corar... vamos ao chá!

– Vai usar o vestido pérola?

– Fique tranquilo! Não vou decepcioná-lo.

– Você nunca me decepciona... aliás, que chá é esse? Uma delicia!

– A infusão com ervas frescas é sempre adorável e combina muito bem com o bolo de baunilha!

– Sim, combinação perfeita! Como você e eu!

– Como nós dois no concerto de música clássica!

– Ou ouvindo rock. A verdade é que juntos combinamos com todo tipo de música, livros, filmes!

– Mas seu tio não acha isso... ele disse que você merecia uma mulher mais sofisticada do que eu.

– Esqueça aquele ranzinza... sempre dizendo: chá combina com livros clássicos e música instrumental! Ora, para que tantas regras? Como diria minha avó: o que é de gosto, regalo da vida! Qual o problema de tomar chá de cidreira lendo uma história em quadrinhos? Ou um milk-shake lendo Guerra e Paz?

– Concordo! Desculpe ter falado de seu tio, vamos aproveitar nosso momento!

– Vamos aproveitar cada minuto... sempre! Preciso fazer outro pedido, amanhã, use os brincos de brilhantes... realçam seus olhos!

– Estarei elegantemente vestida e adornada!

– Tenho certeza! Quer que eu vista algo específico, um terno, sapatos, abotoaduras?

– A mim, basta seu braço enlaçado ao meu.

– Adoro suas delicadezas! :)

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Desumanidade

Guerras sempre foram e continuam sendo cruéis e sem sentido. A HQ "Maus - A história de um sobrevivente", de Art Spiegelman, mostra de maneira direta e, extremamente, dura as atrocidades que nazistas alemães submeteram judeus no campo de concentração de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial.

Art narra a experiência de seu pai, Vladek Spiegelman, como sobrevivente do Holocausto. A narrativa alterna momentos de tensão mostrando a ascensão do nazismo com a história de amor de seus pais, Vladek e Anja, tudo isso em meio a problemas cotidianos enfrentados durante as entrevistas que resultaram na obra.  Embora tensa, a leitura é fluida, a arte é certeira e rica em detalhes. 

Sinceramente, gosto de histórias em quadrinhos mais suaves, mas acredito que o Holocausto deva ser sempre recontado para que a humanidade não esqueça e não repita atitudes devastadoras como essa. O mais triste é que, ao longo das décadas e atualmente, as guerras continuam devastando e dizimando populações inteiras por todos os continentes! A paz se faz cada vez mais necessária! Viva as HQs que estão aí, não só para nos divertir, mas também para provocar reflexões e nos conscientizar sobre as dores do mundo!

sábado, 9 de novembro de 2024

Quadrinistas necessários!


Uma das maiores quadrinistas brasileiras, Laerte continua, ao longo dos anos, nos surpreendendo com sua arte e humor nonsense! Pra provar, trago dois momentos... O primeiro é a tirinha Piratas do Tietê (acima), publicada em 06/11/2024, na Folha de S. Paulo, que fala sobre nossa atenção perdida... rsrsrs... um belo exemplo de como a artista consegue se aproximar do leitor, provocando gargalhadas e identificação imediata com a situação... rsrsrs... Laerte é genial seja nas tirinhas de jornal (adoro que ainda existam tirinhas e jornais!), seja em HQs clássicas como as que foram reunidas na compilação "A insustentável leveza do ser e outras histórias", publicadas, originalmente, em edições das revistas Chiclete com Banana e Circo, na fase de reabertura política, pela qual o Brasil passou depois dos sombrios anos da ditadura.  

São quatro histórias... "A insustentável leveza do ser" (1987); "Os homens-pizza" (1989); "Aquele cara..." (1989) e "Penas" (1988)... não vou contar detalhes, mas posso dizer que a beleza do traço e a versatilidade de Laerte contando suas histórias recheadas de humor e crítica social são um bálsamo para quem gosta de ler histórias em quadrinhos que não só nos divertem, mas também nos fazem refletir sobre os absurdos do cotidiano.

Ah! E as tirinhas de Angeli que continuam atuais e também nos fazem refletir sobre as mazelas do mundo. Seu traço certeiro e seu humor ácido merecem todos os elogios e reverência! A tirinha "O Público e o Privado" (ao lado), publicada, em 27/10/2024, na Folha de S. Paulo, é de uma inteligência e de um sarcasmo dignos de aplausos e, mais uma vez, gargalhadas... claro que com um leve travo de amargura (fazendo uma referência à bela canção "Meu mundo e nada mais", de Guilherme Arantes), mas como diria nosso grande poetinha Vinícius de Moraes: "é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe" , mesmo que, muitas vezes, nosso dinheiro continue indo para o beleléu e o dos hómi sempre indo pra cucuia!


Laerte, Angeli e tantos outros artistas do traço e da língua afiada são sinônimos de humor absolutamente necessário. Viva os cartunistas, quadrinistas, ilustradores que nos fazem melhores e mais fortes pra enfrentar essa porra toda! :)

sábado, 2 de novembro de 2024

Ah... comédias românticas!

Existem filmes que, independentemente, de qualquer coisa, são adoráveis, divertidos... podemos assistir inúmeras vezes que continuarão nos encantando e nos provocando gargalhadas e suspiros! "Um lugar chamado Nothing Hill" (1999), que, este ano, comemora 25 anos de seu lançamento, é um desses e figura na minha lista de melhores comédias românticas de todos os tempos.

Este foi o primeiro de uma série de DVDs que comprei quando eles ainda eram a doce maneira de ver e rever um filme que gostávamos e, detalhe, com a possibilidade de abraçar a caixinha, afinal, contato físico é sempre, infinitamente, melhor!

Gosto de um tudo nesse filme, a começar pelo roteiro de Richard Curtis. Adoro filmes de roteiro, onde o diálogo é o principal (claro que isso deve ter a ver com o fato de que amo escrever histórias)! Hugh Grant é um dos meus atores preferidos, é um ser britânico absoluto, faz as maiores peripécias com aquela cara blasé e tem um charme todo especial, interpretando William Thacker, dono de uma livraria de rua no bairro mais romântico de Londres. 

Adoro as caras apaixonadas que ele faz para a estrela norte-americana Anna Scott, (Julia Roberts) que um belo dia aparece em sua livraria e, a partir daí, a história se desenrola e se enrola pra depois se desenrolar de vez e tudo ficar bem pra alegria de quem, como eu, gosta de comédias românticas!

Preciso citar Spike (Rhys Ifans), o amigo que divide o apartamento e situações hilárias com William. E ele não é só hilário, mas é muito fofo quando se junta à turma de amigos para ajudar o protagonista a ir ao encontro de sua amada... ui! Outra coisa que gosto é que os personagens coadjuvantes, além de serem todos importantes para o desenvolvimento da trama, são ricos e muito bem construídos, o que faz com que a gente torça pra tudo dar certo! Ah... a trilha sonora também é de lascar de boa... principalmente, o inspirador Charles Aznavour cantando a suave "She"... uau!

Richard Curtis assina também o roteiro de outra comédia romântica que adoro: "Quatro casamentos e um funeral" (1994), que, este ano, completa 30 anos! Hugh Grant também é o protagonista! Desde a primeira vez que assisti me chamou muito a atenção e me instigou a escrever meu primeiro roteiro/livro, que continua até hoje inacabado em uma gaveta virtual no meu notebook. Gostei tanto que até comprei o livro com o roteiro do filme. Curtis cria diálogos muito bem construídos, personagens divertidos, mas, ao mesmo tempo, profundos! Adoro! Aplausos aos roteiristas criativos e ao cinema de qualidade! :)

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Estação das flores

A casa é a mais florida da rua, talvez do bairro todo. A janela do quarto, emoldurada por uma bela árvore, parece se abrir gentilmente, como um sorriso. 
As flores coloridas,  iluminadas pelo sol da manhã, tornam-se mais atraentes para abelhas e beija-flores, que fazem a festa! No peitoril, a floreira dá ainda mais graça ao cantinho. 

A primavera é, definitivamente, a estação preferida dos donos da casa. Tudo bem que o casal também gosta do inverno, oportunidade pra assistir filmes enrolados no cobertor ou saborear um bela sopa. Do outono, pra caminhar pelas alamedas, pisando, delicadamente, no tapete de flores e folhas caídas das árvores. Do verão, pra aproveitar a alegria infantil de passar as tardes tomando banho de mangueira, mesmo que, oficialmente, apenas lavando o quintal.

Mas nada se compara à primavera e seus encantos! Não é à toa que eles ostentam o título da casa mais florida do bairro, são tão apaixonados por flores e plantas que adoram doar mudinhas para os vizinhos... o sonho do casal é espalhar o amor pela natureza para transformar a cidade num enorme jardim, ou bosque, ou pomar, ou tudo isso junto. Até a bicicleta costuma ter flores frescas em sua cestinha e estar sempre a postos, esperando os dois para um passeio tal qual Paul Newman e Katherine Ross na icônica cena do filme Butch Cassidy and Sundance Kid, ao som de "Raindrops keep falling on my head", na doce voz de B. J. Thomas.
Uau, que charme! Salve a primavera, as belas canções e os clássicos do cinema! :)


* A delicada ilustração em aquarela que me inspirou a escrever esta crônica é do amigo Gustavo Miranda! Obrigada pela parceria e generosidade... ❤️

sábado, 26 de outubro de 2024

Pequenas tensões cotidianas

– Tem umas coisas que classifico como pequenas tensões do dia a dia!

– Tá inspirada!

– Desculpe, mas preciso registrar esses pensamentos...

– Vai escrever? Quer bloco e caneta? Notebook? Tablet?

– Nada disso, vou lançar ao vento mesmo!

– Você tá bem? Alguém te ofereceu alguma bebida ou balinha estranha quando foi à padaria?

– Você que foi à padaria, querido!

– Ahahaha... é verdade! Até esqueci!

– Posso continuar com minhas reflexões?

– Pode, desde que externe o que está pensando, o vento e eu estamos curiosos aguardando!

– Ahahaha... bobo! São coisas que podem passar despercebidas para muitas pessoas, mas que me intrigam.

– Coisas que te intrigam? Não sei a do vento, mas a minha curiosidade já tá está gritando!

– Engraçadinho! A primeira delas: uma recomendação nas costas da poltrona da frente, no avião: "use o assento para flutuar". Incrível, a gente entra no avião pensando em voar e o banco da frente nos lembra que podemos ter que pensar em nadar! Que coisa tensa!

– Também acho! Mas o tema é avião?

– Não... por quê?

– Calma! É que falando em avião lembrei...

– Peraí, as reflexões sobre tensões do dia a dia são minhas e detalhe: você concordou!

– Nossa, mas o negócio é sério mesmo. Pensei que seriam colocações aleatórias e que pudéssemos compartilhar impressões...

– Adorei o discurso, mas só falei a primeira e você já quer tomar meu lugar no púlpito das tensões!

– Ahahaha... púlpito das tensões parece nome de novela!

– Posso continuar?

– Claro... o púlpito é todo seu, querida!

– Segunda... placas com a inscrição: Sorria, você está sendo filmado! É patético, basta avisar que estão nos filmando, pra que ficar sugerindo pra gente sorrir?

– Sorrir é bom pra relaxar... e se preferir, sorria e acene!

– No caso de câmeras de segurança, é melhor não acenar porque pode configurar atitude suspeita, melhor evitar... ahahaha!

– É mesmo... ahahaha!

– A terceira, pra sua alegria também envolve avião!

– Tá vendo? Sabia que devia ter mais sobre o tema!

– Deixa de ser metido, eu tinha um roteiro sobre as tensões, você é que quis atrapalhar minha performance!

– Jamais, só que conheço muito bem você e sei que devia ter mais tensões relacionadas.

– Tá bom, você ganhou! A terceira e que abomino é o momento em que a comissária demonstra como se deve colocar a máscara de oxigênio em situação de emergência.

– Pois é... e ensina com uma calma, inversamente, proporcional a uma situação de emergência!

– É irritante aquela cara blasé, fazendo tudo em câmera lenta. 

– O condenado deve ser escolhido por sorteio, porque é uma situação constrangedora, principalmente, porque a maioria dos passageiros nem olha na direção de quem está explicando.

– Eu até olho, mas não o tempo todo! Outra coisa que lembrei agora é gente que senta na janela e fecha a danada durante todo o voo, enquanto quem está no meio e até no corredor tá louco pra ver as nuvens, a chuva, a cidade, qualquer coisa, nem que seja a asa do avião! Mas esse tipo de gente parece criança birrenta! 

– Ahahaha... definiu bem! Agora, tem situação mais tensa que a hora do embarque? Aquela corrida para colocar a mala de mão no compartimento de bagagem, todos ansiosos, parece que se não guardar logo, a tripulação vai jogar tudo fora... ahahaha... 

– Ahahaha... é  assim mesmo! Agora, tá liberado pra falar suas tensões, amor!

– Ah! Obrigada, querida! O embarque só não é mais irritante que o desembarque, basta a aeronave aterrissar que todos começam a querer levantar de uma vez, ignorando os avisos pra ficar sentado cada um no seu lugar. É um desespero! Aí começam a abrir os compartimentos, todos ao mesmo tempo! E ficam amontoados, no corredor estreito, malas, mochilas e seus donos descompensados disputando pra ver quem sai primeiro!

– Arrasou com suas tensões... mais alguma?

– Tô satisfeito! Agora, só tem uma coisa que me deixa mais tenso do que tudo isso que falamos...

– O quê?

– Os dias em que vamos pedir comida por aplicativo... é a maior tensão olhar aquele cardápio com um mundo de opções e não saber o que escolher...

– Tá dando uma de irônico? Não acredito que, mais uma vez, vai dizer que sou indecisa! 

– Imagina! Pra provar que isso nao reflete a realidade, vamos pedir uma pizza? Mas tem que ser metade de cada sabor... valendo!

– Seu irritante, para com isso... não vou escolher nada!

– Olha a tensão!

– Palhaçada! :)

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Tensão em Paris

Mais uma HQ assinada pela talentosa e criativa dupla Lafebre e Zidrou, "A Mundana" acontece, nos anos 1940, em uma Paris ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Desde a primeira cena, que mostra parisienses enfrentando o bombardeio e o toque de recolher imposto pelas forças de ocupação, já dá pra perceber a qualidade do que temos em mãos, tanto pelo roteiro quanto pela arte, e o que podemos esperar ao longo das páginas dessa ficção com belas pitadas de História!  

A narrativa envolvente nos apresenta personagens comuns que tentam seguir a vida em meio aos bombardeios e à tensão que a cidade luz vive. O protagonista é o inspetor Aimé Louzeau, que trabalha na Vicios, uma brigada policial de Paris, que combate prostituição e drogas. Em uma das operações, ele se depara com a taitiana Eeva (com "e" duplo), que ilustra a capa da HQ e dá um toque de mistério à trama.  Ainda que seja uma história marcada por momentos de violência, como em todo roteiro de Zidrou, há espaço para o humor refinado e personagens bem construídos e de uma tocante humanidade.


Para completar, tenho que dizer, mais uma vez, como me encanta a arte de Jordi Lafebre. Seu traço é de uma beleza impressionante, criativo e divertido na medida certa. Cada página é uma obra de arte, com suas nuances de cor, acompanhando o ritmo da história... cenários ricos em detalhes... cada personagem tem seu charme. Ah! Sou fã mesmo e toda a HQ que ele assinar faço questão de colecionar! Viva os roteiristas e ilustradores que tanto me inspiram! :) 

sábado, 19 de outubro de 2024

Um doce vilarejo

Faz tempo que não escrevo sobre alguma música aqui em meu querido blog. Mas esta semana, em um dos momentos em que procurei aconchego, me atentei a “Vilarejo”, de Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Pedro Baby. Que linda canção que me emociona cada vez que ouço, principalmente, esta apresentação ao vivo dos Tribalistas (video que compartilho pra sonharmos juntos... rsrsrs)! Adoro! É delicada ao falar de coisas simples e preciosas! É de uma beleza esperançosa que me animou, me inspirou... quase saí dançando, rodopiando de braços abertos! Já conhecia essa música, mas como tudo tem sua hora, neste momento, ela me tocou!

Gosto dos Tribalistas... da potencia sofisticada de Marisa, da intensa sonoridade de Brown e da poesia pungente de Arnaldo... como não gostar do que eles e seus parceiros produzem?


Engraçado que escrevi uma crônica há alguns meses, mas postei só nesta quarta-feira e agora vejo como minha “Cidadezinha” é irmã do “Vilarejo”, porém, enquanto a minha é modesta crônica, a deles é bela canção! 

“Lá o tempo espera, lá é primavera. Portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar. Em todas as mesas, pão, flores enfeitando os caminhos, os vestidos, os destinos e essa canção...” Ah! Sou só aplausos e lágrimas, emoção de quem adoraria ter um teto nesse vilarejo de amor! A beleza de certas canções pode deixar o dia mais leve, amenizar as preocupações e me fazer sonhar ainda mais... que perigo... ahahaha... Viva a música e os grandes artistas brasileiros! :)

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Cidadezinha

Era uma vez uma cidadezinha com bairros repletos de casinhas de cores variadas e janelas de madeira. Todas com quintal e jardim de roseiras e buchos, aqueles arbustos que parecem pequenas arvorezinhas, que despertaram muito a criatividade da Gi criança… rsrsrs… mas isso é outra história! Na frente, terraço com muretas baixas, samambaias penduradas no teto, derramando beleza e frescor aos privilegiados que descansam nas cadeiras de vime que completam o ambiente.

Delimitando os terrenos, cercas e portões de madeira baixinhos pra todos que passam na calçada poder admirar as rosas bem cultivadas e as toalhinhas de crochê na mesinha de vime no terraço. Duas portas de entrada, a da frente elegante, forte, de madeira nobre, sempre fechada a chave, garantindo a tranquilidade da sala de estar. No quintal do fundo, a porta da cozinha permanece aberta durante todo o dia, com sua cortininha de plástico esvoaçando e os aromas de bolo, assados e aquele cafezinho sempre fresco.

Ainda no fundo do quintal, um abacateiro pra dar a sombra agradável tanto pra quem quer brincar no balanço, como pra quem quer, simplesmente, sentar e ler em sua companhia. Num cantinho, uma horta com temperos, ervas, legumes e verduras. Sem esquecer do pequeno pomar com uma jabuticabeira, uma romãzeira e uma goiabeira, de onde sai a matéria-prima da goiabada mais gostosa das galáxias!

Bem sinalizadas com guias, permanentemente, pintadas de branco, as alamedas são tomadas por bicicletas, que dividem espaço com as senhorinhas e seus carrinhos de feira e poucos carros, principalmente, usados para os serviços públicos, além de um ou dois abastados habitantes da cidade que não conseguem resistir ao ronco dos motores e teimam em poluir o ar e a beleza do lugar, mas isso também é outra história!

As ruas de comércio, no centro da cidade, formam um quadrilátero em volta da praça principal. As lojas, muito bonitinhas com suas portas de madeira e vitrines iluminadas, vendem de um tudo, de alimentos a material para construção, de medicamentos a ração animal, de flores a itens de papelaria. São padarias, cafés, lavanderias, farmácias, docerias, bares, restaurantes, lanchonetes, lojas de ferragens, salão de beleza, barbearia.

Na praça principal, um coreto, onde a banda municipal costuma tocar em datas especiais e, aos sábados e domingos, à tarde. O Jacarandá-paulista, símbolo da cidade, divide a praça com dois ipês, um amarelo e um rosa, além dos arbustos, ladeados por passeios de pedras e gramado impecável. Quatro bancos colocados estrategicamente em pontos isolados, garantem privacidade tanto para as conversas mais românticas, quanto as de trabalho ou pra fofocar… fazer o quê? É da vida… rsrsrs…

Bom saber que a cidadezinha tem praças menores e canteiros por todos os quarteirões de seus 10 bairros. A arborização é o charme do local e o xodó de seus moradores. Existem, sim, os jardineiros oficiais, que são funcionários públicos, mas todos os habitantes são responsáveis pelas plantas e árvores e cuidam como se fossem as de seus quintais, tudo formalizado por lei municipal de muitos anos atrás. Ou seja, a consciência ambiental é uma marca desse lugarzinho.

No lado norte da praça principal, a majestosa Biblioteca Municipal, com seus mais de 30 mil livros catalogados, oferece conhecimento, alegria e sonhos a seus frequentadores. A maioria dos moradores da cidadezinha é leitor voraz e tem na Literatura, em suas mais variadas formas, uma companheira para noites frias, tardes ensolaradas e madrugadas insones. Mas, acima de tudo, eles acreditam que a leitura transforma e conscientiza sobre as dores do mundo e as belezas da vida!

E, então, quer saber onde fica essa agradável cidadezinha? Em minha imaginação, misturada às lembranças da infância. Talvez essa cidadezinha seja minha forma de sonhar em meio a tanta tragédia climática nos quatro cantos do planeta, porque, parafraseando Legião Urbana, torço por um mundo onde o simples seja visto como o mais importante! :)

* A doce ilustração é do meu irmão Gé (Gerson Donato), um historiador que adora desenhar desde sempre... obrigada pela gentileza ❤️

sábado, 12 de outubro de 2024

Literatura aquarelada

Um dos maiores clássicos das histórias em quadrinhos, Moonshadow, de J. M. DeMatteis e Jon J. Muth, surpreende desde as primeiras páginas da narrativa, cujo personagem-título é um rapaz ingênuo, fruto do relacionamento de sua mãe, uma hippie terráquea, com um alienígena. O pai de Moon é da raça conhecida como Des-Mesus, esferas sorridentes que vivem abduzindo espécimes de todo o Universo! Não vou contar mais detalhes, porque a jornada fantástica é cheia de nuances e aventuras que valem a pena ser experimentadas durante a leitura!

Inocente, Moon conhece o mundo pelas narrativas da mãe e pelos livros que lê, mesmo assim resolve partir em uma jornada de descobertas, ao lado de seu gato, Frodo, e de Ira, um sujeito de reputação duvidosa, de quem quero falar mais daqui a pouco. Antes preciso dizer que uma das coisas que me encantaram foi a forma reverente com que DeMatteis cita suas referências na Literatura, como J. R. R. Tolkien. Logo me identifiquei, adoro a obra do criador de O Hobbit!

Enquanto Moon é sensível, gosta de livros, toca flauta, que ganhou de sua mãe, seu companheiro, o peludo e rabugento Ira, adora se meter em encrencas regadas a cerveja e sexo. Mesmo sendo esse problema em forma de criatura, Ira me chamou a atenção pela semelhança com o querido Chewbacca, o copiloto da nave Millenium Falcon e melhor amigo de Han Solo, da melhor saga das galáxias: Star Wars! Será que viajei muito? Ahahaha, mas quando a gente embarca nessa fantasia, o encantamento é garantido mesmo!

Na introdução desta edição definitiva, publicada pela editora Pipoca & Nanquim, DeMatteis fala como foi seu desenvolvimento como roteirista e como Moonshadow mudou sua vida criativa. Adorei o trecho: "Alguém (por mais que eu tente, não consigo lembrar quem) disse que a história na qual você está trabalhando nesse momento devia ser a única que vai escrever na vida: jogue ali tudo que pensa, tudo que sente, suas ideias e seus ideais, suas paixões e suas filosofias, seus sonhos e suas esperanças. Despeje ali cada gotinha da Pessoa Que Você É. Foi o que fiz em Moonshadow. Foi ali que... virei escritor"! Adorei essa entrega, não é à toa que produziu um clássico!  

Ah! O texto de DeMatteis é de uma criatividade envolvente, a cada capítulo, aumenta a curiosidade de acompanhar a jornada daquele rapazinho universo afora. Já a arte aquarelada de Muth é de uma beleza encantadora, delicada e, ao mesmo tempo, intensa. Moonshadow é um verdadeiro encontro de mestres! :)

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Artistas de rua

Ilustração: Jordi Lafebre
– Olhando essa foto, você tem noção que já se passaram décadas? Eu acho que eu tinha uns oito anos!

– Pois é, eu tinha 10 anos!

– Como é que pode? Você lembra quando essa foto foi feita?

– Ah! É o registro de nossa primeira apresentação! Voltamos pra casa tão animados, atropelando tudo que víamos pela frente!

– Ahahaha... é verdade, a mãe deu uma bronca e tanto porque a gente entrou espezinhando o chão que ela tinha acabado de limpar!

– Ah! Mas a gente tava numa euforia que só queríamos alcançar nosso quarto e voltar a sonhar com os palcos.

– Nosso palco sempre foi a rua...

– Mesmo assim, só de se imaginar num palco de verdade bastava, pelo menos pra essas duas crianças da foto.

– É verdade! Mas tô olhando aqui sua estampa...

– Ih! Já vai me aloprar...

– Não, só tava vendo como você era fofinho... rsrsrs

– Sei... gordinho, você quer dizer?

– Pra mim, sempre foi fofinho, depois que espichou e emagreceu...

– Perdi a graça?

– Claro que não! Você acha que o irmão da Nina aqui vai perder a graça algum dia?

– Ahahaha... concordo, somos charmosos desde pequenos.

– Mas, Juan, me diz uma coisa... quando você se olha no espelho você vê esse menininho?

– Vejo um carinha que teve uma infância criativa e muito alegre e sinto que ele continua aqui! E você quando olha no espelho vê essa menininha bochechuda e de olhos grandes?

– Ahahaha... não tenho tanta bochecha, mas aquela menina está aqui sim!

– Os olhos grandes continuam...

– Pois é... mas são bonitinhos... ahahaha...

– Claro que são! A irmã do Juan aqui tem olhos lindos desde pequena! E continua cantando muito bem...

– ... nas ruas!

– Qual o problema, Nina? Rua é o que mais tem em uma metrópole! Nosso palco é amplo!

– Fico triste, Juan, porque você é um músico estupendo e eu devo ter atrapalhado sua carreira... se você tivesse aceitado aquele convite...

– Convite? Pra abandonar minha irmãzinha sozinha nas ruas? Nem pensar!

– Mas eu não era, nem sou tão boa cantora como você é um artista completo.

– Para com isso! Fomos, somos e continuaremos sendo uma dupla mais do que dinâmica!

– Você sendo sempre mais otimista que eu...

– Sou apenas menos preocupado que você! Olha, tá juntando gente! Guarda essa foto, vamos começar nossa apresentação! :)

* A delicada e expressiva ilustração que me inspirou a escrever essa crônica garimpei do talentosíssimo quadrinista Jordi Lafebre, que autorizou, mais uma vez, que eu publicasse seu trabalho aqui em meu querido blog! Gracias, Jordi!

sábado, 5 de outubro de 2024

Uma menina punk

Sabe quando você gosta da capa de uma HQ? Pois é, com Superpunk, de Guilherme Petreca e Mirtes Santana, foi assim! Logo que a Editora Pipoca e Naquim anunciou a pré-venda fiquei muito curiosa!

A história tem como protagonista Violeta, uma menina de 13 anos que anda caindo do skate... rsrsrs... pois é, ela não é das melhores, e vive pra lá e pra cá com o walkman herdado de seu avô, ouvindo punk rock! 

Uma garota, aparentemente normal, que vai à escola, de skate, claro... Violeta vive altas aventuras com seu amigo Alan. Só que algo acontece quando ela toca uma fita cassete ao contrário e, a partir daí, se transforma na heroína mascarada Superpunk que... ah... não vou contar mais nada, mas garanto que vale a pena descobrir o que acontece!

Quando comecei a ler, na hora, lembrei de uma menina chamada Gisele (eu mesma... rsrsrs), que também adorava seu walkman e curtia ouvir suas músicas preferidas sempre em movimento pelas ruas de São Paulo... uhuuuuuu... por isso, tambem adorei esse lado retrô da personagem! 

Importante dizer que é uma aventura radical, mas também trata de temas relevantes como crescimento, amizade, autoconhecimento, confiança e a necessidade de se rebelar! Viva as HQs, os roteiristas e quadrinistas brasileiros! :)

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Uma leve consciência ecológica

– Ontem, quando eu coloquei a bolsa de gel pra amenizar a pancada que dei na perna, fiquei pensando...

– Que bom!

– Não seja engraçadinho... quer saber o que eu estava pensando?

– Fala logo, rainha das longas introduções!

– Tá bom, vamos direto ao assunto antes que eu alcance aquela cadeira...

– Ahahaha... nem vem!

– Eu tava pensando que as coisas que facilitam a vida do ser humano sempre fodem o planeta!

– Olha a boca, menina, pode ter crianças na sala...

– Não vou cair nas suas piadinhas, a minha linha de pensamento é séria. Minha avó e minha mãe usavam aquela bolsa de água quente normal, de borracha, que durava pra caramba. E o mais importante, dentro, a gente colocava água, não tinha um gel que deve ficar sei lá quantos anos pra desintegrar, sem contar o plástico que lasca com a Natureza.

– Concordo, mas você tem que dar o braço a torcer... aquecer a bolsa de gel no micro-ondas é mais fácil que esquentar água e encher a de borracha que costuma dar aqueles respingos na mão...

–  Mesmo assim é o que pensei... muita facilidade só...

–  Chega de palavrão! Já entendi. Então, na volta pra casa, vou passar na farmácia e comprar uma daquelas bolsas da Era Paleolítica!

– Não perca seu tempo, nós já temos uma...

– Temos? E onde está?

– Na gaveta de primeiros socorros, no banheiro.

–  E por que você não usou a tradição?

–  Por que estava com dor e era mais fácil usar a de gel.

–  Aí veio outra dor, a da consciência... entendi!

– Prometo que quando a de gel vencer, volto a usar a tradicional!

– Lamento informar que a tradicional também tem validade e se a gente não usa faz tempo, aliás, eu nem sabia que a nossa existia, a borracha pode estar grudada e aí não tem jeito.

– Mas ela dura mais e faz menos mal ao meio ambiente...

– Tá, então, vou jogar fora a de gel!

– Peraí... não faça isso, hoje à noite tenho que usar...

– Ah! Que beleza, ela só quer cuidar do planeta depois que sumir o roxo da perna?! Que consciência ecológica!

– Por acaso, você vai me ajudar?

– Você precisa de ajuda pra colocar água pra ferver?

– Insensível... preciso de ajuda para encher a bolsa de água quente...

– Quer que eu procure um tutorial na internet, jovem?

– Ahahaha... tá bom, confesso que nem ia comentar com você porque não teria como explicar o fato de que optei pelo mais fácil que fode o planeta!

– Ahahaha... tá bom, vamos refletir mais sobre esse assunto e adotar medidas mais ecológicas em nosso lar!

– Agora?

– Como agora? Consciência ecológica não é chá que a gente toma e tá tudo resolvido.

– Ahahaha... não fala assim que pressiona os chás, nem sempre eles resolvem tudo, apenas amenizam as dores, às vezes, físicas, às vezes, emocionais!

– Um a zero pra você, não sei mais o que dizer... só sentir.

– Ah! Assim você me deixa sem chão...

– Jamais! Pode cair em cima de mim... ahahaha...

– Bobo! :)

sábado, 28 de setembro de 2024

O herói mascarado de Eisner

A obra de Will Eisner é realmente inspiradora, com belos roteiros e personagens bem construídos, é considerado um dos quadrinistas mais influentes da Nona Arte. Em junho, fiz uma publicação sobre algumas de suas obras, adoro! 

Agora quero falar sobre Spirit, o herói mascarado, criado em 1940. A coletânea, publicada pela JBraga Comunicação, em comemoração aos 80 anos do personagem, traz nove histórias, inclusive a que conta como o criminólogo Denny Colt se tornou Spirit, temido pelos bandidos de Central City. 

A que mais gostei é "Ouro", uma mistura de faroeste, mistério e aventura, mostrando toda a genialidade de Eisner ao criar ambientes, tramas e ilustrações, resultando em histórias que envolvem o leitor a cada quadrinho!

Achei interessante também os depoimentos, que precedem cada uma das nove HQs, assinados por profissionais renomados da indústria dos quadrinhos. Eles trazem detalhes da forma como Eisner trabalhava, sobre a criação de Spirit e reiteram a admiração que têm pelo artista que, além de ser considerado o pai das HQs, popularizou o termo graphic novel quando publicou, em 1978, o álbum "Contrato com Deus e outras histórias de cortiço"! 

Só faço uma ressalva, embora respeite muito o trabalho dos artistas que colorizaram cinco histórias, confesso que prefiro Spirit em p&b! Mas qualquer publicação com obras de Eisner vale a pena! Viva os clássicos das histórias em quadrinhos! :)